por | 27 Mai, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

MEMORIAL DO CONVENTO: da narrativa à dramatização

Comemoramos, por estes dias, na Secundária de Lousada,  dez anos da adaptação a texto dramático do romance de leitura obrigatória no décimo segundo ano – Memorial do Convento.

Subimos ao palco para dar voz ao Padre Bartolomeu que tem o sonho de voar; ao Rei D. João V, que promete erguer um convento/palácio na vila de Mafra para que Deus lhe desse um herdeiro; ao Baltasar que, sem a sua mão esquerda, substituída por um gancho, vai ajudar na construção da passarola de Bartolomeu; a Blimunda, mulher extraordinária pela sua vidência, capaz de ver as nuvens fechadas no interior das pessoas, ou seja, a sua vontade de criar, construir, amar, viver; e a tantas outras personagens, tem sido, ao longo destes dez anos agora cumpridos, a fórmula incrível de compreender e interpretar o pulsar da vida que advém de dentro das páginas deste romance extraordinário.

Memorial do Convento desliza pelos tempos pela voz de um narrador anacrónico. É este que possibilita olharmos o passado à luz dos valores do mundo contemporâneo, por isso, a epopeia da pedra, momento fundamental da obra, é atravessada nesta encenação pelas imagens da guerra no Médio Oriente, onde a destruição, a dor e o sofrimento humanos nos avisam que em todos os tempos a tirania e a soberba podem levar a humanidade aos abismos mais escuros. “Grândola Vila Morena”, do Zeca Afonso, serviu expressivamente de música de fundo a este entrecruzar de tempos para nos lembrar que a liberdade, a fraternidade, o grito de abril de 74 é nosso, mas atravessa os portais do tempo e de todos os lugares do mundo e precisa de ser constantemente lembrado. Também a participação de uma turma do décimo ano redimensionou a passagem pelo episódio do auto de fé que levará a mãe de Blimunda a ser condenada. Debaixo das suas capas negras, os alunos desenharam no palco a fila sinuosa de todos os condenados sem voz, que caminham em silêncio afundados no inferno das inquisições da terra, em qualquer tempo.

Celebramos dez anos desta representação com muitos convidados especiais que se transformaram também nas figuras deste universo do romance de Saramago, desde encarregados e funcionários da escola a professores. Todos juntos, fizemos magia elevando-nos na passarola de Bartolomeu até à nossa humanidade mais promissora, até ao céu mais estrelado de todos os tempos.                                   

Conceição Brandão

Professora

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