por | 15 Mar, 2025 | Sociedade

Da crise de identidade à necessidade de proteger o património e a memória

COMO ESTÁ O COMÉRCIO EM LOUSADA? – O comércio de Lousada sofre crise de identidade

O comércio verdadeiramente tradicional está em acelerado processo de desaparecimento e com ele esfuma-se uma aura quase mítica, da Rua de Santo António. Outrora foi a artéria mais importante da Vila. Era a chamada «rua direita», até à década de 1980. a partir dali acentuou-se o declínio comercial com a disseminação do comércio por outros pontos a área urbana. De forma inopinada e ao sabor do investimento particular, o comércio foi-se instalando aqui e ali, nesta ou naquela praça, numa ou noutra rua. O ordenamento territorial no que ao comércio diz respeito foi um aspeto que colocamos à consideração analítica dos arquitetos locais António Hermano Neto, Flávio Abreu e Ricardo Vieira Vasques.

ANTÓNIO HERMANO NETO

À semelhança do sucedido noutras localidades, próximas e mais afastadas, o comércio de Lousada sofre uma crise de identidade.  A pressão das novas zonas residenciais em blocos plurifamiliares, com utilização dos pisos inferiores com comércio, leva a uma desertificação das ruas mais antigas e abandono das áreas comerciais. Tendo como exemplo outras cidades, os municípios devem requalificar as ruas transformando-as em percursos pedonais, com dinamização de atividades culturais e não só, como forma de cativar a população para essas ruas e assim dar um incentivo ao comércio.

Quando as requalificações são bem-sucedidas, as grandes marcas apoderam-se das áreas comerciais e com isso contribuem para a consolidação do comércio. Lousada também seguiu estes princípios e aproveitou a requalificação urbana para dotar algumas ruas das condições para a sua humanização. Tal foi o caso da avenida Senhor dos Aflitos e da rua de santo António, antigamente «rua direita», era outrora uma rua com grande vida comercial, principalmente no troço entre a rua Afonso Quintela e a rua João de Deus. Tendo em vista a caracterização da rua enquanto rua pedonal, foi condicionada a circulação com a sectorização dos sentidos de transito, sendo considerado um corredor com pavimentação melhorada para piso pedonal; contudo a utilização frequente de automóveis na mesma via tornou a circulação pedonal pouco segura ed egradou rapidamente o piso.

Relativamente à avenida Senhor dos Aflitos, a mesma foi projetada segundo dois conceitos: um com autorização de circulação automóvel lenta e estacionamento limitado; um outro setor proibido ao transito automóvel, formando uma praça para eventos com mobiliário urbano, nomeadamente pérgolas sensoriais, bancos e papeleiras. Infelizmente, o número de espaços comerciais livres é diminuto e os existentes não tiveram o engenho para a rentabilização do espaço; também a realização de eventos sem o respeito do existente e com uso de viaturas pesadas levou a Câmara à retirada do mobiliário, o que acabou por transformar o espaço num deserto desumanizado; claro que o comércio não se desenvolveu, e daí as pressões dos comerciantes para a abertura do espaço ao transito automóvel. O ditado costuma dizer “Deus dá nozes a quem não tem dentes”.

Relativamente à rua Visconde de Alentém, rua com alguma vida comercial, viu o retrocesso em virtude da limitação do estacionamento e (com) isso acabou por retirar da circulação pedonal aqueles que aproveitavam a mesma para o estacionamento. Tempos difíceis são se deparam ao comercio. Contudo, o deitar o pano ao chão será a pior solução. A inovação e o empenho conjunto dos comerciantes e do Município poderão reverter a situação e trazer esperança de sucesso a esta atividade económica; sigam-se soluções como as feiras temáticas, passagens de modelos, a animação de montras e tantas outras que o espírito criativo das pessoas pode trazer.

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