José Carlos da Silva: A memória de uma alma

“Lousada é daqueles amores que são naturais. Lousada é indelével. Lousada fica na história”

José Carlos Ribeiro da Silva, nascido em Meinedo no ano de 1963, é professor do ensino básico primário. Porém, atribuir apenas esta função é vago, dado todos os papéis da sua vida. Desde pequeno que nutre um gosto por ler e escrever que encaminharam, de certa forma, os seus interesses. É um investigador e historiador do património lousadense, bem como um amante da política. Desta forma, tornou-se um assíduo escritor em alguns jornais onde partilha os seus conhecimentos em diversas áreas. Conheça o cidadão que apadrinha a memória nas suas várias formas. 

Nasceu em Meinedo, mais especificamente, em Romariz e é a esta terra que todas as suas lembranças de infância pertencem. Contudo, mudou-se aquando do matrimônio para Lodares onde permanece até aos dias de hoje. 

“A minha vida não foi fácil”, principia. Quais são os motivos desta afirmação por parte do protagonista desta edição? Tinha 13 irmãos, embora um deles tenha falecido em pequeno, o seu pai era mestre de obras e a sua mãe doméstica. Naturalmente, após o término da quarta-classe, o caminho era ingressar no mundo do trabalho. 

José andou numa antiga escola em Romariz onde guarda boas memórias apesar das condições. “Éramos trinta crianças dentro de uma sala cheia de buracos”, conta. Na mesma, concluiu o terceiro ano de escolaridade e prosseguiu com os seus colegas para Meinedo. Encontravam-se e seguiam rumo, todos juntos, a pé. As brincadeiras no ringue e na rua da sua casa foram relembradas. 

Entretanto, havia terminado o primeiro ciclo e o seu destino era trabalhar (como referido anteriormente). Os seus irmãos mais velhos acederam-no e as suas irmãs juntaram-se à progenitora em casa. Porém, o lousadense possuía bastantes capacidades e tal não passou despercebido aos olhos da professora. “Modéstia à parte, eu era o melhor aluno e substituía a professora quando ela assim o entendia”, sublinha. Desta forma, a mesma decidiu convencer o pai para que o deixasse prosseguir os estudos. Sem sucesso. 

Após esta tentativa, foi a vez do Sr. Padre Meireles ir ao encontro do progenitor. Numa manhã de domingo apanhou o seu pai na padaria a ir buscar regueifa e deu-lhe boleia. Esta foi tão sagrada que, no dia seguinte, José foi fazer a matrícula ao antigo ciclo, situado nas instalações da atual Câmara Municipal de Lousada. Apesar da insistência de várias pessoas, o louzadense também possuía vontade em continuar os seus estudos pois sempre gostou de três coisas: estudar, ler e escrever. 

Concluído o segundo ciclo, transitou para o Colégio Eça de Queirós onde esteve até ao 9º ano. Os primeiros dois anos de escola foram realizados a pé, através de atalhos pelo monte, e graças a esta situação conhece Lousada perfeitamente. De seguida, mudou-se para Penafiel e nesta fase o seu pai voltou a manifestar desejo em que abandonasse. “Ele era mestre de obras e tinha vários conhecimentos, logo queria que me tornasse bancário. Mas a minha mãe e a minha irmã Glória conseguiram-lhe dar a volta. Aliás, a Glória disse que me pagava os estudos. E pagou. Anos depois devolvi-lhe tudo. A minha gratidão é eterna”, explica. 

No final do seu ensino secundário, tinha a ideia de prosseguir medicina. Mas essa ideia acabou devido ao falecimento do seu pai em 1982. Após esta infelicidade, várias pessoas (irmãos) predispuseram-se a pagar-lhe o curso, porém, rejeitou sempre. Um casal amigo sugeriu-lhe outra opção à qual acedeu. De 1982 a 1985, frequentou o Magistério Primário em Penafiel. 

No meio desta vida difícil, entre dificuldades e perdas, formou-se em professor do ensino primário. Mas sem esquecer que, apesar de ter sempre estudado, quando chegava as férias grandes da escola ia na mesma trabalhar com o seu progenitor. Após esta formação, concorreu e foi parar a Odemira que é uma vila portuguesa pertencente à região do Alentejo e ao distrito de Beja. 

Durante os dois anos que lecionou nesta zona, vinha de três em três meses a casa numa viagem de 12 horas. As condições da sua habitação não eram as melhores. “A minha casa era uma estufa, aliás para ir para a cama tinha de apagar primeiro a luz e depois ir às escuras”, conta. Para mais, sempre que desejasse tomar banho era todo um enredo para o conseguir, pois a proprietária tinha de passar-lhe água quente e fria vezes sem conta. E, muito mais se poderia referir desta época, como o pagamento trimestral do salário. Só acontecia nos primeiros três meses e no primeiro ano de trabalho.

No fundo, tudo fez parte até um certo ponto. Após este período, os professores receberam um bônus que consistiu em subir dois escalões na carreira. Dado isto, lecionou numa escola dos Gaiatos, em Paços de Sousa e, passado um ano, foi para Castelo de Paiva porque o concurso havia mudado. Depois concorreu apenas a estabelecimentos de ensino da sua terra e, desde então, nunca mais saiu. Sousela, Lustosa, Nevogilde, Figueiras … são algumas das freguesias pela qual passou.

