Tanto talento e humildade numa pessoa só

JOÃO DA MOTA TEIXEIRA

Este cristelense de 78 anos tem tanto de discreto e humilde como de talento artístico. Na música como na alfaiataria é reconhecido com um dos melhores da sua geração e no seu estilo. Tocando guitarra ou costurando tecidos, executa com primor estas duas artes distintas e às quais aplicou o mesmo “rigor e dedicação” na aprendizagem. Além de executante exímio e de professor de viola, é também um talentoso compositor, de modas, cantigas, janeiras e outras produções musicais, algumas das quais ficaram famosas e correm regiões através de outros intérpretes. Além de tudo isso, também dirige o grupo de cavaquinhos da Universidade Sénior Usalou.

Um artista que compõe com alma bairrista

Nasceu em Cristelos, numa família com 13 filhos. Casou, com 25 anos e foi para Casais, onde viveu oito anos e voltou à terra-natal, exercendo sempre os dois mesteres, a música e a confeção. Aprendeu alfaiataria com um tio, em Cristelos, e trabalhou para um tio da sua esposa, em Casais. Quando atingiu a maturidade profissional, João Teixeira estabeleceu-se por conta própria, chegando a ter cinco funcionários. “Tive uma parceria importante com A Montra, do Sr. Reis, que colocava-me artigo à consignação e o meu estabelecimento era quase uma sucursal da Montra. Até calçado eu tinha à venda. A confeção de fatos era o meu forte, mas especializei-me em quase tudo, conforme a moda e até vestuário para senhora. Fiz tantas blusas, de vários estilos, que até perdi a conta”, refere o nosso entrevistado.

João da Mota Teixeira

Ganhou notoriedade nessa área profissional, mas nas artes do espetáculo, sobretudo na música, granjeou tanto ou mais prestígio e consideração.

“Andei no grupo coral de Cristelos, desde catraio e depois de casar passei a fazer parte do grupo coral de Casais”, recorda. Desde muito cedo começou a dedilhar as cordas dum cavaquinho. A tradição musical vem de família. O seu pai, Luís Otto Teixeira, foi um famoso tocador da freguesia, da qual também foi regedor e por tudo isso consta na toponímia (nome das ruas) de Cristelos.

“Ele cantava muito bem à vareira, uma espécie de desgarrada ou cantiga ao desafio, mas tinha um estilo próprio”, refere João Teixeira. Cantar e tocar enraizou-se na família e prosseguiu de geração em geração, “sem aulas de música, quase só de ouvido, era uma aprendizagem através da prática; eu estava sempre à espreita duma vaga para poder pegar na viola braguesa lá de casa”.

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Além daquele instrumento, aprendeu a tocar muitos outros, desde o cavaquinho ao banjo e ao bandolim, passando pelo violão e finalmente a sua prima dona, a musa dos seus acordes: a guitarra portuguesa.

“Comecei a tocar guitarra portuguesa na Força Aérea, em Paços de Ferreira, onde um colega Alferes, que tinha andado no Conservatório de Música do Porto, tinha sempre uma consigo e nas horas vagas comecei a praticar. Mas foi através do manual Método de Ensino que aprendi o essencial e fui desenvolvendo com horas e horas de dedicação”, explica João Teixeira.

PARABÉNS DUM JOGADOR DO REAL MADRID

“As Janeiras eram uma ocasião muito especial do ano e deram-me bastante experiência. Acompanhei o grupo do meu pai desde catraio e ainda hoje é uma das minhas paixões. As vareiradas também eram famosas. Tocávamos e cantávamos em casas de amigos, em alguns arraiais, enfim, onde houvesse festa particular ou pública e nos sentíssemos bem”, descreve o artista cristelense.

Além da música, também fez parte dum grupo de teatro, em Casais. “Andei num teatro que se fez lá em Casais, onde participavam elementos da família Mendes, excelentes músicos e cantores. A minha filha também fez parte”, recorda.

Foi nesse contexto que surgiu o conjunto musical Estrelas da Aldeia, formado por António Mendes, a filha Dores, o Ferreira, o Pacheco que tocava acordeão e os irmãos Manuel e o José Chamusca. Eu fui convidado para o grupo para substituir o Zé, que trabalhava no Posto Médico e tinha ido para o Ultramar. Eu tocava viola clássica.

