MAIOR VIGILÂNCIA NÃO IMPEDE ATROCIDADES (PARTE 1)
Os Guarda Rios são voluntários com mais boa vontade que meios para proteger o Rio Sousa. Fazem o que podem e é muito. Participam em ações de limpeza e identificam ocorrências irregulares. Mas as atrocidades e abusos continuam a acontecer. A junta de Freguesia de Macieira, por exemplo, não se quer pronunciar sobre isso. O seu presidente diz que os casos conhecidos “estão entregues às entidades competentes”. O rio Sousa continua a ser um parente pobre da legalidade ambiental. Sobre isso vamos falar na próxima edição. Trata-se de descargas poluentes, de indústrias e explorações agropecuárias. Mas também há descargas particulares ao longo do rio, diz o autarca da união de freguesias que abrange Pias.
O rio Sousa atravessa o concelho de Lousada numa extensão de 14,82 km e suporta uma variada biodiversidade, não apenas nas suas águas, mas também nos ecossistemas envolventes e solos. É um recurso valioso que recebe muita dedicação de muitas pessoas. Mas também é nefastamente afetado pelas atrocidades de alguns. Sobre estes nos ateremos noutra ocasião. Por agora, ficamo-nos pelo que nos dizem os zeladores fluviais, os Guarda Rios.

É o caso da meinedense Fátima Couto, conhecida pela sua dedicação ao rio Sousa. Tem um pequeno centro de estudo (Inapoio), cujos alunos participam com ela nas atividades de limpeza do rio, em três partes do mesmo, que ficam entre o parque do Areinho e a ponte de Espindo. “Tive conhecimento do projeto Guarda Rios numa sessão de esclarecimento sobre o mesmo e achei uma iniciativa bastante interessante e um excelente meio para sensibilizar as crianças para a importância dos rios”, descreve a educadora.
Com a ajuda dos alunos, “o nosso trabalho consiste em monitorizar a parte do rio que nos está confiada, fazendo regularmente atividades, umas vezes em colaboração com a Biolousada na limpeza do rio, também fazemos caminhadas pela margem do rio para ver se identificamos alguns focos de poluição ou mesmo para apanhar o lixo que encontramos e, se for caso disso, reportar alguma ocorrência à coordenadora do projeto”.
Afirma que por ali não há poluição industrial, “isso acontece mais a montante de Meinedo”.
Informa que “o maior problema é o lixo que encontramos” e desabafa que “as pessoas ainda não estão sensibilizadas para a importância dos rios”. “Daí o valor deste projeto e nada melhor do que incluir as crianças”, declara Fátima Couto.
Outra das principais zeladoras do rio Sousa é Olga Fátima Mendes, de Macieira. Também é Guarda Rios e tal como aquela sua congénere de Meinedo, também orienta a participação de jovens nas atividades fluviais.
Descargas são menos frequentes
Quando soube do projeto, pela bióloga Daniela Barbosa “achei interessante, não só para mim, mas para os escuteiros do Agrupamento de Macieira e foi assim que nasceu a Patrulha Guarda Rios 1069 da qual faço parte”, afirma Olga Mendes.
Ela e os escuteiros adotaram “dois troços de rio e participamos em várias ações de limpeza por ano”. Alem de Guarda Rios, o grupo macieirense costuma participar no Plantar Lousada.
Aquela chefe do Agrupamento de Escuteiros revela que têm participado “em ações que nos são propostas para limpeza e encontramos no leito do rio todo o tipo de lixo, desde roupa, cadeiras, mangueiras, vassouras e muito plástico”.

Aponta como principais problemas do rio “além de descargas de água suja, que estão menos frequentes, o lixo que é levado nas enxurradas, invasão do leito de plantas invasoras, e o cortar das plantas necessárias para segurar as margens“.
Reside em Vilar do Torno e Alentém, mas Olga defende o rio Sousa na sua freguesia de origem, por uma questão ambiental e também por identidade e memória. Tem boas recordações da infância e adolescência na zona do Amial (Cernadelo), onde o rio já teve praia fluvial. “Lembro-me de fazer piquenique com a família no Amial e nos banharmos no rio. Aquela zona esteve muito suja, mas creio que agora está bem”, afirma.
Por último, Olga Mendes fala que “por vezes a nossa boa vontade é muita, mas esbarra na relutância de alguns proprietários: “Quando os terrenos em volta são particulares tem que haver alguma sensibilidade dos donos desse terrenos para se poder atuar”, afirma Olga.

