O engenheiro que modernizou a linha do Porto a Caíde de Rei e viveu momentos históricos

DUARTE XAVIER DE CAMPOS

O meinedense Duarte Xavier de Campos foi, entre outros cargos, Diretor de Projetos do Norte, dos Caminhos de Ferro Portugueses. Quase a completar 80 anos, está aposentado em Ermesinde, casado com a pintora Isaura Xavier de Campos. Nesta entrevista passou em perspetiva uma riquíssima e preenchida vida, de onde destacamos o papel (preponderante) que teve na modernização da Linha do Caminho de Ferro do Porto a Caíde de Rei. Isso permitiu não só tornar muito mais rápidas as viagens de comboio naquela linha, como também possibilitou acabar com os acidentes e as mortes que ocorreram antes disso.

Foi em Meinedo, no lugar do Pomarelho, perto do final do ano de 1944, que tudo começou para Duarte Xavier de Campos. O próprio relata assim o seu nascimento: “a minha avó Aurora assistiu e parece tudo ter corrido bem. Foi pelas 7 horas da manhã. Não sabia, a minha avozinha, que, passados que fossem 79 anos, ela representaria o SNS, sendo que, no degrau imediato do serviço assistencial, estava, na Casa de Padrões, bem perto do Apeadeiro, o Dr. Álvaro Malheiro, especialista de todas as doenças, próximo do meu avô Materno, tamanqueiro e negociante de madeiras, na arte de avaliar um bom tinto”.

Duarte Campos_Escola Prática de Engenharia

Da infância tem muitas memórias, sobretudo da escola. A primeira professora chamava-se Maria da Cruz (Perdigão): “Era alta, magra,morava para os lados dos Eidos Novos (Pias). Deslocava-se a pé, usava normalmente botas e tinha o andar aprumado dum oficial prussiano. O seu ar austero tinha por detrás um coração de ouro. Em vez da tradicional palmatória, usava uma régua insignificante que não nos apavorava”.

Lembra-se também da professora Emiliana: “era um mulherão, cheinha por todo, de ar fidalgo e altivo. Não lhe conhecíamos homem. Tinha com ela a filha única, Julinha, bonita como a mãe”. Esta viria a ser a primeira mulher eleita para a Assembleia Municipal de Lousada. Por coincidência, o seu marido, engenheiro Joaquim Guimarães, da Casa do Rio (Torno, Lousada), haveria de pertencer aos quadros da CP em Campanhã, precisamente sob direção de Duarte Xavier de Campos.

Terminados os estudos primários em Meinedo, com a professora Júlia da Conceição a marcar a sua formação, Duarte prosseguiu a carreira escolar no Mosteiro Beneditino de Singeverga. As memórias saudosas desse tempo centram-se em alguns professores e muitos colegas e conhecidos. Criou amizade com o padre Rafael Pereira. Também dá especial relevo a uma individualidade de grande relevância académica e religiosa no distrito, que faleceu no ano passado, Frei Geraldo Coelho Dias. “Era intelectualmente muito dotado, trabalhador, persistente e disponível”, recorda o engenheiro.

Daquela instituição de Santo Tirso, seguiu para o Colégio de Lamego, para terminar os estudos liceais.

Em Abril de 1972, “cumprindo a guia de marcha respetiva, fui colocado na Escola Prática de Engenharia (EPE), em Tancos”. Ali se formou Engenheiro Eletrotécnico.

Um professor naquela entidade militar dava aulas na Escola Industrial do Entroncamento e no Colégio de Santa Bárbara, que era propriedade da Escola Prática. “Perguntou-me se o gostaria de substituir. Disse que sim, porque o tempo chegava e o Comandante Pimentel gostava que fizéssemos atividades extras, desde que tendo o nosso serviço à EPE em dia”, afirmou.
“Foi gratificante a atividade como professor. Não existiam ainda as moléstias que agora tornam a vida dos professores num inferno. A burocracia era mínima e o nosso esforço orientava-se exclusivamente no sentido de transmitir conhecimento. Os alunos eram, de um modo geral, interessados e atentos, mesmo os mais pequenos. Não se colocavam problemas de indisciplina. No final de cada período, entregava-se na Direção da Escola um papelinho com as notas e estava feito”, declara Duarte Xavier de Campos.

