JORGE TEIXEIRA E MARTA NUNES COMBINAM ESCRITA E ILUSTRAÇÃO
A conjugação da literatura com a ilustração é ancestral, mas tem um papel fundamental na modernidade avançada do setor livreiro. Isso proporciona atratividade e riqueza, além de que é um veículo importante para motivar a literacia e a fruição artística do leitor. Essa simbiose está patente na parceria de dois lousadenses destas áreas: Jorge Teixeira e Marta Nunes, ambos da mesma freguesia, Santa Eulália da Ordem. Vão lançar em breve a obra Como caminham os lobos.
O escritor e crítico literário Jorge Teixeira refere que “a literatura surge tardiamente na minha vida. Só no secundário, os livros me tocaram, curiosamente, foram os livros que faziam parte do currículo. Nesta fase, houve uma influência importante: o meu professor de português, Pe. Alexandre Santos”. E revela que depois de deixar o seminário, “a Literatura surgiu como primeira hipótese de formação universitária”.
As influências que se seguiram àquele docente foram várias: “destacaria dois professores: Francisco Topa (FLUP) e D. António Couto (UCP)” sobretudo porque “ambos tocavam a palavra como quem cuida de um tesouro e de forma humanista”.
Contudo, a atenção de Jorge Teixeira quanto Às bases de influência remontam muito atrás: “realçaria particularmente, em jeito de gratidão profunda, a dona Anita, minha professora na Escola Primária, na Ordem”.
Embora dentro da literatura Jorge Teixeira desenvolva uma panóplia de atividades, a produção própria ganha destaque. O seu primeiro livro de poesia remonta a 2019 e foi lançado pela Cosmorama Edições, com o título Abandono.
É caso para perguntar se a poesia é o seu estilo literário preferido, ao que Jorge Teixeira responde: “como leitor, é o meu género preferido e o mais representado na minha biblioteca, embora também goste de romance e ensaio. Como aprendiz de poeta, não me vejo a tentar escrever senão poesia. Como afirmou Christian Bobin, «Habitar poeticamente o mundo é habitá-lo em primeiro lugar contemplativamente». A poesia é que me permite tentar percorrer este caminho”.
É um estudioso de Teixeira de Pascoaes e António Nobre, dois vultos da literatura nortenha. “São dois poetas com obras notáveis! Felizmente, pude parte da equipa de revisores das obras dos dois. Enquanto comunidade talvez devêssemos perguntar-nos o que temos feito para preservar e divulgar os nossos grandes escritores. A nossa ânsia pelo novo, marcada pelo mercado, promove um esquecimento de obras como as de Nobre e Pascoaes que não têm tempo nem idade”, expõe o nosso entrevistado.
Na editora Officium Lectionis, “temos a coleção «Memorial», na qual procuramos «devolver» aos leitores obras de grandes autores portugueses, alguns deles completamente esquecidos.
Dos autores contemporâneos, destacaria nomes fundamentais para mim: Carlos Poças Falcão, Daniel Faria, José Rui Teixeira, José Tolentino de Mendonça, Sophia de Mello Breyner, Rui Nunes. Autores com obras muito diferentes, mas todos capazes de provocar em mim espanto e comoção”, acrescenta.
Quanto aos autores estrangeiros este lousadense afirma que “escolher os autores que mais amo é como escolher entre os bons amigos: impossível. Tantas vezes encontro, nas palavras dos poetas ou nas dos amigos, lugares de salvação”. Ainda assim, refere que entre as suas preferências estão destaca Adélia Prado, Alejandra Pizarnik, Amalia Bautista, Cecília Meireles, Christian Bobin, Eduardo Galeano, Joan Margarit, entre outros.

A ILUSTRADORA MARTA NUNES
A obra Como caminham os lobos é acompanhada de ilustrações de Marta Nunes, também lousadense. A autora diz que “este livro fez um longo caminho de vários anos, surgiu num tempo de recolher obrigatório, mas precisou de muitas horas de liberdade para uma reconstrução. Eu e o Jorge conhecemos-nos há bem mais tempo e temos partilhado o fascínio das palavras, da prosa e poesia, dos livros e autores em conversas longas onde cabe uma amizade. Eu gosto das palavras para construir imagens e o Jorge constrói mundos inteiros com elas, neste livro congeminamos os lugares por onde caminham os lobos. Assim, criamos neste livro uma das nossas longas conversas, em que os poemas constroem ilustrações e as ilustrações iluminam os poemas, cada um é o prolongamento do outro”.
Revelando que usa a poesia e literatura como fonte de inspiração, Marta Nunes salienta que “para muitos dos meus trabalhos, as palavras têm essa capacidade de nos fazer vislumbrar novas pessoas, novos mundos e por isso é uma fonte inesgotável de criação. A poesia é sem dúvida um dos estilos de eleição pois tem a capacidade de uma multidimensionalidade onde cabemos nós, as emoções, texturas, cores e até cheiros. A poesia permite trabalhar a subtileza nos traços e para mim também me permite explorar o poder de síntese no desenho, numa ilustração”.
Voltando a Jorge Teixeira, perguntamos se a literatura é cada vez mais de nichos e menos de massas. Assegura que “os portugueses têm comprado mais livros”. Ainda assim, “ler um livro não significa que a escolha recaia em livros de âmbito literário. Se não exigir tempo de contemplação e silêncio, não será arte. Não havendo livrarias, os livros disponíveis para a maioria dos portugueses estão, fisicamente, nos hipermercados e muitos não são literatura; por isso o acesso à mesma fica condicionado. Aumenta, desta forma, o papel dos municípios, das bibliotecas municipais e escolares para promover a literatura (não o entretenimento, esse já tem muito espaço e oferta variada). Todos sabemos os custos para as nossas comunidades, se tivermos cidadãos alheados, sem espírito crítico ou empático.
Quanto à poesia em particular, esta é um nicho maior, um ato de resistência. Somos um país de poetas que não lê poesia.
A finalizar, os autores fazem questão de deixar o convite para a apresentação do livro, dia 10 de maio, na Biblioteca Municipal de Lousada. Ficará patente a partir desse dia a exposição das ilustrações de Marta Nunes.














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