Esta zeladora do rio admite que “nas primeiras ações em que participamos as descargas industriais e de pecuária eram mais frequentes” que agora.
O nosso jornal sabe que essas descargas continuam, mais esporádicas, é certo, mas mais camufladas, em dias de chuvada, por exemplo.
Autoridade não atua com celeridade
Um dos mais importantes troços do rio Sousa no concelho de Lousada situa-se em Pias, “na zona dos moinhos”. O presidente da União de Freguesias, Fausto Oliveira, diz que “há vários tipos de problemas”, nomeadamente “a falta de um projeto completo sobre o que fazer com o rio”. O autarca diz que “daí deriva o segundo problema, que é a manutenção da poluição” e, por fim, aponta um terceiro problema, que envolve a “inércia de muita gente”. Neste aspeto vai mais longe e aponta o dedo a uma entidade: “a APA – Agência Portuguesa do Ambiente, que tem competências na matéria, não atua com celeridade”.
Os focos de poluição são hoje, contudo muito inferiores ao que acontecia há 5 ou 6 anos. Mas ainda existem e estão identificados. Não são constantes, mas acontecem.
A freguesia tutelada por Fausto Oliveira é conhecida pela Festa do Rio, que é um sucesso anual de convívio na zona fluvial dos moinhos, os quais precisam de ser recuperados. Existe um plano para isso, que se chama “Projeto Molinológico de Pias”, ainda não saiu do papel, depois da ideia ter nascido há cerca de dez anos.
O autarca diz que “aguarda-se financiamento” e que “há um compromisso da APA, de financiar parte significativa, através do fundo ambiental”. O Município de Lousada é igualmente parte envolvida.
Numa revelação em primeira mão, o presidente da União de freguesias de Silvares, Pias, Nogueira e Alvarenga disse ao O Louzadense que “os primeiros trabalhos vão começar em breve, com o restauro de um moinho e de um pequeno edifício”.
“A junta de freguesia também pretende avançar com uma ponte e a acessibilidade desde o parque ao centro da rua do rio Sousa”, acrescentou Fausto Oliveira.
Bloco de Esquerda leva poluição à AR

Há quatro anos, o Núcleo de Lousada do Bloco de Esquerda realizou uma ação de protesto contra a poluição no rio Sousa. Na ocasião, foi colocada, “nas proximidades de um agente poluidor identificado e notificado”, uma faixa com palavras de ordem em defesa do rio Sousa, informou fonte do partido em setembro daquele ano. A faixa com os dizeres “STOP DESCARGAS RIO SOUSA” foi afixada na rotunda de Soutelo.
A 200 metros daquele local encontrava-se uma vacaria que labora ilegalmente e que é acusada pelas autoridades de efetuar descargas poluentes naquele curso de água. Entretanto, os deputados do Bloco na Assembleia da República interpelaram, nesse mesmo mês, o ministro do Ambiente e da Ação Climática acerca daquele caso.
Recentemente, a propósito de uma apropriação de parte do rio Mesio, por parte de um particular, “o BE vai levar à Assembleia da República este caso”.
Também o rio Sousa continua a ser alvo da atenção do Bloco, que se congratula “pela diminuição de descargas poluentes” naquele rio, “após as ações de contestação que realizamos”, disse-nos em comunicado o Núcleo local, que lamenta que “o caso ainda não está totalmente solucionado”.
“Este tipo de descargas de resíduos orgânicos, executadas à margem da regulação, diminui consideravelmente a quantidade de oxigénio disponível na água, bem como potencia o excesso de nutrientes dissolvidos, levando a que algumas espécies não benéficas possam proliferar rapidamente. Estas descargas afetam também os solos e flora envolvente e, não menos preocupante, são também uma fonte de mal-estar para os habitantes do concelho, devido aos cheiros nauseabundos e impacto visual e recreacional.
Por estas razões, “o núcleo de Lousada do Bloco de Esquerda pretende chamar a atenção para a necessidade de regularização da situação e à paragem das descargas de resíduos, domésticos e industriais, o mais rapidamente possível, com a atuação das entidades competentes de acordo com a legislação que vigora”. Os bloquistas justificam que “o problema é comum a todos nós, diz respeito a todos os habitantes do concelho de Lousada” e asseveram que, “a sua regularização deve estar acima de quaisquer interesses individuais”.













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