por | 28 Mai, 2024 | Economia, Sociedade

Há famílias a viver com estranhos e pessoas a dormir no carro

RELATOS DRAMÁTICOS DA CRISE NO MERCADO DA HABITAÇÃO EM LOUSADA

Casas e apartamentos superlotados, filhos de idades bastante adultas a viver em casa dos pais ou de outros familiares, casais que casam cada vez mais tarde, recurso ao pedido de ajuda humanitária de jovens e adultos com emprego, são algumas das consequências da crise gerada pela falta de habitação a preços acessíveis à generalidade da procura. Para perceber o alcance real desta problemática, fomos ouvir especialistas da assistência social, profissionais da gestão de condomínios e agentes imobiliários. Todos estão convencidos de estar a acontecer uma crise “ainda mais grave do que parece”.

Recentemente a diretora técnica da Cáritas de Braga, Eva Ferreira, divulgou que existem casos de trabalhadores imigrantes que vivem na mesma casa e utilizam a mesma cama para dormir, em diferentes períodos, devido às dificuldades financeiras. Pagam para utilizar a cama. Em Lousada não há conhecimento de casos desses, mas Vasco Bessa, responsável pela AMI – Assistência Médica Internacional, disse que não é de colocar de parte essa ocorrência aqui.

Este lousadense afirma que há “trabalhadores, com rendimentos e vidas regradas, que não conseguem sobreviver sem a caridade da AMI” e acrescenta que “já não recebemos só pedidos de ajuda de pessoas adultas sem emprego, pois começam a aparecer jovens, formados, com filhos, que não conseguem suportar o custo de vida, onde a renda da casa é astronómica para as possibilidades”.

O conhecido especialista em assistência social chama a atenção para outras mudanças sociais que estão a ocorrer nos pedidos de ajuda, decorrentes dos avultados preços do arrendamento das habitações. “Há jovens e pessoas já bastante adultas que regressam a casa dos pais, por necessidade de abandonar créditos à habitação ou por não conseguirem suportar as rendas”, revela.

“Estão a chegar à AMI pedidos de jovens casais, com e sem filhos, com vencimentos e mil euros cada um, por exemplo, mas que não têm que comer ou vestir porque a renda da casa, a prestação do carro, os encargos com luz, água, etc não é para eles comportável”, acrescenta.

“Não se encontram preços acessíveis para as classes médias, quanto mais para as classes com menos posses”, exclama Vasco Bessa, que remata com uma declaração incisiva: “o mercado da habitação em Lousada e no país está uma loucura”.

Há quem tenha de dormir no carro

Conhecida localmente como uma “alma caridosa” devido à sua dedicação à causa social e aos desvalidos, Conceição Morais, de Cristelos, é outra pessoa que está por dentro da realidade habitacional: “são tantos, mas tantos mesmo, os pedidos de pessoas que chegam até mim quase diariamente, que não tenho mãos a medir para tantas solicitações”.

Para responder “aos casos mais graves eu socorro-me de conhecimentos que vou tendo e lá se vai arranjando uma ou outra solução, por vezes são remedeios que acabam por ficar soluções por muito tempo. Num dia destes, para remediar uma família, arranjei em Paredes, numa arrecadação de uma pessoa amiga, que converteu o espaço numa espécie de habitação, até que se arranje melhor”.

Esta responsável dos Vicentinos de Cristelos conta que “em minha casa albergo, neste momento, três pessoas em situação provisória, enquanto não aparecem habitações. E uma técnica social chegou a pedir-me para dar guarida a um jovem para quem eu não tinha cama e a técnica mesmo assim disse-me para o pôr a dormir no chão; é claro que não fiz isso, não se trata assim uma pessoa, seja quem for”.

Para enfatizar ainda mais a gravidade da situação, Conceição Morais revela que “um dia destes, já de noite, apareceu-me uma técnica de uma instituição de cá, com uma pessoa para eu arranjar dormida por uns dias”. Era um caso de violência doméstica, problemática que se cruza com a falta de habitação. A que se sujeitam as pessoas que vivem em comunhão de habitação? “Olhe, num destes dias apareceu-me uma senhora, ainda nova, que era vítima de violência em casa e fugiu. Não tinha para onde ir e veio ter comigo. Não lhe consegui arranjar dormida e passou a noite no carro. Agora está melhorzinho mas ainda assim continua numa situação precária”, relata a conhecida Sãozinha de Cristelos.

“Em Lousada não se encontra casa a preço acessível, é horrível o que se passa, com casas onde há homens sozinhos a viver com casais, pessoas estranhas a dividir o mesmo espaço”, declara Conceição.

A procura de habitação “está dificultada pelos preços absurdos porque há habitações para comprar e alugar, mas quem pode chegar a valores como 800 euros por um T2, com dois mil euros de caução e três meses de renda adiantada?”, questiona.

“É preciso construir mais prédios”

Na opinião de Abílio Melo, gestor de condomínios de habitação em Lousada, a falta de habitação “dá-se principalmente pela muita afluência de pessoas de outros concelhos e pessoas estrangeiras”. A construção existente “não é suficiente para o aglomerado de pessoas que chegam” e a crise cresce no setor.

Admite que conhece casos de sobrelotação de habitações, que geram situações complicadas, a vários níveis, e alerta para a “necessidade de haver mais rigor por parte do proprietário que arrenda e das autoridades competentes”, para impedir este tipo de ocorrências.

Para Abílio Melo “a solução passa por construir mais prédios”, mas não acredita que se possa voltar aos preços de rendas que se praticavam até há dois ou três anos. “Tínhamos bons preços de arrendamento e agora está no dobro e a compra da habitação não está melhor porque também subiu face a tanta procura”.

“Tive vergonha de dizer o valor dum T0”

O ex-agente imobiliário Carlos Richter esteve “com bastante sucesso” no ramo durante 8 anos, na região do Vale do Sousa. Em abril abandonou o negócio e foi viver para uma aldeia de Torre de Moncorvo. “Agora dou aulas de música e ensino cultivo de espécies amigas dos solos” e justifica a mudança com um desabafo: “a civilização urbana está doente”.

Já vinha a sentir desânimo “tal a proporção assustadora que o mercado está a tomar”, mas a “gota de água” aconteceu em abril, quando recebeu uma proposta para colocar no mercado de Lousada o arrendamento de um apartamento T0 com 40 metros quadrados, sem garagem nem varanda, por 650 euros, sendo que o arrendatário teria que dar duas rendas de adianto e pagar uma caução de dois mil euros, ou seja, para que o negócio fosse concretizado seria preciso ao futuro inquilino desembolsar 3.300 euros. “É um absurdo, quase criminoso e absolutamente imoral”, exclama o ex-agente imobiliário. “Eu tive vergonha de dizer o preço a um casal de 23 anos, com um filho de dois anos, ele marceneiro e ela ajudante de dentista, sem suporte familiar nem amigos, chegados a Lousada há pouco, vindos de um país estrangeiro”, diz com desapontamento. Realça que “a objetividade e racionalismo quase sempre comandaram a minha postura no mercado, mas foram tantos os choques que desisti”. Aponta o dedo aos “preços exorbitantes, que as classes médias altas e classes altas, sobretudo vindas de fora de Lousada, conseguem suportar, mas com isso vão anulando o poder de compra dos locais, das pessoas naturais da localidade”, avisa.

Galeria de imagens, por Daniel Couto.

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