por | 24 Nov, 2025 | Opinião, Política

A história conta que tudo começou num hemiciclo parisiense. Em 1789, na Assembleia Constituinte da França, os partidários do rei sentaram-se à direita do presidente, enquanto os defensores da revolução se colocaram à esquerda. Robespierre, Mirabeau, Danton – os chamados les enragés – simbolizavam o lado da mudança. À direita, os les monarchistes, guardiões da ordem antiga. Foi daí que nasceram as etiquetas políticas que ainda hoje usamos: “direita” e “esquerda”.

Mais de dois séculos depois, o mundo mudou, mas o vocabulário político ficou preso ao passado. Continuamos a medir o pensamento político com a régua de 1789, como se as ideias pudessem caber em dois bancos de madeira. O rei já não existe, a sociedade é infinitamente mais complexa, e as fronteiras ideológicas dissolveram-se.

Durante o século XX, a dicotomia ainda fazia algum sentido: a esquerda identificava-se com a luta pelos direitos sociais; a direita, com a defesa do mercado e da iniciativa privada. Mas hoje, essa linha é cada vez mais ténue. Quem defende o mérito e a livre iniciativa pode, ao mesmo tempo, lutar pela igualdade de oportunidades. E quem valoriza a solidariedade pode acreditar que o Estado não deve substituir-se às pessoas, mas sim criar as condições para que cada uma possa escolher e prosperar.

O verdadeiro debate do nosso tempo não é entre “direita” e “esquerda”, mas entre liberdade e controlo. Entre quem confia nas pessoas e quem acha que elas precisam de tutela. Entre quem acredita que o progresso nasce da autonomia individual, seja na ciência, na economia ou na arte, e quem insiste em limitar o que é permitido pensar, criar ou empreender.

A liberdade não é um conceito político: é uma atitude. Ser livre é pensar por si próprio, sem medo de ir contra o senso comum. É aceitar que o outro possa viver de forma diferente. É acreditar que as ideias competem num mercado aberto, e que o mérito, a inovação e o esforço devem ser recompensados.

Hoje, o desafio não é escolher um lado do hemiciclo, mas recusar as amarras mentais que nos fazem acreditar que só há dois lados. O mundo precisa de menos dogmas e mais liberdade. Liberdade nas ideias, no pensamento, na economia e na política.

As etiquetas serviram o seu tempo, mas agora são um obstáculo. Continuar a ver o mundo em “direita” e “esquerda” é como tentar navegar com mapas usados por Pedro Álvares Cabral num oceano digital. O futuro pertence aos que pensam livremente – não à direita, nem à esquerda, mas acima.

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