“Toda a glória do mundo é transitória”

JORGE NETO, ADVOGADO E POLÍTICO

O lousadense Jorge Manuel Ferraz de Freitas Neto, de 67 anos, é um conceituado advogado português. Mas a sua faceta mais conhecida é a de político. Foi deputado na VIII, IX e X Legislaturas e Secretário de Estado da Defesa e Antigos Combatentes no XVI Governo, chefiado por Pedro Santana Lopes. Também foi vice-presidente da bancada parlamentar do PSD na Assembleia da República e professor convidado da Universidade Independente. Destacou-se como comentador e analista político na SIC e na RTP, assim como na principal imprensa nacional. Por enquanto, está arredado da política nacional, mas não enjeitaria um regresso. Tece rasgados elogios a Luís Montenegro, seu amigo e pupilo na advocacia.

Apesar da supremacia da política enquanto arena pública favorita deste lousadense, a advocacia conquistou-lhe espaço nas luzes da ribalta. É sócio fundador da “Jorge Neto & Associados, Sociedade de Advogados”, com escritórios em Lousada, Porto e Lisboa. Nessa área, ganhou notoriedade mediática em alguns casos, um dos quais ficou famoso na história judicial portuguesa. Em 1992, a RTP dava conta disso no Telejornal: “Belmiro de Azevedo foi derrotado judicialmente”. A contenda judicial teve à época grande destaque mediático e a defesa da família Pinto de Magalhães foi protagonizada por Jorge Neto. O jornal Expresso à data escreveu, referindo-se ao advogado, que “tinha nascido uma estrela”.

“Indiscutivelmente, o caso mais relevante que patrocinei foi o litígio judicial entre a família Pinto de Magalhães (minha cliente) e a Sonae e a Figeste, do engenheiro Belmiro de Azevedo, no início da década de 90. Inesquecível e irrepetível”, declara.

A advocacia foi sempre um fascínio desde muito novo. “O facto do meu pai ser advogado, teve um peso importante, para não dizer mesmo determinante, na minha opção de vida profissional”, revela o causídico.

No desafio que lhe lançamos, para apontar outra área que poderia ter seguido, Jorge Neto admite que “se não fosse advogado teria sido médico, profissão que estive quase a seguir quando em 1975 estive a viver em Londres e me inscrevi na Faculdade de Medicina, antes da ocorrência do 25 de Novembro, que me fez regressar a Portugal e ingressar na Faculdade de Direito de Coimbra”.

Foi naquela cidade universitária que cimentou os seus ideais políticos: “sou social democrata desde a fundação do PSD (PPD) e nunca ponderei mudar. Subscrevo na íntegra os valores da liberdade, da dignidade da pessoa humana e da justiça social que enformam a doutrina social-democrata”. Questionado sobre o seu posicionamento dentro da social-democracia, declara: “não me considero nem mais à esquerda nem mais à direita, sou social-democrata, ponto”.

Nos intensos debates televisivos que protagonizou com outras figuras nacionais, como Miguel Portas, Francisco Louçã e Pacheco Pereira, ficou patente a sua vocação para analisar e opinar acerca da política nacional e internacional. Aliás, Jorge Neto é diplomado em Teoria Política Moderna, pela London School of Economics and Political Science (2004). Daí que não surpreendeu a nomeação que recebeu para Secretário de Estado da Defesa.

Pronunciando-se para O Louzadense sobre a situação geopolítica mundial da atualidade, afirma que “é preocupante e imprevisível, tendo em conta a arrogância beligerante da Rússia de Putin com a invasão da Ucrânia, a ascensão da China na economia e na defesa e, por último, a incerteza da próxima eleição presidencial nos EUA, com a ameaça cada vez mais real da vitória de Trump, como ficou demonstrado com o desastre da intervenção de Biden no último debate entre ambos”. E reforça que “a previsibilidade da vitória de Trump nas presidenciais americanas de Novembro próximo tornou-se ainda mais evidente com a tentativa de assassinato no comício em Butler, Pennsylvania, EUA, no sábado”.

Jorge Neto e a presença nos meios mediáticos

Quanto à Europa, “vejo com iniludível desconforto, a sua perda de protagonismo a nível global e sectorial com o seu definhamento da capacidade de intervenção nos domínios da segurança e da defesa, mas também ao nível da economia, da ciência e da inovação, nomeadamente no que concerne à inteligência artificial”, acrescentou, para depois chamar a atenção para os extremismos “que põem em perigo a paz e a democracia do velho continente”.

Elogios para o amigo Montenegro

No que concerne à situação interna de Portugal, crê que “o país vive um momento de expectativa e de suspense relativamente à estabilidade da situação política, que espero se desvaneça em Outubro próximo, com a aprovação do Orçamento do Estado e com a vontade férrea de Luís Montenegro de levar a legislatura até ao fim”.

Entende que a chave está no diálogo entre o PSD e o PS, o qual se fracassar “então talvez seja a altura de irmos para eleições antecipadas para evitar o pântano e assegurar condições de governabilidade, na esteira do que recentemente defendeu Cavaco Silva”.

O atual primeiro-ministro é alguém bem conhecido de Jorge Neto, que não lhe poupa elogios: “é hoje cada vez mais consensual aos olhos dos portugueses que Luís Montenegro é um excelente primeiro-ministro, sagaz, lúcido, assertivo, sereno, inteligente, com uma visão estratégica de crescimento e desenvolvimento para o país”.

O desempenho que o chefe do governo tem demonstrado “não me surpreende porque, para lá de ser seu amigo pessoal, trabalhou comigo durante dois anos como meu estagiário no escritório de advocacia”. O advogado lousadense revela que Montenegro “foi um estagiário de primeira linha, porventura o melhor que já tive”.

Está convencido de que o crescimento do PSD “mais que do enfraquecimento do PS ou do Chega irá depender da afirmação dos valores da social democracia na boa governação de Portugal, um país mais próspero, mais justo e mais solidário”.

Co-fundador dos Lousada Runners

Há algum tempo arredado das lides políticas, Jorge Neto admite “um dia mais tarde voltar à política ativa, mas não a nível local” e alvitra até “numa função executiva no governo de Portugal”. E acerca disto remata com um “o futuro a Deus pertence”.

Sobre a tua terra natal, entende que “Lousada está a fazer o seu caminho. Tem tudo para triunfar. Tem gente laboriosa e honesta, uma atividade económica e empresarial pujantes. Uma história ilustre e uma centralidade cada vez mais procurada por gente de fora. E, claro está, qual cereja em cima do bolo, tem uma das populações mais jovens da Europa”.

Num estilo poético declara que “os amanhãs que se cantam vão passar por Lousada e serão promissores, sem sombra de dúvida”.

Culminando esta entrevista com referências à sua vida atual, Jorge Neto afirma: “leio e viajo sempre que posso e dedico-me à advocacia e à arbitragem comercial. Sou um cidadão do mundo, com uma curiosidade infinita e uma enorme vontade de viver”. Enfatiza esta ideia referindo que “por experiência própria, sei que a linha que separa a vida da morte é muito ténue” e também por isso faz desporto todos os dias.

A propósito da atividade desportiva, exclama que tem “orgulho em ser um dos fundadores do Lousada Runners, juntamente com o meu amigo Armando Oliveira”, grupo que “surgiu da máxima Mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são), que é um dos meus lemas de vida”. E para terminar, deixa “outro lema favorito, que é Sic transit gloria mundi (toda a glória do mundo é transitória). Tristes daqueles que não o enxergam…”.

Jorge Neto

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