por | 12 Jul, 2024 | Cultura, E Depois D'Abril?

O discreto gigante da democracia lousadense

E DEPOIS D’ABRIL? [3]

Lousada teve muitas pessoas de proa que embora sendo contra o regime totalitário manifestavam-se discretamente, porventura em surdina ou em meias palavras, contra a situação. Algumas dessas pessoas viam-se manietadas nessa postura por força das amarras das profissões e cargos que ocupavam. Foi seguramente o caso do advogado e mais tarde conservador do registo, Adérito Augusto Gonçalves Guerra, sem dúvida alguma um dos maiores baluartes da democracia lousadense.

A formação das secções locais dos partidos políticos foi uma azáfama imediatamente após a queda do regime fascista e contribuiu decisivamente para a consolidação da democracia nas localidades. Vários foram os protagonistas dessa demanda de organização partidária em Lousada. No que toca ao Partido Social Democrata (PSD), o seu fundador foi o advogado e magistrado Adérito Augusto Gonçalves Guerra.

Chefiando a Comissão Administrativa após o 25 de Abril de 1974, foi presidente da Câmara Municipal de Lousada entre 1975 e 1977, tendo sucedido a Rui Feijó e antecedido Amílcar Neto, que foi o primeiro presidente eleito em eleições autárquicas. Nascido em Figueira de Castelo Rodrigo, Adérito Guerra estabeleceu-se em Lousada, por motivos profissionais.

Foi Conservador do Registo Civil e Predial de Lousada e simultaneamente exerceu advocacia nesta vila.

Nos tempos de estudante, na Faculdade de Direito de Coimbra privou com movimentos revolucionários pró-democracia. Aderiu depressa aos ideais das democracias ocidentais e participou ativamente na campanha de Humberto Delgado (1956) para Presidente da República. Na ocasião a corrente comunista universitária era forte no oposicionismo, mas preferiu enveredar pelos ideais moderados da democracia.

Essa tendência foi consolidada pela admiração que teve por Francisco Sá Carneiro. Dizia* a este propósito que “foi o exemplo de Sá Carneiro que mais me motivou para aderir à social-democracia,  que defendia a democracia política, social e económica”. Decorria a década de 1960 e aquele portuense entrou como deputado independente para a Assembleia Nacional, onde levantou a voz contra o sistema ditatorial de António de Oliveira Salazar.  Em 1969 chegou a Lousada para desempenhar as funções de Conservador dos Registos Civil e Predial. “Encontrei uma localidade tradicional e pacífica, onde a generalidade das pessoas aceitava o regime político vigente”, dizia ele, salvaguardando contudo que “isso se calhar era mais por respeito do que por comodidade ou passividade das pessoas”. Mas salientou que não demorou muito tempo a contactar com oposicionistas ao regime, “nomeadamente o Dr. Abílio Alves Moreira e o Manuel Mota, dois grandes democratas que eu tive a honra de conhecer e de ser amigo”.

Adérito Guerra, foto da campanha da AD em Lousada em 1979

Recordava o Dr. Abílio Moreira, referindo-se-lhe como “uma pessoa extraordinária, com um humor fora de série, era deveras uma pessoa com muita graça, uma pessoa muito justa e democrática”. Quanto às diferenças ideológicas entre ambos, o advogado dizia que “ele era uma pessoa mais de Esquerda do que eu, mas ele costumava dizer com toda a razão: somos todos do PPB – Partido das Pessoas de Bem”. “Também o Manuel Mota era um indivíduo de Esquerda, mas afinal de contas, éramos todos pela democracia e como tal estávamos todos no mesmo galho”, disse Adérito Guerra. “Em 1973, houve aqui um comício do MDP-CDE, nos Bombeiros, que acabou para além da hora marcada e chegou a polícia… Houve pancadaria… esse facto terá contribuído para acicatar os ânimos democráticos em Lousada. Eu não fui a esse comício porque era o Conservador e não era de bom tom meter-me nisso”, referiu em entrevista de 2006. Questionado sobre eventuais represálias, disse “nunca tive problemas com a PIDE”, no entanto admitiu: “fiz as minhas birras ao sistema… Olhe, um dia, quando concorri para delegado do Ministério Público, eu tive que assinar uma declaração assumindo-me como pessoa anti-comunista e contra todas as ideias subversivas. Assinar, eu?! Não subscrevo nada disso!. Mas disseram-me «Anda lá, assina que até os comunistas assinam!» E pronto eu lá assinei essa tal declaração, que era uma fantochada”.*

“Deu-se a revolução do 25 de Abril e fui abordado nesse ano de 1974 pelo Dr. Vasconcelos, de Paços de Ferreira, para fundar uma delegação do PSD/PPD em Lousada. Era o partido no qual eu me enquadrava e disse que sim, tanto mais que eu era dos poucos que podia desde logo encabeçar o partido em Lousada porque um dos requisitos era nunca ter feito parte da Ação Nacional Popular”.*

Ainda a democracia estava fresca em Portugal e deu-se a tragédia com a sinistra morte de Francisco de Sá Carneiro, facto que abalou fortemente o causídico lousadense, que sobre isso escreveu no Jornal de Lousada: “Há qualquer coisa de estranho na morte de Francisco Sá Carneiro. Não tenho suspeitas sobre quem, mas sem dúvida que ele foi vítima de uma sabotagem. Talvez ele se tivesse tornado incómodo para alguns sectores. E com a sua morte o PSD ficou órfão daquele que  foi o maior Estadista de Portugal. Era um homem que via os fenómenos políticos à distância, e muitos diziam que ele que tinha razão ainda antes de a ter, tinha o dom de prever: ele aceitou candidatar-se à Assembleia Nacional, a convite de Marcelo Caetano, com o estatuto de independente, já que não pertencia à Ação Nacional Popular, o partido oficial do regime; ele fez uma obra extraordinária naquela Assembleia ao apresentar uma série de projetos; lutou nomeadamente pela autonomia das colónias; interessou-se pela situação dos presos políticos; a Ala Liberal, que se opunha ao regime fascista, não tinha um líder, mas ele acabou por os liderar.  Quando viu que não havia possibilidades de lhe permitirem realizar os seus projetos, retirou-se, sem que a sua declaração de demissão fosse publicada no Diário da República (porque não convinha). São pormenores que contribuíram para a sua postura como grande democrata que foi”.

Indubitavelmente, também assim foi Adérito Augusto Gonçalves Guerra, que faleceu a 10 de Setembro de 2008.

Dr Adérito Guerra na década de 1970_inauguração do tribunal novo

[* in Os Louzadenses, Vol 1, J.C.Carvalheiras, 2011]

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