por | 30 Out, 2023 | José carlos Silva, Opinião

Memória ou tempo de entristecimento

Todos os anos, a 1 de novembro, a Igreja Católica Romana, celebra a «Festum Omnium Sanctorum», em português: a festa do dia de Todos-os-Santos, em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não. Estranhamente, ou talvez não, privilegiamos este dia como o mais importante, apesar de sermos sabedores que os nossos mortos, os fiéis defuntos, só são lembrados no dia seguinte, 2 de novembro.

A 1 de novembro, rumamos aos cemitérios para rezar pelos nossos mortos. Neste dia estes lugares sagrados, tornam-se exíguos para albergar tão imensa saudade. Por razões díspares muitos só retornam escoados trezentos e sessenta e cinco dias. Mas existem outras condicionantes, outras razões não menos importantes do que as vicissitudes da vida. 

Hoje tenta-se mascarar a existência da morte. Evita-se falar desta sombra que nos acompanha durante toda a nossa existência. É um património, uma memória, um legado que nos é dado ao nascer, mas do qual fugimos e porfiamos em ignorar, tornando-a num não assunto.

Quando alguém morre chora-se a perda em sociedade. Depois «esquece-se» que ela existiu, ocultando-a, não falando dela. Falar da morte é considerado um ato de morbidez. Mas ela existe. A morte tem várias dimensões. Existem os deserdados da vida que vão para a terra de ninguém, tal como os pobres que apenas têm direito a uma pequena cruz, passando à condição de alienados: o tempo apagará a sua existência da memória dos outros. Há os que repousam em lindas sepulturas de materiais diversos e de qualidade, sinónimo de alguma abastança; outros em jazigos de gavetas submersas, mostrando riqueza e algum estatuto social. E há os grandes jazigos, que se erguem para o céu, que só um reduzido número de pessoas consegue esse desiderato.

Nos cemitérios a morte também mostra proeminência e ostentação de todos os que têm meios para perpetuar a grandeza e poderio que a vida lhe conferiu. Nunca podemos olvidar que para o cemitério transporta-se a nossa casa, o nosso estatuto, social, o nosso poder económico. O cemitério é, também, uma feira de vaidades. Tal como a vida a morte é um espelho de nós mesmos. Escondemos a morte remetendo-a para os cemitérios, mas mesmo perante a nossa finitude somos incapazes de esquecer quem fomos em vida, não resistindo a deixar a nossa marca para que os vindouros saibam da nossa importância terrena.

Assim, no dia 1 de novembro, próxima quarta-feira, rumaremos aos cemitérios para prestar homenagem aos nossos entes queridos, aos nossos mortos. Deles traremos a saudade, a lembrança das suas palavras, dos seus sorrisos, mas também das suas tristezas, mas esquecendo, rapidamente, o quanto este tempo é de tristura.

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