por | 18 Mar, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

Palavras Nómadas, de Dora Gago

Se é evidente que a experiência se transforma inevitavelmente num dos ingredientes da escrita, a passagem pelos lugares transforma-se em ponto de partida para o voo incontornável da escrita. Nessa perspetiva, Dora Gago, em Palavras Nómadas, não escreve meramente sobre o espaço físico em particular, ela parte dele para a crónica, para outra coisa mais vasta que nasce a partir dele.

 Entende-se, em certa medida, que o espaço físico se viabiliza num espaço de experiências capazes de filtrar e de reconhecer a vivência que propulsiona a voz narrativa – uma espécie de testemunha que exige o reconhecimento do espaço enquanto lugar da vivência real e da transfiguração – o que que só uma certa dimensão literária da crónica nos pode oferecer.

Os elementos descritivos, nestas crónicas, são também elementos evocativos, colocando-nos a nós, enquanto leitores, em escuta ativa, porquanto os mesmos nos guiam e nos orientam o olhar para a formulação de um conceito plural de espaço – território interior, convergindo e divergindo do exterior, espaço sem rosto e de onde, todavia, alguém fala. A crónica que Dora nos oferece em Palavras Nómadas apresenta-se como testemunha de um tempo, encontrando na paisagem, uma possibilidade de reordenação pela dinâmica promissora da palavra, quase sempre, profundamente poética.

Compreende-se que este conjunto de crónicas pintadas de paisagens colocam-nos à frente dos olhos uma nova porta que poderemos sempre abrir. Assim, sobre este livro de crónicas importa dizer que ele proporciona a viagem pelo globo terrestre, através do olhar de uma mulher irrequieta e aventureira, mas em especial ele reafirma o lugar interior da experiência como viagem única de aprendizagem e de afirmação de uma outra realidade, o acrescento de alguma coisa ao mundo que antes lá não estava”, nas palavras iluminadoras de Lídia Jorge e a propósito da essência do literário.

Enfim, nesta perspetiva, a crónica literária de Dora Gago descreve, mas também transfigura a paisagem, servindo-se dela para a poder ler de forma crítica e eficazmente humorística.

Conceição Brandão

Professora

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