por | 6 Abr, 2025 | Grandes Louzadenses

Foi hoquista e dá nas vistas como oculista

ANTÓNIO MARIA BESSA FERREIRA, 86 ANOS

De estatura baixa, mas de moral elevada e espírito jovial, este lousadense é uma figura bem conhecida da praça local. Nasceu em Figueiras, há 86 anos, e instalou-se na vila de Lousada com 12 anos, para trabalhar na Ourivesaria Neto. Esteve mais de 25 anos nos Bombeiros Voluntários e alguns no Hóquei em Campo, modalidade que ajudou a fundar. Curiosamente, não participou no primeiro jogo oficial daquela equipa, de cuja data António Maria recorda-se bem, pois foi no dia do seu casamento, a 24 de Setembro de 1967.

O oculista mais antigo de Lousada ainda trabalha como se um jovem fosse. Tem 86 anos de idade, mas não parece. Ser ourives nas feiras “era uma atividade que eu gostava de desempenhar, assim como ser ourives na oficina”, refere António Maria de Bessa Ferreira, que entrou para a Ourivesaria Neto como aprendiz, em 1950, com apenas 12 anos.

É do tempo em que esta localidade era um império de ourives, com duas grandes firmas (Lousada e Neto) a dominar o comércio do ouro na região. Sobre a rivalidade entre ambos, António Maria diz que “era normal, mas os dois patrões não se falavam e houve um ou outro episódio nas feiras onde as desavenças entre eles podiam ter dado para o torto, mas eles eram dois senhores”, referindo-se a António Manuel Neto e António Pereira Lousada.

“Vivi muitas experiência inesquecíveis, uma das quais foi a atuação de surpresa que a Banda Musical de Lousada fez no centenário da Ourivesaria Neto, a 1 de Janeiro de 1964”, recorda.

Memórias negativas também as tem, sobretudo de furtos, ou melhor dizendo, de tentativas, pois António Maria era sagaz e impetuoso, não era pessoa para se deixar ludibriar facilmente. “Numa feira em Vila Meã, estava eu a mostrar alianças a uma mulher quando dei pela falta de uma. Só podia ter sido ela. Chamei a GNR e quando se arranjava ali uma feirante que se dispusesse a revistar a mulher, eu apercebi-me da aliança debaixo da língua da larápia. Disse logo aos guardas, abram-lhe a boca depressa, antes que ela a engula. Abriram-lhe a boca e lá estava a aliança”, conta o antigo ourives.

Em 1973, “o meu patrão decidiu alargar o negócio ao ramo óptico. Não havia nenhuma loja de óculos e aquela seria a primeira. Ele escolheu-me para técnico desse serviço e fui fazer uma formação ao Porto, todos os dias, durante dois anos”. Confessa-nos que “no início eu não gostei muito da ideia; aquilo era uma novidade para mim e eu estava já bem adaptado no ramo da ourivesaria. Mas o patrão insistiu e eu respeitei. Em boa hora o fiz, pois acabei por gostar muito daquilo”. E aos 86 anos de idade, António Maria continua, a trabalhar na Óptica Neto, conforme nome original, sem o famigerado e sempre polémico (des)acordo ortográfico.

O negócio oculista foi instalado na ourivesaria, onde permaneceu durante 20 anos, até que se mudou para onde está atualmente, na esquina da Praça da República com a Praça do Bispo D. António Meireles. “Durante muito tempo não tivemos concorrência e hoje em dia é demais a quantidade de lojas de óculos em Lousada; eu pergunto a mim mesmo como podem existir 12 ou 13 ópticas numa área de cerca de um quilómetro quadrado”, diz em tom de espanto.

BOMBEIRO DO QUADRO DE HONRA

A escassos metros da ourivesaria estava (e continua) o quartel dos Bombeiros de Lousada e assim que fez 18 anos, António Maria alistou-se na corporação, onde já estava o seu amigo e colega de profissão, Ramiro Gomes.

“Sempre gostei dos bombeiros e ainda hoje me arrepio ao ouvir a sirene, sem que eu possa responder ao socorro”, declara. Noutros tempos, muitas vezes largou o trabalho para acorrer ao quartel em resposta ao chamamento da sirene. “O meu impulso para ir era muito forte, até que a certa altura o patrão virou-se para mim e disse que eu tinha de escolher entre ser ourives ou ser bombeiro, e passei a ser bombeiro apenas de noite”, afirma António Maria Ferreira.

Das inúmeras saídas destaca alguns casos que lhe ficaram gravados: “o primeiro grande incêndio que enfrentei com outros bombeiros, comandado pelo saudoso chefe Alberto Alves, aconteceu num colégio de raparigas, em Louredo, no concelho de Paredes onde foram bombeiros de várias corporações”. Igualmente de má memória “foi o socorro a um despiste em Soutelo, onde um motociclista vindo de uma romaria, embateu violentamente contra um muro e não foi muito agradável a apanha dos restos mortais que estavam espalhados numa vasta área…”, exclama o nosso entrevistado. Foi bombeiro do Corpo Ativo durante 25 anos e atualmente pertence ao Quadro de Honra da corporação.

CO-FUNDADOR DO HÓQUEI EM CAMPO

Corriam os últimos anos da década de 1960 quando ouviu falar pela primeira vez de hóquei em campo. “Por iniciativa do Jaime Ferreira, que era da propaganda médica, e portanto muito viajado, soubemos que ele percebia dessa modalidade e tratamos de juntar uns quantos lousadenses para formar uma equipa”, recorda António Maria, que fez parte dessa fundação, onde também estava Joaquim Valinhas, os irmãos Joaquim e Zé Manel Martins, entre outros.

“Foi uma alegria ser hoquista e conviver neste desporto. Nos primeiros tempos não sabíamos muito daquilo, mas fomos aprendendo”, recorda. Inesquecíveis eram as idas a Lamas, ao Sport e ao Viso, onde os adeptos eram muito aguerridos e até “um pouco ameaçadores”. Contudo, “as coisas ficavam-se por uma ou outra discussão mais acesa”.

Do primeiro jogo oficial recorda apenas que não participou, pois coincidiu com o seu casamento. A propósito desse importante evento da vida de António Maria de Bessa Ferreira, retiramos do Jornal de Lousada de 30 de Setembro de 1967 a respetiva notícia, com a qual terminamos a publicação desta entrevista a tão estimado lousadense:

«No Templo do Senhor dos Aflitos, realizou-se no passado domingo, dia 24, o enlace matrimonial da menina Maria do Céu da Cunha Alves,  filha da sra. D. Francisca de Magalhães de Sousa e do Sr. Eduardo Alves, residentes nesta vila, com o Sr. António Maria de Bessa Ferreira, empregado da Ourivesaria Neto.  O acto foi celebrado pelo Rev.º P. António de Sousa que, no momento próprio, se dirigiu aos noivos sobre a importância do acto que estavam a realizar, tendo apadrinhado, por parte da noiva, o sn. Joaquim  Graça Gonçalves Solha, Técnico de Contas do Grémio da Lavoura de Lousada e Esposa. snra. D. Maria Antónia Teixeira Gonçalves Solha e, por parte do noivo, seus patrões, snr. António Manuel da Silva Neto e Esposa, sra D. Rosa Magalhães Neto.  No final da cerimónia religiosa, cerca de uma centena de convivas reuniu-se em casa dos pais da noiva a lauto banquete que decorreu animado.  Aos brindes, usou da palavra para enaltecer as qualidades dos nubentes e desejar-lhe felicidades, o Revº P. António de Sousa».

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