RADIOGRAFIA AOS SERVIÇOS DE SAÚDE DE LOUSADA (PARTE 1)
O Louzadense inicia hoje um trabalho de auscultação ou radiografia ao estado dos serviços de saúde em Lousada. Um dos aspetos mais apontados é a falta de médicos de família. No Centro de Saúde da Vila há utentes à espera de consulta há mais de sete meses. A retirada para a reforma de uma médica não foi colmatada. Em Caíde, acontece situação idêntica, pois a licença de maternidade de uma médica não está a ser devidamente acautelada. É um panorama desanimador, numa altura em que a época fria se avizinha e com ela vem o habitual aumento de afluência aos serviços de saúde. Acresce que o sistema de “telefonar antes de ir ao hospital” fará encaminhar muitos utentes para as unidades de saúde locais ou centros de saúde, para descongestionar o hospital de Penafiel.

Nem de propósito, surgiu esta sexta-feira a notícia da promoção dos serviços de Caíde e Meinedo para o estatuto de USF (Unidade de Saúde Familiar). Mudança é o que se impõe num setor que denota inúmeras debilidades e constrangimentos, conforme atestam dois profissionais de áreas distintas que hoje entrevistamos.
Para a lousadense Sandra Silva, Pós-graduada em Gestão dos Serviços de Saúde, há um problema base que importa ter em conta, numa altura em que o recurso às telecomunicações e novas tecnologias da informação estão a ser adotadas pelos serviços de saúde, para impedir congestionamentos nos locais e agilizar procedimentos.
A médica diz que “o envelhecimento da população é uma tendência global que se tem intensificado nas últimas décadas em Portugal, e Lousada não é exceção. Este fenómeno implica uma maior procura pelos serviços de saúde, representando um desafio significativo tanto para os profissionais como para o Sistema Nacional de Saúde (SNS)”.
Assim, a informatização das consultas médicas tem trazido vários benefícios, mas também impõe desafios, especialmente para os idosos. Aquela médica lembra que “muitos enfrentam dificuldades no uso de tecnologias digitais, devido à falta de familiaridade e competências limitadas. Isso pode dificultar o agendamento de consultas online, o acesso a resultados de exames e comunicação com os profissionais de saúde através de plataformas digitais”.
A literacia em saúde digital é essencial para que os mais velhos possam compreender e utilizar as informações disponíveis online e, nesta medida, Sandra Silva salienta que “estudos indicam que uma grande parte desta população tem dificuldades em entender as recomendações médicas e os resultados dos exames. Além disso, a falta de acesso a dispositivos adequados e a uma internet de qualidade constitui uma barreira. Problemas de visão e coordenação motora também dificultam a utilização de smartphones e computadores. Para superar esses desafios, é crucial proporcionar suporte e educação continuada, através de programas de formação e assistência técnica, que podem facilitar a inclusão digital dos idosos”.
A transição digital na saúde “deve ser inclusiva, garantindo que todos,independentemente da idade, beneficiem das inovações tecnológicas”, insiste.

