por | 9 Nov, 2024 | Saúde, Sociedade

Decadência dos serviços de saúde atrai privados

RADIOGRAFIA AOS SERVIÇOS DE SAÚDE DE LOUSADA (PARTE 2)

Outros concelhos ficaram com as suas “urgências” (Serviço de Atendimento Permanente) em funcionamento alargado, mas Lousada ficou sem esta valência. Além disso os utentes ficaram a pagar um preço que é proibitivo ou inacessível para grande parte da população, que é uma da mais pobres do Tâmega e Sousa. A necessidade premente de reabertura alargada do SAP do Hospital é uma das medidas preconizadas por Carlos Santos Costa, diretor clínico daquela unidade hospitalar. Tal medida foi alvo de uma moção da coligação PSD/CDS, na última Assembleia Municipal. A escassez de respostas e a falta de qualidade de serviços faz com que o setor privado ganhe terreno na área da saúde onde o SNS surge cada vez mais como “o patinho feio”. A CUF já tomou conta da Clínica Arrifana e a Lusíada Saúde é que está a maturar um projeto para se implantar em Lousada. Quanto ao Hospital da Trofa, já deve ter desistido de investir nesta vila e parece apostar fortemente em Penafiel.

Um dos protagonistas do setor da saúde local é o hospital de Lousada, pertencente à Santa Casa da Misericórdia. O seu diretor clínico, Carlos Santos Costa, falou ao nosso jornal sobre o setor da saúde, seus constrangimentos e virtudes.

Carlos Santos Costa, diretor clínico do Hospital de Lousada

O clínico começou por dizer que “até ao passado recente, em termos práticos para a população a divisão do SNS fazia-se em cuidados de saúde primários (CS e USF) e cuidados de saúde hospitalares (CHTS). A reorganização recente, introduzida no final de 2023 início de 2024, com a generalização do conceito de unidade local de saúde (ULS), conceptualmente uniu numa só estrutura organizacional e pretensamente funcional, os diferentes níveis de cuidados de saúde”.

“A cobertura dos cuidados de saúde primários, avaliada pelo número de cidadãos inscritos nos centros de saúde e com médico de família atribuído no momento da criação da ULS Tâmega e Sousa era superior a 99%, havendo à data apenas 9 cidadãos sem médico de família atribuído”, observa o diretor clínico, que acrescenta que “se considerássemos cuidados de saúde sinónimo de ter médico de família atribuído a população de Lousada não teria carências em cuidados de saúde”. No entanto, a realidade é outra: “há outros fatores a considerar que passam principalmente pela acessibilidade aos designados cuidados de saúde, quer primários e mais ainda hospitalares, acresce a tudo isso uma população migrante, em crescimento, necessitada de cuidados de saúde”.

Claro que “a prestação de cuidados de saúde não é exclusiva do SNS, há um conjunto de outras entidades privadas e do dito setor social (no qual se incluem as misericórdias), que disponibilizam e prestam cuidados de saúde, algumas vezes em parceria e complementaridade com o SNS.

Desde o início deste novo milénio que a população do concelho, e da região, se habituou a contar (e socorrer) dos serviços de saúde prestados pela Santa Casada Misericórdia de Lousada, através do seu “Hospital de Lousada” (com Serviço de Atendimento Permanente (SAP) 24H/Dia, Bloco operatório, Unidades de Internamento de Cirurgia e Medicina Interna, Consulta Externa (Especialidades Médicas e Cirúrgicas), Unidade de Cuidados Continuados, Meios Complementares de Diagnóstico (MCDT: Imagiologia, Análises Clinicas, Medicina Física e Reabilitação, Cardiopneumologia, Gastroenterologia).
Alguns destes serviços decorrem em protocolo com o SNS, outros com parcerias com vários subsistemas de saúde e companhias de seguros. A Santa Casa da Misericórdia de Lousada tem ainda os lares para cuidados de saúde aos idosos.

REABRIR TOTALMENTE AS “URGÊNCIAS”

Além da Santa Casa da Misericórdia de Lousada, o concelho e a região conta ainda com vários prestadores de cuidados de saúde, nomeadamente um crescente número de “Clinicas e Hospitais” pertencentes aos grandes grupos privados, e das outras Misericórdias da região.

Apesar de toda esta disponibilidade à população, Carlos Santos Costa diz que as pessoas “no dia-a-dia não tem as respostas de que necessitam ou pretendem, principalmente no acesso aos cuidados hospitalares (Urgência, consultas das Especialidades e Bloco Operatório)”.

