por | 12 Set, 2024 | Editorial, Editorial

Editorial 128 | Os “Donos Disto Tudo”

Vivemos tempos extremamente marcados por um constante jogo de poder, onde diferentes individualidades e forças políticas competem pelo protagonismo. Já apelamos à responsabilidade e cooperação (editorial n.º 112), mas torna-se cada vez mais evidente a presença de indivíduos que, embalados pela sua influência e prestígio, assumem para si a posição de “donos do poder”.

Não. Esta “conversa” não tem barbas, nem bigodes! Porém, e infelizmente, este fenómeno não é raro. Alguns empresários e alguns políticos sentem-se intocáveis, acreditando que a sua posição lhes concede não apenas autoridade, mas também o direito de impor os seus desejos e expectativas aos outros, confundindo gratidão com subserviência.

A gratidão é um sentimento nobre e genuíno, que surge quando se reconhece um ato de bondade, apoio ou generosidade. É o reconhecimento sincero por algo que foi concedido. Já a subserviência é uma distorção perigosa da gratidão, que surge quando o “poderoso” exige lealdade cega e obediência total em troca de favores concedidos ou de apoios institucionais, esporádicos ou regulares.

O problema agrava-se quando essas figuras, confiantes da sua supremacia, acreditam que todos à sua volta lhes devem algo. Essa mentalidade cria um ambiente tóxico, onde a submissão é recompensada e a dissidência punida. Assim também acontece no nosso belo “Tarrão”. Infelizmente, não faltam exemplos de pessoas que, em vez de servir a comunidade, servem-se dela para os seus próprios interesses. Dito de outra forma: não nasceram para servir (ato de estar disponível para o outro), mas para servir-se (fazer uso em proveito próprio). Essa postura não apenas enfraquece a democracia, mas também compromete o desenvolvimento de uma sociedade justa, equitativa e pujante, onde o mérito e o esforço são relegados a favor da subserviência imposta.

É, pois, fundamental que tenhamos a coragem de questionar e resistir quando nos deparamos com aqueles que se veem como “donos disto tudo”. Aceitar o abuso de poder perpetua ciclos de injustiça e desigualdade.

Para quebrar este ciclo, é essencial promover uma cultura de transparência, responsabilidade e respeito mútuo. Precisamos de líderes que sejam exemplo de integridade e que usem a sua influência para o bem comum, não para alimentar egoísmos ou agendas pessoais. A verdadeira liderança não reside em ser servido, mas em servir; em ouvir mais do que impor; em construir pontes em vez de erguer barreiras; em potenciar o melhor de cada um, em vez de lhe retirar o devido mérito. É bom não esquecer: ninguém é dono do poder, ele é apenas um empréstimo da confiança pública. E essa confiança deve ser constantemente honrada e merecida.

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