A primeira atuação aconteceu na Reguenga e não começou muito bem: “lembro-me que o carro avariou a chegar a Paços de Ferreira, foi um transtorno, mas a atuação fez-se e o grupo durou bastantes anos, embora fosse ultrapassado por outros como os Lords, por exemplo, que começaram a aparecer com melhores aparelhagens”. Os Estrelas da Aldeia eram contemporâneos dos Gaivotas do Rio Sousa, por exemplo. Era um conjunto típico.

O fado também surgiu por essa altura na vida de João Teixeira. “Fiz parte da formação do grupo de fado que integrava o meu cunhado Carlos, o António Mendes, na voz, a filha Margarida, também na voz, e o filho Zé, que cantava principalmente fado de Coimbra”, afirma o músico. Além destes acompanhou outros fadistas: Rita Macedo, de Penafiel; Melanie, da Senhora Aparecida; Fernando Moreira, de Sousela; e Manuela Mendes, do Marco de Canaveses. Com esta última tinha especial gosto em acompanhar pois faziam verdadeiras digressões e atuavam em locais de prestígio: “recordo que certo dia fomos dar um concerto de fado num restaurante em Valença e no final veio dar-me os parabéns um espanhol, que esqueci o nome, que diziam que foi um importante jogador do Real Madrid”.

João e o irmão Jorge Teixeira

Desde que se aposentou aceitou alunos de viola e guitarra portuguesa. “É muito difícil tocar guitarra portuguesa porque requer muita improvisação. Por isso aparecem poucos. O que há mais é gente a querer aprender viola”, conta João Teixeira.
A composição de janeiras, hinos e outros temas é outra faceta forte deste músico. Nunca registou a patente das suas criações, nem se preocupa que outros cantem o que foi por si criado. “Um dia destes alguém veio ter comigo muito espantado e até um pouco arreliado por ter ouvido um certo conjunto a interpretar uma canção, por sinal bem bonita, «Lousada és tão linda», um tema da Usalou, da minha autoria, sem me terem informado ou pedido autorização. Eu não me chateio com isso, bem pelo contrário, até faço gosto que cantem e toquem o que eu escrevi. Eu fico feliz quando vou ao auditório nos encontros de janeiras e ouço músicas minhas cantadas por outros grupos”, afirma com a humildade que lhe é tão peculiar.

«CRISTELOS TEM TUDO»

De igual modo, João Teixeira compôs os hinos de outros grupos e coletividades de Cristelos, nomeadamente do antigo grupo Luz Verde, do Movimento Sénior da freguesia, além de outros. Mas, porventura o mais famoso, foi «Cristelos tem tudo», um tema muito querido por várias gerações de cristelenses.

“Essa música ficou famosa no conjunto musical que formamos em Cristelos, o «Espera por todos», que nasceu a partir dum grupo de teatro, há muitos anos, que se formou na igreja, para angariar dinheiro para umas obras paroquiais. Nessa peça de teatro havia umas quadras cantadas e que foram aproveitadas para compor o tema «Cristelos tem tudo». Naquele tempo, há 50 anos, havia por tradição levar o merendeiro para o alto de São Domingos para ver o Pascoelo lá longe e fazíamos convívio com um conjunto de músicos, onde estava eu, o meu irmão Jorge, o Porfírio, de Santa Eulália e outros, e a meio do espetáculo começava a galhofa, com a participação de pessoal com instrumentos improvisados. O conjunto ganhou fama e foi batizado «Espera por Todos». A certa altura um festeiro de Covas pediu-nos para irmos para o Pascoleo porque havia pessoal de lá que vinha para Cristelos ver-nos. Também atuamos na festa da Senhora da Conceição”, relata com entusiasmo.

Do que viveu em 78 anos muito mais caberia aqui, houve mais espaço. Mas ainda há lugar para assinalar mais uma faceta que já encarnou na vida pública: foi membro da Assembleia de Freguesia durante 13 anos. “Dediquei-me o melhor possível, mas não gostava das rivalidades partidárias e antagonismos; eu não gostava dos azedumes que ficavam depois das eleições”, refere tipicamente.

Cavaquinhos da USALOU

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