Escola de Bairral, Sousela, 1991

Questionado sobre a sua experiência de trabalhar com crianças dos 6 aos 10 anos de idade refere, de imediato, que sempre se deu bem. “É espetacular ser professor de miúdos tão pequenos”, declara. Segundo o próprio, é necessário dar-lhes muita atenção e valências que vão além da aprendizagem. Desta forma, rege-se por um ensino muito próximo. 

Escola de Figueiras, 2013

José esteve muitos anos na educação especial e, atualmente, encontra-se no apoio educativo do Centro Escolar de Figueiras. Convidaram-no e decidiu aceitar. Nesta escola, tornou-se efetivo e foi professor titular, porém, desde 2017 está na função acima mencionada. 

A sua formação académica não ficou pelo Magistério Primário. Em 1993, ingressou na Universidade Portucalense (UPT) para a licenciatura em Ciências Históricas (Ramo Património). Anos mais tarde, de 2005 a 2007, tirou o mestrado em História de Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Este interregno deveu-se a já ser pai e querer acompanhar de perto a educação dos filhos. 

Desengane-se quem acha que a vida de José baseia-se no ensino. O gosto por ler e escrever, desde pequenino, encaminharam a outros gostos que mantém. “A história é uma coisa fantástica”, confessa. Partindo deste pressuposto, tornou-se investigador e historiador do património lousadense onde escreve sobre o passado estudando documentos. 

“Houve uma época em Lousada em que quase ninguém se interessava pela história lousadense”, sublinha. Este sempre se interessou e dedicou a esta área, desde a altura em que ouvia atentamente a sua mãe a contar histórias sobre os seus antepassados. De acordo com o próprio, o património é a nossa memória histórica e se ninguém a contar/estudar vai acabar por esquecer-se.

Neste seguimento, enaltece o trabalho de alguns membros que se encontram na Câmara Municipal de Lousada nos patrimónios ambientais e culturais. Porém, este é escasso. “Há uma necessidade de realizar estudos mais temáticos e profundos. Contudo, é preciso mais gente que aquela que existe”, reforça. 

Quanto ao seu trabalho das Casas Nobres, rubrica do jornal O Louzadense, o professor refere que muitos arquivos irão acabar por perder-se. A partir do momento em que estas são vendidas, torna-se mais difícil que perdurem. “A conclusão que cheguei quando as estudei é que o problema não é tê-las, mas mantê-las. É necessário algum poder para cuidar de casas rurais”, sublinha. 

Escrever sobre o passado é a sua paixão, porém, o seu vício é escrever sobre a política lousadense e os respetivos homens desta. De acordo com o próprio, nos finais do século XIX e princípios do século XX houveram figuras importantes em Lousada que fizeram com que a mesma evoluísse. “Fui guardando memórias desde 1974 e em 1989 dediquei-me à atividade política”, conta.

José possui ideais políticos e, neste momento, encontra-se na oposição. Devido a tal situação, afirma que é bastante difícil fazer oposição e enumera algumas pessoas que admira por o fazerem. Para mais, é difícil fazer política no concelho de Lousada, na medida em que as pessoas conhecem-se todas. “Até 1989 o Partido Social Democrata liderou, mas desde então perdeu sempre”, conta. 

O lousadense relembra o período de 1974 onde assistiu à adesão em massa do movimento de professores, familiares e conhecidos. “A maior parte, naquela época, não sabia o que estava a festejar”, salienta. Conforme o próprio, o peso e noção da palavra liberdade só foi adquirido anos mais tarde. 

Devido a este vício, José integrou vários órgãos do Partido Social Democrata (PSD), especialmente, o gabinete de imprensa. Hoje em dia, ainda faz parte. 

Com Leonel Vieira, 2017

Foi um assíduo escritor de vários jornais e, nesta sequência, conta que a primeira coisa que publicou foi uma poesia intitulada: “Olhos Rasgados”. Contudo, não só a poesia o encantava. Escreveu inúmeros artigos sobre o poder político, mas hoje apenas manifesta a sua opinião sobre esta área no seu blogue. Segundo o próprio, sempre foi muito direto e essa característica não é fácil neste mundo. “Se algum amigo me perguntasse se deveria escrever artigos de política, atualmente, a minha resposta era claramente um não. É um combate sem fim”, afirma. Ademais, tem vários romances escritos que nunca foram publicados. Um dia, quando partir, deseja que os seus filhos e a sua mulher entreguem todos os cadernos e biblioteca pessoal para que jamais se percam. 

Relativamente ao seu núcleo pessoal, é um homem casado e pai de dois filhos: José Carlos e João André. O primeiro, respetivamente, seguiu o mesmo caminho do pai e João tornou-se engenheiro de redes. 

Comemoração – Bodas de Prata, julho de 2014

“Lousada é daqueles amores que são naturais. Lousada é indelével. Lousada fica na história”, finaliza de forma apaixonante José Carlos da Silva. 

2 Comments

  1. José Agostinho Magalhães Costa

    Parabéns! E obrigado.

    Reply
  2. Maria da Conceição Guerreiro Pereira Cavalinhos

    Parabéns amigo,desejo-lhe muito sucesso.

    Reply

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