Existe pouco investimento nos talentos

SARA CATARINA RIBEIRO

No próximo dia 31 completa 34 anos de idade e nesta Grande Entrevista a O Louzadense, a atleta de Lustosa, que corre pelo Sporting, fala do ponto de situação na sua carreira de atleta de alta competição, que está a ser afetada por lesões. Também se refere ao momento que atravessa o atletismo português e tece críticas às entidades responsáveis pela modalidade. Lamenta não ir aos Jogos Olímpicos de Paris, devido a lesão, mas acredita que ainda tem muito para dar ao atletismo, de várias formas. Está muito agradada com o “seu” grupo que às quintas-feiras anima a pista de atletismo do Complexo Desportivo de Lousada.

Sara Catarina Ribeiro

A atleta admite que “tinha como grande objetivo a qualificação para os Jogos Olímpicos de Paris, mas fruto de várias contrariedades (lesões), não consegui estar ao meu melhor nível competitivo, pelo que o objetivo não será concretizado”. Uma lesão num pé alterou os planos da atleta lousadense, que ficou impedida de lutar por mínimos para a Maratona parisiense. Não obstante, já dá mostras de recuperação e há poucas semanas, nos campeonatos nacionais de fundo e meio-fundo, revalidou o título dos 10 mil metros, numa prova nas Caldas da Rainha, repetindo o feito alcançado no ano passado em Espanha. “Foi muito importante, pois depois de uma fase complicada da minha carreira, consegui regressar à competição com um título, é muito gratificante”, declara.

Está atenta ao panorama internacional e às candidatas às medalhas nos jogos. “Em relação à maratona feminina, as atletas quenianas Hellen Obiri, Peres Jepchirchir, que é recordista da maratona só mulheres, e a Tigst Assefa, que é a recordista do mundo maratona mista” são para si as favoritas.

Sara Catarina Ribeiro

É sabido que o atletismo, sobretudo de longas distâncias, além da componente física também é muito emocional e tático. Acerca disto a atleta diz que “o atletismo é uma modalidade bastante complexa e vai muito além da preparação física. Há quem diga que uma competição é 90% cabeça e 10% físico, pois é muito fácil boicotar um corpo bem treinado. E eu já provei disso mesmo, já estive em provas que estava muito bem preparada e no dia da prova as coisas não correrem exatamente conforme a preparação e isso torna-se complicado de gerir”.

Referindo-se à atualidade da sua carreira, quando está prestes a fazer 34 anos, Sara espera “conseguir traduzir na prática o valor que tenho, a idade dá-nos a maturidade e espero que seja um ponto a favor”.

PODIA E DEVIA SER FEITO MAIS

Recorde-se que a atleta começou no Vizela, de onde foi para o Braga e depois foi para os clubes grandes de Lisboa. Falando do seu percurso, atribui muita da motivação à sua grande referência do início de carreira: “o meu ídolo sempre foi a Fernanda Ribeiro, pois foi também por causa dela a minha paixão pelo atletismo. A minha formação foi feita toda no FC Vizela, em sub-23 fui para o Braga, e depois segui para o Sporting, Benfica, um ano como individual e retornei ao Sporting onde me encontro desde 2017”.

Sara Catarina Ribeiro

Há alguns anos que o nosso país não tem atletas de craveira mundial nas provas de meio-fundo e fundo. Questionada sobre o que falta a Portugal para cumprir o legado de Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro, Manuela Machado, Rosa Mota, a lousadense declara que “infelizmente, não estamos a passar uma boa fase no atletismo a nível nacional, mais precisamente no meio-fundo e fundo porque não há muito apoio”. Aponta responsabilidades “sobretudo por parte do governo e federação; é verdade que o orçamento que o governo disponibiliza para o desporto não é muito, mas penso que a estrutura que gere a minha modalidade também podia e devia fazer muito mais pelos atletas”.

Sara Catarina Ribeiro

“Os atletas, mesmo os que têm muito talento, investem muito de si, isso é fundamental e essencial para serem competitivos, mas muitas das vezes dependem da boa vontade da família e dos clubes para se poderem dedicar ao atletismo”, lamenta Sara Catarina, que se queixa do facto dos atletas em Portugal só conseguirem acesso a apoio do Estado quando atinge determinadas marcas, “sendo que até lá o investimento é só dele e do clube, se tiver essa sorte”, acrescenta.

A entrevistada declara que “podia e devia ser feito mais pela modalidade, de forma a chamar mais jovens para a prática do atletismo” e deixa um alerta: “o atletismo é uma modalidade muito difícil e que exige muita dedicação e empenho e, espero sinceramente que as mentalidades mudem a tempo de não se sacrificar a modalidade, porque da forma que as coisas caminham não teremos um atletismo como antigamente”.

A concluir reforça o alerta: “existe pouco investimento nos talentos e que devido a circunstâncias várias os atletas têm de se focar noutras coisas que não só o atletismo para poderem sobreviver”.


COORDENA UM GRUPO EM LOUSADA

O “seu” grupo de praticantes amadores de Lousada, que reúne no complexo desportivo tem-se revelado um fenómeno social e desportivo. “O meu grupo de treino nasceu em abril de 2019, por minha iniciativa que propus ao vereador do desporto e tive logo um parecer positivo para esta ideia, que é implementar atividade física nas pessoas”.

Sara Catarina Ribeiro coordena grupo de treino de corrida em Lousada

No início apareciam poucas pessoas, “mas ao fim de sensivelmente 2 ou 3 meses já tinha à volta de 20 ou 30 pessoas por treino. Infelizmente, em 2020, apareceu a pandemia e o grupo ficou impedindo de se agrupar, mas depois quando tivemos autorização para regressar à normalidade facilmente o grupo voltou a crescer. Já somos bastantes, uma média de 30 pessoas por treino, e temos atletas desde a caminhada até corredores de maratona. O grupo é bastante diversificado. Isso deixa-me bastante realizada porque além de partilhar alguns dos meus conhecimentos aprendo muito com os meus atletas. Temos perspetivas diferentes do atletismo, eu mais sobre alta competição e eles de forma mais amadora, mas ninguém é mais ou menos que os outros e isso deixa-me realizada enquanto coordenadora do grupo”.

Espera contribuir para que o concelho “possa no futuro ter crianças e jovens que nos representem bem. Pratico atletismo há mais de 20 anos e espero que estas gerações se inspirem para que um dia tenhamos atletas a chegarem muito mais longe”.

Por último, mas não menos importante, Sara Catarina Ribeiro deixa o seu conselho para quem quer seguir a modalidade como modo de vida: “nos dias de hoje é muito difícil seguir o atletismo profissionalmente, mas para o conseguir tem de ser muito competitivo e estar sempre lá em cima. É muito difícil, mas é a verdade. Não é uma vida fácil”.

Sara Catarina Ribeiro, no jantar de aniversário da Ladec, na qualidade de Madrinha da S. Silvestre

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