Nesta quinta-feira, 20 de novembro, Lousada assistiu aos 90 anos de uma das suas figuras mais estimadas: Ramiro Gomes, homem cuja vida se confunde, em muitos momentos, com a própria evolução da vila. Quando o O Louzadense o visita para esta conversa especial, percebe-se rapidamente que este aniversário representa muito mais do que uma data redonda. É a celebração de uma vida inteira de trabalho, serviço e ligação profunda à comunidade.
A história profissional de Ramiro remonta à sua infância. “Comecei a trabalhar na Ourivesaria Neto com 11 anos, no dia 19 de Julho de 1947, e ainda hoje continuo”, recorda, com a simplicidade desarmante de quem fala de algo perfeitamente natural. Entrou pela oficina, ainda miúdo, passou depois pelas feiras e, mais tarde, pelo atendimento ao balcão. “Tenho gosto pela relojoaria, mas é a ourivesaria que me diz verdadeiramente ao coração”, acrescenta. Cresceu dentro da casa, acompanhou várias fases da empresa e, depois do 25 de Abril, tornou-se sócio – lugar que mantém até hoje, com uma dedicação que impressiona quem o conhece.
A vida familiar é um capítulo que Ramiro aborda com ternura. Lembra com emoção a sua esposa, Lucinda Dâmaso, já falecida, que considera uma presença essencial em tudo o que construiu. Dos três filhos – Fátima, Luís Jinja e José Rui – fala sempre com orgulho e com a tranquilidade de quem sabe que deixou raízes fortes.
Quando a conversa se vira para a evolução de Lousada, Ramiro não hesita: “O estado actual de desenvolvimento da vila é incomparável e notável, seja qual for a perspectiva.” A mudança, diz, foi quase sempre positiva. Mas há algo que lamenta: a perda de património. “Conservou-se e restaurou-se pouco. Menos de 10% dos edifícios antigos que conheci ainda existem. O resto foi sendo substituído.” Não fala com amargura, mas com a lucidez de quem assistiu, ao longo de décadas, à transformação física do lugar onde nasceu e viveu.
Sobre o conhecido assalto à ourivesaria, preferiu sempre não comentar. Respeitamos o silêncio, tão característico da sua maneira de estar: discreta, reservada, nunca movida pela necessidade de criar protagonismo. Mas, numa segunda ocasião, já esta entrevista tinha sido realizada, Ramiro Gomes aceitou narrar aquele acontecimento ocorrido a 4 de Janeiro de 2004 e que publicamos noutro local desta edição.
Muito mais à vontade, porém, está quando fala da sua ligação associativa. “Fui fundador do Hóquei Campo, pertenci à direcção do futebol da ADL, exerci o cargo de tesoureiro da Junta de Freguesia de Silvares, fui Bombeiro Voluntário de 1957 a 2004 e sou sócio e benemérito de diversas associações.” O que para muitos seria motivo para longas listas de feitos, Ramiro enuncia como quem fala de rotinas que lhe preencheram a vida.

É nos Bombeiros que se nota mais brilho no olhar. “O espírito de camaradagem e amizade existentes”, resume, quando lhe perguntam o que mais o marcou. As histórias multiplicam-se: incêndios, acidentes, situações inesperadas, partos em ambulâncias a caminho do hospital. “Foram muitos os momentos marcantes”, diz. Mas há um que ficou gravado para sempre: o seu primeiro incêndio, na freguesia de Meinedo. Foi ali que percebeu, pela primeira vez, a dimensão da responsabilidade que assumira.
Na Ourivesaria Neto, Ramiro construiu muito mais do que uma carreira. Construiu relações. Quando o O Louzadense lhe pergunta qual o segredo da fidelidade dos clientes ao longo dos anos, responde sem rodeios: “Seriedade e honestidade. Quando se trabalha assim, criam-se amizades e cumplicidades que vão muito além do comércio.” É essa proximidade que explica porque tantos voltam, ano após ano, e porque muitos se transformaram em amigos de longa data.
Ao longo da vida, houve também pessoas que o marcaram e que faz questão de recordar: “Manuel Neto, Eurico da loja, Alexandre Vargas e Jaime Ferreira.” São nomes que carregam histórias, ensinamentos e convivências que ajudaram a moldar o homem que é hoje.
Mais perto do final da conversa, surgem pormenores mais leves, mas que ajudam a completar o retrato. Ramiro é adepto do Futebol Clube do Porto, gosta da cor azul e aprecia um bom jogo de futebol. Pequenos gostos que atravessaram décadas e que continuam presentes, como tudo o que permanece verdadeiro ao longo do tempo.
O que fica depois de noventa anos de vida? Fica o exemplo de alguém que nunca procurou reconhecimento, mas que o conquistou naturalmente. Fica o legado familiar, construído com Lucinda, e o orgulho nos filhos. Fica a memória viva de um homem que participou activamente na comunidade, sempre com sentido de responsabilidade e generosidade. Fica, sobretudo, a gratidão de uma vila que reconhece em Ramiro Gomes uma referência de integridade e dedicação.
Ao celebrar os seus 90 anos, Lousada não festeja apenas o aniversário de um cidadão. Celebra uma vida inteira ao serviço da comunidade. E o O Louzadense regista-o com o respeito e a admiração que a sua história merece.













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