por | 23 Mar, 2025 | Grandes Louzadenses

Era criança quando sonhou que queria ser padre

PADRE JOSÉ RIBEIRO DA MOTA

Alguns problemas de saúde têm vindo a apoquentar o padre José Ribeiro da Mota, de 79 anos de idade e responsável pelas paróquias de Nevogilde, Casais, Ordem e Figueiras. A gradual perda de visão é um problema que o deixa apreensivo e o limita de forma considerável no exercício das suas responsabilidades de pároco. Ainda assim, não perde a jovialidade e o bom humor que o caracterizam. Acedeu a dar esta entrevista, mas colocou de parte um assunto: o Futebol Clube do Porto. Quem o conhece sabe do seu entusiasmo portista, mas “para não ferir suscetibilidades”, não se quer pronunciar sobre o tema num local público.

Nasceu a 7 de setembro de 1946, em Nevogilde, concelho de Lousada, mas muito cedo foi viver para Novelas (Penafiel), onde a família se instalou.

A sua vocação sacerdotal “surgiu em sonhos, era ainda uma criança com 9 anos de idade, e nunca mais pensei em ser outra coisa”, recorda José Ribeiro da Mota. Naquela ocasião, decidiu falar, em confissão, ao pároco da freguesia de Novelas, o saudoso Padre

António Ferreira Baptista. No seguimento dessa revelação, o padre pediu-lhe que dissesse ao seu pai para ir à igreja falar com ele. No dia seguinte o pai ficou a saber da vontade do filho. “Após conversa com o senhor padre, o meu pai chegou a casa e exclamou: «Ó Zé, tu queres ser padre?!», mas foi uma exclamação de boa surpresa”, assinala o clérigo de Nevogilde e redondezas. Tal desejo foi prontamente incentivado pelo referido pároco de Novelas, que desde logo orientou o jovem para a sua vocação. A família também anuiu à pretensão do jovem.

“Todos os locais por onde estudei foram muito importantes, mas tenho que sublinhar o papel do seminário de Vilar e do seminário da Sé, do Porto”, lembra o reverendo, que se mostra “muito grato pela dedicação e apoio do padre Baptista”, que foi a sua primeira referência para o sacerdócio e do qual recorda a “elevada inteligência e cultura, assim como a belíssima competência para tocar órgão musical”.
Ainda sobre as bases da sua formação, não esquece “o ano de estreia no colégio de Ermesinde, onde tudo começou verdadeiramente, seguindo-se depois o 2.º e 3.º ano no Colégio de Gaia”.
Após o percurso formativo, José Ribeiro da Mota foi ordenado sacerdote a 8 de Julho de 1973 e ainda estão frescas na memória dos paroquianos, e das forças vivas locais, as bonitas cerimónias de celebração, em 2023, dos seus 50 anos de sacerdócio.
Fez o estágio na paróquia de Rio Tinto, em 1973, mas por pouco tempo. “Fui colocado na minha primeira paróquia, em Castelo de Paiva, na igreja de São João Baptista, na freguesia da Raiva”, esclarece. Ali viveu e exerceu atividade clerical durante 27 anos.

UMA TRAGÉDIA IRREPARÁVEL

“Em 2001, quando eu já tinha pedido ao Bispo da Diocese a minha transferência para a Vigararia de Lousada, deu-se uma tragédia, que muito me marcou”, conta o pároco, referindo-se à queda da Ponte Hintze Ribeiro, que foi um desastre ocorrido na noite de 4 de março de 2001, com o colapso da travessia que fazia a ligação sobre o Rio Douro entre as localidades de Castelo de Paiva e Entre-os-Rios, que resultou na morte de 59 pessoas. “Uma grande parte das vítimas era da paróquia da Raiva e eu deparei-me com um abalo social e espiritual tão grande que tive de adiar a minha vinda embora. Fiquei para ajudar aquela população a lidar com tamanha perda”, declara. “Foi terrível, de tal forma que vinte e quatro anos depois, ainda há feridas que estão por curar”, acrescenta.
Na época em que ocorreu aquela tragédia, o padre Mota destacou-se pelo apoio espiritual que proporcionou à população daquela freguesia paivense. Ficou famosa a sua entrevista à jornalista Fátima Campos Ferreira, em direto na RTP1, no programa Telejornal, de17 de Março de 2001.

Quando sentiu que podia partir para o novo destino, na sua terra natal, José Ribeiro da Mota abalou para Lousada. Aqui veio paroquiar Casais (São Paio), Figueiras (Divino Salvador), Nevogilde (São Veríssimo) e Ordem (Santa Eulália). “Estou muito contente com as minhas paróquias, onde cada uma à sua maneira dá-me a alegria de ver a atividade paroquial decorrer pelo melhor”, afirma.

Elogia as obras, sempre necessárias “para cuidar das igrejas e das capelas, que são a casa de todos, uma casa sempre habitada, mesmo quando lá não está gente, é preciso cuidar e nesse aspeto estou muito satisfeito com os cuidados que cada igreja têm beneficiado”. Destaca o “excelente arranjo que foi feito na zona da capela do Calvário, em Casais, assim como na envolvente da igreja da Ordem, onde tenho gosto em dizer quando lá vou que está tudo em ordem”, afirma com o seu característico humor. Também salienta o “vistoso átrio da igreja paroquial de Figueiras”, freguesia onde se congratula por se estar a desenvencilhar o processo de alargamento do cemitério, após vários impasses.

IGREJA É MÃE E CONSELHEIRA
Devido ao seu papel de líder espiritual local, o padre de qualquer paróquia é também um agente social. Nessa função, apercebe-se dos fenómenos sociais que ocorrem na freguesia. Neste campo, o padre Mota refere que a violência, nomeadamente doméstica, acontece. “É triste ver casos em que o casal anda de mão dada em público, mas em privado vive uma vida terrível. Alguns casos acabam em divórcio. A mulher hoje em dia já não se resigna para sempre da mesma forma que acontecia há alguns anos. Há casos em que não há nada a fazer, são aqueles casos de marido e mulher que se separam e assim se livram um do outro. Mas, de um modo geral, eu tento sempre apaziguar e chamar à razão, tento conciliar. Este é o dever da Igreja, pois ela é Mãe, e como tal é conselheira”, explica o padre.
Outro fenómeno que lamenta é “o afastamento de famílias em relação à igreja; em muitos casos gostam da cerimónia do batismo dos filhos, fazem festa, mas depois disso não dão continuidade regular e isso desincentiva as crianças”.
Não obstante, o pároco está confiante num bom futuro para as suas paróquias. “Temos pessoas muito comprometidas e dedicadas, gente de todos os setores sociais; devo salientar, por exemplo, a alegria da musicalidade dos grupos corais e dos instrumentistas, que complementam as liturgias e que são espelho da alegria que deve reinar na casa de Deus”, concluiu José Ribeiro da Mota.

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