AS PASSAGENS DE NÍVEL

Depois da EPE foi colocado na carreira de administração e gestão dos caminhos de ferro, começando por estagiar em Santa Apolónia (Lisboa) e terminando anos mais tarde em Campanhã (Porto), onde foi Diretor de Projetos.
Por isso, não é de estranhar que o tema do caminho de ferro seja um dos seus prediletos. Dentro desta temática, refere-se muito às Passagens de Nível (PN). “A maior parte não tinha qualquer proteção além do tradicional Pare, Escute e Olhe. Em Meinedo, a passagem de nível do apeadeiro era de cancelas rolantes. A guarda titular era a senhora Aurora, era uma instituição”, recorda. Mas “em Espindo não havia guarda e lá foi colhido pelo «direto das onze, para a Régua» um miúdo, cujo pai, foi visto a apanhar do cascalho, pedaços esmigalhados do filho para a copa surrada do seu chapéu de trabalhador rural”.

E prossegue este relato: “a seguir ao apeadeiro, havia a PN particular da casa de Padrões, depois a de Santa Catarina, onde a última vítima foi uma jovem de 18 anos”.

O antigo diretor ferroviário recorda também “episódios de carros de bois a que o comboio limpara a traseira e um motociclista que o comboio arrastou umas centenas de metros, na sua frente”.

Duarte Campos

Em suma, “as Passagens de Nível eram uma realidade múltipla e extensa do convívio mal resolvido da via  férrea com um tráfego viário cada vez mais intenso e a criação descontrolada de atravessamentos da via sem condições mínimas de visibilidade,  proteção e segurança”.

Entretanto, no Diário da República de 29 de Agosto de 2003, foi publicada a Resolução do Conselho de Ministros nº 139/2003 que previa a “Intervenção no troço Porto-Régua, com eletrificação, novos sistemas de sinalização, telecomunicações e comando de tráfego centralizado”. Com isso, iriam terminar as mortes (por acidente) na linha, mas também acelerar as viagens e dar mais conforto aos passageiros.

Mas o processo, além de demorado e burocrático, não foi totalmente do agrado de Duarte Xavier de Campos, na altura diretor de transportes da CP, que viveu de perto e dirigiu o projeto que eliminou as Passagens de Nível existentes entre Ermesinde e Caíde de Rei. “Conheci administradores exemplares, mas também conheci outros recrutados pelas poderosas máquinas dos partidos para cumprirem, em obediência aquilo que era mais conveniente para quem os nomeava”, acusa.

VIAJOU COM O PAPA

À parte esse desabafo, o engenheiro relata episódios e eventos felizes ocorridos ao longo da sua carreira nos Caminhos Portugueses (CP).

A sua grande devoção religiosa fez com que sentisse de forma especial a viagem de comboio do Papa João Paulo II, no último dia da sua visita oficial a Portugal em 1982. Essa vinda ao nosso país foi para cumprir a promessa de rezar em Fátima como forma de agradecimento por ter sobrevivido ao atentado de que foi vítima em 1981.

O antigo diretor recorda que “o programa da visita Papal foi extenso e acabou por incluir uma ida ao Santuário Mariano do Sameiro, em Braga”. Estando previsto no Programa como meio de transporte alternativo e de recurso, caberia à CP, por razões climatéricas, o honroso papel de transportar o Papa, entre Coimbra e a Estação de Braga. Foi no dia 15 de Maio de 1982”. A responsabilidade de fazer parte dos serviços que providenciaram esse transporte e viajar junto de João Paulo II, foi para Duarte Xavier de Campos algo de inolvidável e que realça com emoção. Essa religiosidade está igualmente patente na forma como tem vivido a construção da nova igreja da sua freguesia natal, que tem acompanhado com regularidade.

Duarte Campos ao centro com amigos dos Comboios

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