por | 20 Abr, 2025 | Espaço Cidadania, Sociedade

A “Sãozinha dos Vicentinos” ajuda a ajudar

Maria da Conceição Cunha Ribeiro Morais, de 71 anos

Nasceu há 71 anos em Meinedo, mas já se sente tanto de Cristelos como da sua terra natal. Casou há 49 anos com um cristelense e mudou-se para cá. Já trazia consigo o gosto pela atividade paroquial e a partir disso desenvolveu uma especial vocação para a solidariedade. Ajudou a fundar a Conferência de São Vicente de Paulo e o Movimento Sénior naquela freguesia, onde também já foi catequista, cantora do grupo coral, etc. Diz que os tempos continuam a ser de muita procura de ajuda, não apenas por imigrantes mas também gente de cá, os problemas maiores estão na área da habitação.

Certa noite, regressando de um ensaio do grupo coral de Cristelos, e dirigindo-se para sua casa onde ainda tinha serviço de escritório para fazer sobre os Vicentinos, a Sãozinha tinha à sua espera, uma mulher com um saco e uma mão estendida a pedir ajuda. Era uma vítima de violência doméstica. “Já me apareceram vários casos como este”, revela a solidária cristelense. Naquela situação, tratava-se de uma mulher que tinha fugido de casa e procurou refúgio na Sãozinha. “Deixe-me ficar esta noite aqui debaixo da sua varanda, não peço mais”, disse a vítima, que naquela ocasião acabou por dormir numa carrinha de Maria da Conceição. Algum tempo depois acabou por se divorciar e refazer a vida.

As assistentes sociais, sobretudo de Lousada e de Penafiel, têm o número de Maria da Conceição e ligam quando há casos para resolver, seja para abrigo temporário ou uma cama articulada, um colchão ou uma cadeira de rodas.

A casa de Maria da Conceição é um entreposto de solidariedade para as horas difíceis. A solução que já deu a tantos casos passou de boca em boca e hoje em dia não há técnico social nas redondezas ou instituição de solidariedade social que não recorra a ela, seja em nome individual seja através das valências e serviços a que pertence, sobretudo na paróquia de Cristelos.

 “Algumas pessoas acabam por ganhar a minha compaixão e ficam cá a viver”, afirma a cidadã nascida em Espindo (Meinedo), filha de Luís Ribeiro, que era conhecido por Barqueiro, devido à origem geográfica dos avós de Sãozinha, que eram da freguesia de Barqueiros, do concelho de Mesão Frio.

“O meu pai também era muito solidário e herdei isso dele, acho eu. Ele organizava cortejos e peditórios para isto e para aquilo, para o Santo Tirso e para o Salão Paroquial de Meinedo”, recorda.
Através dos Vicentinos, que ajudou a fundar há 26 anos, em Cristelos, apercebe-se da realidade social do concelho e “isto está difícil por causa do desemprego e de falta de habitação. Por isso, nós procuramos angariar fundos nas mais diversas oportunidades que temos, como foi o caso das Janeiras”, declara.

Mobílias, vestuário e bens alimentares são os mais procurados. A criação do Banco Alimentar foi outra valência “muito útil e pertinente que desenvolvemos e com isso vamos respondendo às solicitações mais necessitadas”.

Sãozinha, no centro desta fotografia – o canto é uma das suas paixões.

“GOSTO DE POLÍTICA, MAS NÃO É PARA MIM”

Já faz muito pelos outros, mas ainda assim “gostava de fazer muito mais, em especial se os meus joelhos ajudassem; já tenho uma prótese em cada um, uma delas metida recentemente e que me impediu de realizar o desejo de entrar na bonita peça de teatro comunitário «Saudades, Saudades», para onde fui convidada pelo grupo Vidas em Cena”, lamenta a Sãozinha.
Os seus filhos também lhe seguem as pisadas nestas lides de solidariedade, seja através do voluntariado, como do serviço com idosos. “Ajudar é uma necessidade que tenho para que o mundo seja melhor e é um gosto, uma alegria, ver pessoas a melhorar as suas vidas com isto ou com aquilo que se pode proporcionar”, declara a Sãozinha.

Numa altura em que a política autárquica local está muito falada atualmente, perguntamos se Maria da Conceição alguma vez pensou participar nessa área. “Olhe, eu tenho as minhas ideias políticas, voto sempre que há eleições, e sou muito interessada nesses assuntos, mas daí até aceitar qualquer convite ou sequer imaginar entrar para listas ou para cargos, nem pensar. Isso não é coisa que não me cativa”.
Prefere continuar a dar de si nas causas que lhe aparecem, seja no voluntariado no Hospital ou na atividade paroquial. Os enfermos e os desvelados da vida em geral são a sua motivação, aquilo que acalenta a sua atividade diária de «formiguinha social», que faz tanto ou mais que muitas entidades do setor.

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