JOSÉ CORVELO, UMA ESTRELA BRILHANTE
Chegou ao curso de Canto, do Conservatório de Música do Vale do Sousa, quando este tinha duas alunas. Hoje já perdeu a conta de quantos passaram pelas suas aulas em 20 anos. É natural dos Açores e já se sente “um pouco Lousadense”. Tem um vastíssimo currículo artístico, onde consta o prémio da Fundação Eng. António de Almeida, que distingue os melhores alunos finalistas das Universidades Portuenses. Obteve o grau de Mestre, pela Universidade de Aveiro. Dedicou-se ao domínio da ópera, com Jorge Vaz de Carvalho e Daniel Muñoz. É um conceituado barítono e tem-se apresentado nos grandes palcos nacionais e internacionais como solista em diversas óperas.
Foi na ilha das Flores, nos Açores, que tudo começou. As primeiras lições de solfejo teve-as na Banda Filarmónica local, onde tocou saxofone tenor “com a influência óbvia do meu pai e do meu irmão, ambos músicos da banda”. Mas foi só com 17 anos que ingressou no Conservatório Regional de Angra do Heroísmo, frequentando também o Conservatório Regional de Ponta Delgada. “Em ambos os locais, tive a felicidade de estudar Canto com professoras que foram para mim marcantes quer ao nível dos ensinamentos quer ao nível da motivação, nomeadamente a professora Imaculada Pacheco e a professora Luísa Alcobía Leal”. Com esta docente terminou o Conservatório, “que foi determinante ao abrir-me os horizontes a nível do canto, da ópera e do lied, incentivando-me a prosseguir os estudos a nível superior”. E foi o que fez, após perceber que era isso o que realmente queria.

Seguiu viagem para o continente, para uma carreira fulgurante com inúmeras vertentes mas onde se destacam as de docente e de intérprete de ópera. Estabeleceu-se no Porto, depois de concluído o Conservatório nos Açores. “Não me restava outra hipótese senão sair dos Açores se quisesse prosseguir os estudos de música. Na altura a minha opção seria Lisboa ou Porto e acabei por optar pela ESMAE no Porto”, informa o cantor.
Quando começou a lecionar na Academia José Atalaya, em Fafe, “era lá minha colega a professora Margarida Reis, que me antecedeu aqui em Lousada. Algum tempo depois, quando a professora Margarida saiu de Lousada, por razões profissionais, perguntou-me se eu estaria disponível para assumir a classe de Canto aqui, que na altura tinha apenas, duas alunas”.
Recorda que aceitou tal convite “também porque a maior parte dos professores que cá estavam, e ainda estão, tinham sido meus colegas na Escola Superior, inclusivamente as professoras que compunham a direção pedagógica, na altura as professoras Rosário e Fernanda”. Portanto, tudo lhe indicava que se sentiria em casa. Já se passaram mais de 20 anos “continuo aqui e hoje já me sinto um pouco lousadense”.
Se não fosse esta área, o que teria seguido José Corvelo? Diante desta questão revela que “em tempos cheguei a pensar em Direito, também cheguei a pensar ser comissário de bordo, mas felizmente essas ideias tiveram uma curta duração e decidi-me pela Música, sem mais nenhuma dúvida”, confessa.
A opção que tomou recolheu “o apoio total” da família, de onde “melhor reação seria impossível”. E acrescenta sobre o papel da família nas carreiras dos seus descendentes: “É um apoio fundamental. Conheço tantos casos em que isso infelizmente não acontece. Acho horrível quando os alunos vão para a Universidade para o curso que os pais querem e não para o que eles desejam e gostam, seja música, seja outro curso qualquer”, exclama.
O assunto da entrevista emana para o déficit de vozes masculinas no canto clássico. “Efetivamente, há sempre menos vozes masculinas. Porventura, haverá várias razões que podem levar a que isso aconteça, mas talvez esta questão merecesse um estudo mais aprofundado”.