Hospital de Lousada

Para melhorar esta situação “o SNS terá que aumentar aos recursos existentes, quer nas infraestruturas, espaço físico, e principalmente nos recursos humanos. Uma outra possibilidade a considerar passará pelo aproveitamento da capacidade instalada dos outros parceiros prestadores de cuidados de saúde (Misericórdias e Privados), e pelo alargamento dos protocolos existentes, e criação de novos protocolos”.

A este propósito diz que “importa referir o protocolo que existiu com a Misericórdia de Lousada, para atendimento urgente no Serviço de Atendimento Permanente, e que permitia à população lousadense e da região ser atendida no período noturno e nos fins de semana e feriados, com grande afluência não só de lousadenses, mas de doentes de toda a região”, e que unilateralmente foi terminado pelo Estado. A reposição deste serviço tem sido amplamente defendida e reivindicada pelos autarcas, como fez na última Assembleia Municipal a bancada do PSD/CDS, onde apresentaram uma moção tendente à reposição daquela valência.

OBESIDADE É UM PROBLEMA CRESCENTE

Os problemas de saúde que afetam os lousadenses, bem como os cidadãos da região, “não são diferentes dos que afetam a restante população portuguesa”, diz Santos Costa, que aponta para a “necessidade de educação para a saúde, ensinar a população a ter estilos de vida, comportamentos que promovam a saúde, desde a atividade física à alimentação, e a tomar decisões informadas e fundamentadas, no dia-a-dia”.

A par disso existem doenças cardiovasculares (hipertensão, eventos vasculares cerebrais e cardíacos), e doenças metabólicas (Diabetes, Dislipidémia – “colesterol e triglicerídeos”), que são problemáticas no topo da lista das preocupações. Neste inclui-se também a questão da Obesidade, “um problema de saúde pública crescente, com grande repercussão sobre a qualidade de vida dos indivíduos, e ainda alvo de preconceito e discriminação, até mesmo pelos serviços de saúde”, declara Santos Costa.

Além de tudo isto há ainda o fator do envelhecimento da população, que obriga à necessidade de cuidados diferenciados e depara-se com falta ou inexistência de cuidadores. Por último, mas não menos importante, há “as doenças oncológicas (mama, próstata, pulmão, cólon, estômago), com incidência cada vez em idades mais precoces, sem sintomas específicos, algumas sem programas de rastreio, ou com programas de rastreio que começam para idades menos jovens, lamenta e alerta o conceituado clínico.

No panorama geral até aqui traçado, enquadra-se a expansão dos serviços privados de saúde, que crescem por causa da “incapacidade de resposta, de satisfazer as necessidades da população, criando uma oportunidade de mercado que os grupos económicos ligados à saúde querem ocupar, trazendo cuidados diferenciados e personalizados à população insatisfeita e necessitada”.

O diretor clínico do Hospital de Lousada realça que “além dos cuidados de saúde prestados, este setor privado (que são empresas) leva para as regiões onde se implanta um crescimento económico, com a criação de novos postos de trabalho, não só para médicos e enfermeiros, mas muitos outros”. Isto acontece “de tal forma que em algumas regiões (principalmente fora dos grandes centros) são dos maiores empregadores logo a seguir às próprias autarquias, daí que muitas vezes acarinhadas pelo poder local”, conclui o médico e diretor Carlos Santos Costa.

UM CAMPO FÉRTIL PARA OS PRIVADOS

Por tudo isto, como atrás se explana, não é de admirar que Lousada seja a curto ou médio prazo localização para uma nova unidade hospitalar do setor privado. No setor da saúde lousadense falou-se, ainda este ano, da vinda para Lousada do Trofa Saúde, que é o maior operador hospitalar privado no Norte do país. Mas, sem confirmação por parte da administração daquele grupo empresarial, este até já poderá ter recuado na intenção inicial. Certo é que o hospital Trofa Saúde vai avançar em Penafiel.

A Associação Portuguesa de Hospitalização Privada informou que aquela unidade está prevista para Guilhufe e contará com uma área bruta de construção de 12.000m2, num investimento estimado de 50 milhões de euros, com data prevista de conclusão para maio de 2025. O investimento criará mais de 400 postos de trabalho, 120 postos de trabalho diretos e 300 indiretos.

A mesma entidade informou-nos que o grupo Lusíadas, também um dos mais fortes na área privada da saúde em Portugal, está a ponderar instalar-se em Lousada.

Para já, o que está confirmado é a venda da clínica Arrifana ao grupo CUF, que para já não tem intenções de abrir hospital nesta vila.

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