por | 25 Mai, 2025 | Grande Entrevista

“Tal como fazia Jaime Moura, todos recebem-nos muito bem!”

Kenneth Hansen, encantado por Lousada desde 1991

A estrela maior do Rallycross europeu é sem dúvida Svend Kenneth Hansen, de 64 anos. Este antigo piloto sueco tem um recorde de 14 títulos e uma longevidade de 48 anos neste desporto automóvel. Confessa que é um apaixonado por Lousada. Já não vinha cá desde 2017 e mostrou-se encantado com o regresso, nesta segunda-feira, para testes no circuito Internacional de Lousada. Agora já não é piloto, mas dirige a equipa dos seus dois filhos, Timmy e Kevin, que são duas das muitas atrações do Mundial e Europeu de Rallycross que se corre em Lousada de 30 de Maio a 1 de Junho.

Este piloto sueco está na elite do desporto automóvel desde final da década de 1970, o que é um feito extraordinário e sem qualquer paralelo no Rallycross. É uma figura famosa e isso nota-se nos bastidores, onde o público, os pilotos, mecânicos, técnicos, dirigentes lhe prestam reverência e admiração. Apesar do estrelato, não deixa de ser a mesma pessoa que conhecemos há mais de 30 anos, quando rumou a Lousada para o primeiro Rallycross oficial, em 1991. Embora genuinamente nórdico, exibe na face e nos modos uma cordialidade e ânimo. Isso contrasta com o que é sabido dos povos do norte da Europa não serem espontaneamente expressivos ou efusivos.

Na altura, chegou com um Ford RS500, de cor verde. Inesquecível. “Não me esqueço nunca da forma como nesse ano e nos anos seguintes, fui tão bem recebido”, recorda Kenneth Hansen.

Nesta entrevista ao Louzadense, surgiu depressa o nome de Jaime Moura. “Era um senhor, uma pessoa que, mesmo não falando muito bem inglês, conquistou todos os pilotos com a sua maneira de ser; era incrível a preocupação dele em satisfazer todos os pedidos e todas as reclamações das equipas”, recorda o piloto sueco, que sublinha nos lousadenses “a hospitalidade e a vontade de receber bem os visitantes”

Daquele tempo lembra a rivalidade que havia entre os pilotos suecos e noruegueses, “na verdade, isso existia, mas era muito empolado pela imprensa de ambos os países”, revela. Entre os seus rivais, destaca vários pilotos suecos, mas também os noruegueses Ludvig Hunsbedt, Bjorn Skogstad e, claro, Martin Schanche. Sobre este competidor, Hansen diz que “sempre o vi como um indivíduo muito simpático, mas também teimoso; quando achava que tinha razão, não ouvia a opinião dos outros”.
Também a esposa de Hansen, Susann, destacou-se neste desporto e inclusive triunfou em Lousada e foi campeã europeia em 1994. Agora, é a vez dos filhos, Timmy e Kevin, que estão na elite mundial do Rallycross.

Kenneth Hansen e Jaime Moura em 2006.

Começou numa pequena oficina

Os pais de Kenneth eram dinamarqueses, mas cedo emigraram para a Suécia, onde Kenneth nasceu, na localidade de Götene. Nesta cidade da região de Gotemburgo, no sul da Suécia, Kenneth cresceu e tal como a maioria dos jovens da sua localidade, enveredou pela hotelaria.

“Mas desde muito cedo percebi que eram os automóveis e a mecânica que me atraíam”, declara. Arranjou emprego numa pequena oficina local, aos 16 anos. No ano de 1976 entrou pela primeira vez “no campeonato regional de karting, com um veículo praticamente artesanal, feito por mim e por dois amigos”. O resultado inicial não foi satisfatório. “O kart gripava muito e no primeiro ano não consegui completar qualquer prova”, lamenta. Mas considera que essa estreia o motivou ainda mais e deu-lhe uma lição para a vida: “quando queres muito chegar a algum objetivo, nunca deves desistir, mesmo quando isso parece cada vez mais distante”.
Os êxitos demoraram, mas depois de chegar, repetiram-se muitas vezes, sobretudo no Rallycross. Além dos inúmeros triunfos nacionais no início da década de 1980, Hansen ganhou o título do Campeonato Europeu, ainda no tempo da ERA (European Rallycross Association) e depois na fase da FIA, que se mantém até hoje, conquistando um total de 14 títulos de campeão.

A marca Peugeot “é a que me dá melhores condições e garantias”. Em termos de marcas, destaca o seu primeiro carro neste desporto, “era um Volvo Amazon, em 1986, quando ganhei pela primeira vez o campeonato do meu país”. Seguiu-se com o mesmo êxito um Volvo 240, “mas a grande mudança aconteceu com a aquisição do Ford RS500, em 1989, com o qual ganhei quatro títulos seguidos, na Divisão 1 europeia”.  A partir de 1993, Hansen pilotou carros Citroën, que confirmaram o seu estatuto de campeão. No final da temporada de 2010, encerrou a carreira de piloto para se dedicar à função de team manager da Hansen Motorsport, com a esposa Susann e os filhos Timmy e Kevin. A aposta desta equipa é nos carros elétricos, que é uma solução não só ambiental mas também de evolução técnica. Hansen acredita que “o elétrico é o futuro” e não receia a competição com carros mais potentes de combustão tradicional.

Kenneth Hansen com a espoa e filhos.

O desporto como modo de vida

“A dedicação, a concentração e o profissionalismo, são condições básicas para qualquer atividade e neste desporto isso é igual”, afirma Hansen. “Fazer uma carreira desde muito pequeno, como foi o caso dos nossos filhos, no Kartcross e no Rallycross, é uma excelente ocupação, que ajuda a pessoa a lutar, a crescer, a aprender lições para a vida”, declara o campeoníssimo sueco. “É um modo de vida muito saudável e muito interessante”, exclama.

Desde a pequena oficina até à atualidade, Hansen desenvolveu um império baseado não apenas no “serviço de mecânica altamente sofisticada, como também na  indústria e comércio de veículos”. “Tu podes ter muito gosto, muito dinheiro, mas precisas sempre de apoio, de patrocínios, de equipa, de amigos. Conseguir patrocínios pode ser muito exigente, mas também é fácil se tens tudo isso. Eu diria que o mais importante é ter uma carreira bem estruturada, bom treino, boa equipa”, revela o nosso entrevistado quando lhe perguntamos quais eram os segredos para uma carreira de sucesso.

Sobre o Mundial de Rallycross e os contratempos que aconteceram “causaram muita incerteza, as equipas não sabiam o que fazer, pois não sabíamos se ia haver campeonato, por causa da falta de um promotor”.

A liderança assumida pela FIA na organização do campeonato deste ano “é uma solução que me parece muito boa, estão a planear muitas alterações que me agradam, uma das quais é a comunicação com o público e as transmissões livres de audiovisuais”. Na sua opinião “o WRX não estava muito bem, não estava a desenvolver-se e a expandir porque o promotor queria ganhar dinheiro muito depressa e não pode ser assim, tem que haver investimento, estratégia a longo prazo, para cativar o público.” Este  entendimento de Kenneth Hansen vale também para a “a necessidade de atrair mais equipas de campeonatos europeus, que estão em crescimento”.
Por último, sobre o circuito da Costilha “está muito mais moderno, fizeram um excelente trabalho e estão de parabéns”, disse, referindo-se ao Município e ao CAL.

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