
Há plantas que alimentam. Há plantas que contam histórias. E depois há plantas, como o tremoço, que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Olhamos para um pires de tremoços numa esplanada como algo banal. Pedimos uma cerveja, juntamos os amigos, vemos um jogo de futebol ou simplesmente ficamos na conversa enquanto vamos trincando tremoços, sem pensar muito no assunto. Mas por detrás daquele pequeno grão amarelo existe uma história enorme — de natureza, de agricultura, de pobreza digna, de sabedoria popular e de sobrevivência.
Lembro-me bem de, em criança, ali por esta altura, maio ou junho, perto das férias da escola, a minha avó colhia o tremoço que tinha semeado no pequeno quintal. Eu via aqueles tremoços secos dentro de sacos de serapilheira e ouvia-a dizer:
— “Vou pôr os tremoços a curtir.”
Na verdade, eu pouco ligava ao tremoço naquela altura. O que eu queria mesmo era acompanhá-la até ao rio, no lugar das Cavadas, por detrás da casa dela, em Sousela. Fosse para fazer o que fosse, eu já sabia que ia ser fixe.
Chegados ao rio, o ritual repetia-se. O saco era amarrado com uma corda a uma pedra grande, a um tronco de salgueiro ou de freixo, e mergulhado completamente na água corrente. Dois ou três dias depois, lá voltávamos ao mesmo sítio para os ir buscar.
E para mim aquilo parecia magia.
Os tremoços deixavam de ser secos e duros e passavam a ficar amarelinhos, macios e saborosos. Pelo caminho até casa iam-se provando alguns — quase sempre com casca, claro. O tempo perdido a tirar a casca significava menos tremoços comidos em pouco tempo.
Em casa dividiam-se pela família, por quem aparecesse, e os restantes eram colocados numa bacia com água para vender nas festas e romarias da terra, juntamente com doces, cavacas e rosquilhos.
Mas quem ficou realmente conhecida pelos tremoços foi a Sr.ª Emília, a famosa “Mila Tremoceira”, de Moreira. Na feira de Lousada ou nas festas da região já se sabia: os melhores tremoços eram os da Mila Tremoceira.
Mais tarde, depois do falecimento da Mila, quem continuou essa tradição foi a dona Deolinda Sousa — a “Linda Carriça”. Falei com ela há poucos dias. Já não produz nem vende tremoços – é, talvez, das últimas tremoceiras da freguesia – mas bastou tocar no assunto para lhe mudar a voz. Havia nostalgia, orgulho e memória em cada palavra.
Contava-me ela:
– “Comprava no Grémio as sementes, aquilo era barato. Depois semeava no campo atrás de casa. O tremoço quase não dava trabalho. Dava uma flor bonita e umas vagens gordas.”
E aqui entra uma parte curiosa que muita gente desconhece: o tremoço não é apenas alimento. É também uma planta muito importante para a Natureza.
Os tremoços pertencem ao género Lupinus, um grupo de leguminosas com uma enorme capacidade de melhorar os solos. Nas raízes vivem bactérias capazes de fixar azoto atmosférico, enriquecendo naturalmente a terra. Por isso, durante séculos, estas plantas ajudaram agricultores a recuperar terrenos pobres e cansados.
Na nossa região é muito fácil encontrar o tremoço-bravo-amarelo (Lupinus luteus), sobretudo em campos abandonados e terrenos mais pobres. Na primavera, as suas flores amarelas cobrem os campos e atraem abelhas, zangões e muitos outros polinizadores. Além de bonito, presta importantes serviços de ecossistema.
Já o tremoço doméstico (Lupinus albus) é diferente. Foi sendo selecionado ao longo de gerações pelas pessoas, escolhendo-se sementes maiores, menos amargas e mais agradáveis ao consumo. Ou seja, o tremoço que hoje comemos resulta de séculos de relação entre o ser humano e a Natureza.
E talvez por isso o trabalho das tremoceiras tenha ainda mais valor.
Sem nunca terem estudado biologia, química ou agronomia, dominavam perfeitamente todo o processo: a secagem das vagens, a separação da semente, a cozedura, a cura em água corrente e a conservação.
A Dona Linda explicava-me: “Espalhava as vagens na eira. Depois batia-lhes com um malho para separar o tremoço. Cozia aquilo durante quase três horas. Gastava muita lenha! Depois metia num saco de serapilheira e levava ao ribeiro, à água corrente, para curtir durante dois dias.”
Hoje percebemos que aquele processo servia para retirar os alcaloides amargos naturais do tremoço. Mas elas já o sabiam muito antes da ciência lhes dar nome.
E isso também é património.
Talvez por isso este artigo seja, acima de tudo, uma homenagem: à Mila Tremoceira, à dona Linda Carriça e a todas as tremoceiras que ajudaram famílias inteiras a sobreviver através de um pequeno grão amarelo.
Porque muitas vezes esquecemo-nos que, por detrás de um simples pires de tremoços, existe trabalho, conhecimento, natureza, agricultura, rios, festas, feiras, família, e uma enorme sabedoria popular.
É precisamente aqui que a conjugação do conhecimento popular e a educação adquire forma: quando nos ajuda a perceber que património natural não é apenas uma planta no campo. É também a relação humana construída à sua volta.
E talvez a próxima vez que estivermos numa esplanada, entre amigos, a comer tremoços enquanto conversamos sobre a vida… valha a pena lembrar tudo aquilo que veio antes daquele pequeno gesto tão simples.
Agora pensa: quantos conhecimentos da Natureza estarão escondidos nas memórias dos nossos avós?
E quantos patrimónios invisíveis estaremos a deixar desaparecer sem dar por isso?
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
#PatrimónioVivo #EducaçãoAmbiental #NaturezaECultura #Tremoço #SabedoriaPopular #MemóriaColetiva #Biodiversidade #AprenderComANatureza













Comentários