Outro desafio premente é a necessidade de reforçar a humanização nos cuidados de saúde. Uma prestação de cuidados humanizada deve permear todos os níveis do processo, desde o acolhimento ao tratamento. Contudo, a sobrecarga de trabalho, a responsabilidade das ações e o desgaste emocional que os profissionais de saúde enfrentam tornam esta abordagem difícil de implementar. Muitos desenvolvem um desempenho mais mecanizado, perdendo a ligação emocional com os utentes, o que compromete a qualidade dos cuidados”, sublinha a especialista.
O aumento dos custos dos cuidados de saúde per capita “também representa um grande desafio para a qualidade e eficiência da gestão. É necessário encontrar soluções que equilibrem a contenção de custos com a manutenção da qualidade dos serviços prestados”.
CONSTRANGIMENTOS E VIRTUDES
É genericamente sabido que nas Unidades de Saúde Familiar (USF) em Lousada, subsistem vários problemas. Sobre isso, Sandra Silva diz que “a falta de profissionais de saúde, utentes sem médico de família ou de substituição em caso de baixa médica, e ainda constrangimentos administrativos, como dificuldades no atendimento telefónico e na marcação de consultas urgentes” são fatores que “comprometem o desempenho e a qualidade dos serviços prestados à população local”.
Questionada se isso fomenta o recurso ao serviço privado, defende que “a atuação do setor privado pode trazer uma concorrência saudável, incentivando a melhoria dos serviços prestados, já que os privados procuram garantir a confiança dos organismos que os contratam”. No entanto, “incentivar a qualidade nos cuidados de saúde privados é um desafio para os organismos públicos, pois a qualidade nem sempre é fácil de medir ou de verificar. Assim, a relação entre concorrência e qualidade nos sistemas de saúde é complexa e depende da existência de dados fiáveis que permitam essa avaliação”.
Para esta entendida na gestão de serviços de saúde “uma das vantagens do sistema privado é a maior liberdade que os pacientes têm para escolher médicos, especialistas e hospitais, além de tempos de espera, geralmente, mais curtos em comparação com o sistema público”. E acrescenta: “na minha opinião, deve haver uma complementaridade entre os setores público e privado na saúde. Esta combinação permitiria salvaguardar o bem-estar dos doentes, promover a inovação e reduzir a burocracia desnecessária nos cuidados de saúde”
A organização estrutural e conjuntural dos serviços de saúde em Portugal e em Lousada merece uma atenção especial de Sandra Silva. Acerca disso, recorda que “em 2024, assistimos a uma reorganização dos cuidados de saúde, com a integração de Hospitais, Centros Hospitalares e Agrupamentos de Centros de Saúde, num modelo de Unidades Locais de Saúde (ULS), conforme o Estatuto do SNS”. Ainda neste âmbito salienta que “a partir de terça-feira, 22 de outubro, a Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (ULSTS) implementou o projeto Ligue Antes, Salve Vidas. Os utentes, antes de se deslocarem às urgências do Hospital Padre Américo, em Penafiel, deverão ligar para a Linha SNS24, onde a situação clínica será avaliada por um enfermeiro. O doente será então encaminhado para o centro de saúde ou para as urgências, conforme o grau de gravidade”. Diante disto, a médica considera que “esta medida visa reduzir o uso inadequado dos serviços de urgência e garantir uma triagem mais eficiente. Embora concorde com esta iniciativa, há algumas questões que devem ser consideradas. Este novo procedimento pode sobrecarregar a Linha SNS24, causando atrasos no atendimento de doentes com patologias urgentes”. Além disso, receia que “parece faltar sensibilização e informação à população de Lousada sobre esta mudança no atendimento das urgências. Outro ponto crucial é o impacto deste modelo nos cuidados de saúde primários, que verá um aumento da procura. Será necessário alocar mais profissionais de saúde e alargar o horário de funcionamento dos centros de saúde para responder às novas necessidades”.
PERÍODO CRÍTICO SEM ATENDIMENTO
Está previsto um Serviço de Atendimento Complementar (SAC) no Centro de Saúde de Lousada, com atendimento diário até às 20h, incluindo fins de semana e feriados,há um período crítico entre as 20h e as 8h, durante o qual os utentes terão de se deslocar ao Hospital Padre Américo em Penafiel por falta de resposta local.
Assim, “a reativação de um Serviço de Apoio Permanente (SAP) no Hospital de Lousada, protocolado com o Ministério da Saúde, durante o período noturno, seria benéfica tanto para o concelho de Lousada como para os concelhos vizinhos”, sublinha Sandra Silva. Esta também chama a atenção para a importância de “dotar os cuidados de saúde primários com meios complementares de diagnóstico, permitindo uma resposta mais eficiente e reduzindo a necessidade de encaminhamento de utentes para as urgências hospitalares, exceto em casos realmente emergentes”.
Ainda no concernente às medidas necessárias, diz que “outro aspeto fundamental é a redução dos tempos de espera para consultas nas Unidades de Saúde Familiar (USF), especialmente na área da saúde oral. A contratação de mais profissionais de saúde oral, neste serviço público, contribui para diminuir a prevalência de cáries dentárias, prevenir a perda precoce de dentes e detetar precocemente lesões pré-malignas ou cancro oral, melhorando assim a saúde geral e a autoestima da população de Lousada”.
CRÓNICA FALTA DE ATRATIVIDADE
Como especialista e pós-graduado em gestão de serviços e instituições, o lousadense João Cordeiro da Costa recorda que “a Vila de Lousada dispõe de uma vasta oferta de serviços de saúde nas 3 áreas do sistema de saúde: SNS, social e privado”. No que toca aos cuidados de saúde primários “debatem-se cronicamente com falta de atratividade para fixação de profissionais, os sectores social e privado oferecem uma resposta não ideal, reativa, baseada em cuidados secundários”. No entender deste especialista, “os lousadenses sofrem pela pertença a uma ULS subdimensionada para a população que serve, geradora de insatisfação nos seus profissionais, pacientes, gestores, autarcas”.
Não obstante, há motivos positivos a enaltecer, como “os programas Diabetes em Movimento ou a Equipa Comunitária de Saúde Mental”.

O panorama genérico que se vive no setor público é por muitos visto como propício para o avanço da privatização da Saúde. Um dos aspetos que leva a isso, no entender de João Cordeiro da Costa “é o subdimensionamento resultante de uma maior procura e exigência de quantidade e qualidade de cuidados de saúde. Os setores social e privado da saúde vêm responder a estas limitações decorrentes da limitação de recursos do SNS”.
Para este médico e Adjunto da Direção Clínica do Hospital-Escola Fernando Pessoa, as medidas urgentes a implementar devem direcionar-se a montante do problema, ou seja, na prevenção. E justifica: “Lousada é um concelho jovem e o foco das medidas de saúde deveria ser a medicina preventiva. É fundamental apostar na literacia em saúde nas escolas, fomentar o desporto escolar de qualidade e apostar na criação de condições infraestruturais que promovam estilos de vida saudáveis (ciclovias, mais parques e equipamentos desportivos)”. Num outro prisma dos cuidados de saúde propriamente ditos, o clínico entende importante “priorizar os cuidados de saúde primários e a estabilização dos seus quadros e promover iniciativas junto da ULS ou outros prestadores de saúde de proximidade”. A terminar, este entrevistado aventa a possibilidade de “podermos importar (novamente) o modelo britânico, com a criação de centros de diagnóstico na comunidade (CDC) para diagnóstico e tratamento de patologia respiratórias, cardíacas ou gastrenterológicas fora do hospital, por especialistas, em estruturas locais”.













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