Explica que “os rapazes acabam por ter muitas solicitações a nível do desporto, em especial do desporto-rei (futebol), e poucos conseguem conciliar tanta atividade. Pode eventualmente ser uma das muitas razões”.
Contudo, essa desvantagem pode transformar-se em benefício: “também significa que as vozes masculinas que seguem carreira terão a possibilidade de ter mais trabalho exatamente por serem menos”.
Boas expectativas no canto masculino
No outro género, o panorama é diferente: “já várias vozes femininas iniciaram aqui a sua formação, continuando posteriormente essa formação na Universidade e hoje são profissionais ou estão a caminho de o ser. No que respeita às vozes masculinas, aqui em Lousada, ainda ninguém seguiu”.
Neste ponto da entrevista, José Corvelo chama a atenção para algo que pode mudar no canto masculino lousadense: “veremos se nos próximos anos isso se altera, já que presentemente até tenho belíssimas vozes masculinas. Se continuarem a trabalhar bem, têm potencial para poderem seguir e tornarem-se profissionais nesta área”.
O seu exemplo no canto pode também ser um incentivo para rapazes e homens aderirem ao canto clássico. “Continuo a fazê-lo, tentando sempre conciliar, da melhor forma, a participação em óperas com as aulas”, afirma.
Das notáveis atuações que já presenteou diz que “alguns papéis que me deram e dão muito gozo fazer, como seja Leporello (na ópera D.Giovanni), Bartolo (no Barbeiro de Sevilha), Dulcamara (na Ópera Elixir do Amor), por exemplo. O que não quer dizer que não goste de muitos outros papéis”.

Brevemente, já a 27 deste mês, estará no Coliseu do Porto a cantar exatamente o Dr. Bartolo, na ópera O Barbeiro de Sevilha. Depois seguir-se-ão outras produções, desta vez no Teatro Nacional de São Carlos, também no Porto.
Diretor Artístico de concurso internacional
Está entregue a José Corvelo a direção artística do Concurso Internacional de Canto Lírico, que tem vindo a realizar-se anualmente em Lousada. Explica que “o júri nestas três primeiras edições foi presidido pelo Maestro Cesário Costa. Ao Júri cabe avaliar os concorrentes e também tenho vindo a integrar o júri. Mas à direção artística cabe a coordenação de toda a parte artística do Concurso, como por exemplo, definir os regulamentos, estabelecer os respetivos contactos no sentido de formar um júri com nomes relevantes do panorama lírico nacional e internacional e enfim fazer o possível por fazer ascender o Concurso a um patamar que esteja pelo menos dentro da média dos bons Concursos Mundiais”.
Reconhece que se trata de “um grande desafio, que só é possível levar a cabo porque toda a equipa que trabalha na organização do Concurso é absolutamente fantástica e porque o Dr. Pedro Araújo, presidente da ACML abraçou também entusiasticamente este projeto e foi mesmo o seu grande impulsionador. Sem estas condições não se conseguiria fazer nada”.
Este ano aconteceu a terceira edição “e, até ao momento, o feedback de todos os que por aqui têm passado, é extraordinariamente positivo. Temos conseguido ter em Lousada cantores de todo o Mundo a participar no Concurso Internacional de Canto Lírico de Lousada, alguns que já cá vieram em mais de uma edição e além disso, temos durante uma semana em Lousada grandes personalidades do Canto Lírico Internacional para integrar o júri”.
Ciente da importância deste evento, José Corvelo sublinha que “tem sido importante para os cantores portugueses, terem esta possibilidade de se darem a conhecer, de se fazerem ouvir sem ter de sair do seu país e ao mesmo tempo terem esse contacto com jovens cantores de diversas partes do Mundo. E também para os nossos alunos do Conservatório, nomeadamente os alunos de Canto, poderem assistir a um Concurso onde participam cantores já com um elevado nível, e tanto que se aprende só a ver e ouvir”.














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