por | 7 Nov, 2025 | Editorial, Editorial

Editorial 156 | Evasão e Resiliência

Numa edição tão recheada de cultura e literatura, é impossível não trazer também uma expressão sobre os livros de um dos grandes: “é muito fácil não ser ofendido por um livro. Só tem que fechá-lo”. A natureza da leitura, por vezes, pode ser mesmo desconfortável. Um livro pode inquietar-nos, incomodar-nos, pode até tornar-se inconveniente. Por vezes alguns podem não estar à altura do que leem e, como tal, a atitude mais simples é evadir-se, fechando-o, desaceitando-o, simplesmente, encravá-lo numa prateleira, cheia de tantos outros livros, melhores ou piores.

A atitude com os livros é também replicada nas relações interpessoais que mantemos. Aqueles que nos agitam, aqueles que nos querem sacudir, que nos fazem chocalhar, muitas vezes são evitados, esquivando-nos de ter de interagir com eles. Por vezes, tal como os livros, apenas não estamos propensos a confrontar os nossos ideais e as nossas perceções, mesmo que com esse embate, nos pudéssemos tornar melhor e mais capazes. 

Das relações, com os livros ou com as pessoas, advirá um confronto com o modo como vemos a realidade. Os livros e as pessoas só nos tentam abrir os olhos, mas é mais fácil fechá-los perante o risco, do que esforçar-nos para os manter abertos. Fugir dos livros e das pessoas que nos inquietam é sempre o caminho mais fácil, mesmo que nesta dicotomia percamos a oportunidade de expandir o nosso conhecimento e pensamento, de conhecer novas opiniões desafiadoras e perspetivas diferentes que nos tentam puxar para a verídica realidade.

Apartar o incómodo é certamente uma resposta da nossa mera condição humana. Humanizarmo-nos implica ser resistentes, implica manter por perto, ler e ouvir, os livros e as pessoas, arautos da boa moralidade e perturbadores do nosso espírito.

Assim, a resiliência surge como o antídoto à evasão. Não a resiliência dos que fazem arredar, porque esses, em princípio apresentam apenas uma resiliência conformista, mas sim dos que são arredados. Os livros e as pessoas distanciadas, continuam lá: presentes nas prateleiras ou do outro lado da rua. A acenar, a chamar, a convocar para um caminho desafiante, certamente menos fortuito, cheio de intenção e razão.

Os resilientes, sejam livros ou pessoas, mantêm a sua postura: firme e de esplendoroso carácter, por muito que o pó neles se acumule ou a chuva caia no seu lado do passeio. Mais livros e pessoas inconvenientes, tal como Salman Rushdie e os seus livros, fazem falta à humanidade.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

​Inferno das Febras revela distribuição das bandas e coloca à venda bilhetes diários

A ​organização do Inferno das Febras divulgou a distribuição das bandas pelos dois dias do...

PSD exige maior transparência na contratação pública municipal

NOTA DE IMPRENSA DO PSD/Lousada O PSD Lousada questionou no passado dia 6, o Executivo Municipal...

Paulo Alberto reforça liderança do Nacional de Supercross em Lustosa

O Complexo Desportivo Voltas e Rodas, em Lustosa, concelho de Lousada, recebeu mais uma jornada do...

Concerto da Banda de Música de Lousada na abertura da Festa Grande de 2026

Crónica de J. C. Carvalheiras Acerca do concerto da Banda de Música de Lousada (BML), começo pelo...

Lustosa: Quando o Futuro Começa por Acreditar nas Pessoas

Há terras que carregam o tempo como um peso. E há terras que o transformam em esperança. Lustosa...

Fake ou Facto? Aprender a verificar informação

Vivemos numa era em que distinguir factos de ficção se torna cada vez mais difícil. Todos os dias...

SUPERCROSS NA NOITE DE SÁBADO EM LUSTOSA

As grandes emoções do Supercross vão concentrar-se em Lustosa (Lousada) no próximo 18 de julho de...

O DIA EM QUE DEIXÁMOS DE EDUCAR CRIANÇAS E COMEÇAMOS A EDUCAR MÁSCARAS.

"Há adultos que, em crianças, nunca foram insultados. Nunca foram espancados. Nunca passaram fome....

PSD Lousada desafia Câmara Municipal a aproveitar financiamento europeu para criar mais habitação social

O PSD Lousada considera que o novo financiamento europeu para habitação social representa uma...

“O verdadeiro problema não é jurídico. É a injustiça no tratamento das freguesias”, ripostou o PSD Lousada.

Em comunicado enviado à nossa Redação, o PSD Lousada "regista o esclarecimento prestado pelo...

Siga-nos nas redes sociais