por | 24 Nov, 2025 | Opinião

A crise silenciosa no recrutamento da PSP é o espelho de uma desvalorização prolongada da profissão policial.

Durante décadas, o ingresso nas forças de segurança – em especial na Polícia de Segurança Pública – assentou em pilares sólidos: conhecimento, serviço militar obrigatório, preparação física, sentido de dever e valores éticos. Esse percurso moldava profissionais disciplinados, com espírito de missão e uma forte ligação ao país e às suas comunidades.

Com o fim do serviço militar obrigatório nas ex-colónias, deixou de ser necessário mobilizar os jovens para o cumprimento desse dever cívico. A exigência de o ter realizado desapareceu, bastando apenas estar “apto para o serviço”. Ainda assim, durante muitos anos, a PSP continuou a atrair jovens – homens e mulheres – em número muito superior às vagas disponíveis.

Mas o tempo desgasta até as instituições mais sólidas. Ao longo de sucessivos governos, a estrutura operacional da PSP foi sendo alterada de forma que acabou por fragilizá-la. Encerraram-se esquadras, sobretudo no interior, dificultando maior mobilidade dos profissionais; apostaram nos baixos salários e congelamento de progressão nas carreiras; reduziram-se serviços sociais de apoio, como camaratas ou bares; encareceu-se o acesso à saúde; e criaram-se novos mecanismos de fiscalização interna que, muitas vezes, se sobrepõem ao trabalho operacional sem o melhorar.

A estes fatores somam-se reformas legislativas que reduziram direitos adquiridos – alguns conquistados com esforço após o 25 de Abril – sem que fossem criadas condições de compensação dignas. As estruturas representativas dos profissionais da PSP alertaram repetidamente para esta erosão, mas os governos, independentemente da sua cor política, ouviram pouco e compreenderam menos.

Hoje, colhemos o resultado inevitável: não há candidatos suficientes para ingressar na PSP. E não será com medidas cosméticas, como a redução da altura mínima ou o aumento da idade limite, que o problema se resolve. São soluções paliativas, temporárias, que apenas adiam o inevitável – uma crise profunda de recrutamento e, por consequência, de segurança pública, que se agravará no futuro com o envelhecimento ainda mais acentuado dos profissionais.

Nenhum jovem, no pleno uso da razão, aceitará integrar uma força que representa o Estado se o próprio Estado falha em representar, proteger e valorizar quem o serve. Ser profissional de polícia implica risco, sacrifício, deslocação e impacto familiar e emocional. Não basta entregar uma farda e uma arma – é preciso garantir condições de vida dignas.

Esta situação só não é tão grave na GNR – Guarda Nacional Republicana – porque essa força de segurança continua a assegurar alguns apoios fundamentais aos seus profissionais, como o alojamento e as messes para os jovens que nela ingressam.

Um polícia não pode viver de forma precária. Precisa de um estatuto digno e de respeito por parte da comunidade e do poder político de quem diretamente depende.

Enquanto continuar a ser tratado como um custo, e não como um pilar da sociedade, a farda deixará de ser um símbolo de orgulho – e passará a ser um fardo que poucos estarão dispostos a carregar.

Alberto Torres

Agente Principal Aposentado da PSP

Ex-Presidente da ASPP/PSP – Associação Sindical dos Profissionais da PSP

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