Vinte e um anos depois da ocorrência de um assalto à Ourivesaria Neto, Ramiro Gomes aceitou contar o que se passou. Diz que foi a experiência mais perigosa e traumatizante que viveu nestes 90 anos de vida. Os factos remontam à noite de 4 de janeiro de 2004. “Eu e a minha esposa tínhamos ido a um velório, na capela do Senhor dos Aflitos, e como ficou noite, decidimos ir ao (restaurante) Tico-Tico jantar. À saída de lá, cruzámo-nos com uns sujeitos que não me causaram boa impressão; bem pelo contrário, tinham um aspeto bastante suspeito”, relata o lousadense.
Os meliantes já estavam a perseguir Ramiro Gomes há algum tempo. O casal dirigiu-se em direção a casa, mas a meio do percurso, de uma carrinha saíram dois indivíduos fortes, que agarraram em Ramiro e Lucinda e os meteram no veículo.
“Estávamos assustados, claro. Eles eram de poucas falas e um era mais bruto que os restantes”, recorda. Perceberam logo qual era o objetivo dos raptores, antes mesmo de estes o declararem. “Um deles, que parecia ser o mandante da quadrilha, disse que nada nos aconteceria, que apenas queriam o ouro da ourivesaria. Eu tratei de dizer que não tinha a chave, mas eles disseram que estiveram a vigiar e viram-me fechar a ourivesaria antes da ida à capela.”
Andaram às voltas pela vila, “talvez a fazer tempo para as bombas de gasolina, perto da ourivesaria, fecharem, para assim estarem mais à vontade no assalto”. Seriam cerca de 22 horas quando pararam a carrinha junto ao estabelecimento visado e obrigaram Ramiro a abrir a porta. “Se não fosse eles terem a minha esposa, eu tinha dado mais resistência”, refere o antigo ourives. Ainda assim, não facilitou a vida aos assaltantes: não lhes disse, por exemplo, onde estavam as malas de ouro das feiras, que eram o principal pecúlio da ourivesaria. “Mas ainda levei com uma coronhada na cabeça porque eu estava de propósito a demorar a abrir o cofre”, lembra a vítima.
Quando se acharam satisfeitos com o que arrebataram, os assaltantes voltaram com o casal para a carrinha. “Deixaram-nos junto à rotunda de Silvares, acima da quinta de Vila Meã, e viemos a pé embora. Chegados à vila, perto da meia noite, só a Assembleia estava aberta, e foi de lá que deram o alarme.” Mas os assaltantes e o produto do roubo nunca foram encontrados. “Foi uma experiência assustadora, que o tempo já sanou”, afirma Ramiro Gomes.













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