O fenómeno do mau comportamento dos pais nos jogos de futebol juvenil tem vindo a crescer nos últimos anos, preocupando treinadores, árbitros e associações locais. Insultos à equipa adversária, gestos agressivos e pressões sobre os próprios filhos tornaram-se cada vez mais frequentes, transformando encontros desportivos em momentos de tensão. Lousada já teve este ano dois campos interditos por problemas destes em jogos de equipas jovens. Um pai aceitou falar-nos do seu caso e admite que tem um problema deste género.
No distrito do Porto, a Associação de Futebol tem aplicado castigos quase todas as semanas a clubes que não conseguem controlar estes comportamentos, tentando criar regras e sensibilizar para a importância do respeito dentro e fora do campo. No Vale do Sousa, a situação é igualmente preocupante, com episódios registados em praticamente todos os jogos juvenis.
No concelho de Lousada, a realidade é também significativa: este ano já houve interdição de campos de clubes devido a incidentes com pais, além de multas consideradas «pesadas» aplicadas pela Associação de Futebol. Pelo menos duas vezes por mês, árbitros e dirigentes são obrigados a reportar incidentes, levando a sanções disciplinares e alertas formais aos clubes e aos próprios pais.
O desafio é claro: é urgente que os pais percebam que o papel deles não é competir pelo resultado, mas apoiar, ensinar valores de respeito e fair-play, e permitir que os jovens vivam o desporto como uma experiência positiva.
Nos últimos anos, o número de incidentes de violência e comportamento impróprio em jogos de futebol de formação em Portugal aumentou de forma alarmante. Um levantamento citado num artigo do Jornal de Notícias revela que os casos registados em futebol de formação passaram de cerca de 109 (2019/20) para 595 (época 2023/24).
Face a este cenário, as autoridades têm começado a reagir. A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) divulgou recentemente que, entre janeiro e setembro de 2025, aplicou 492 decisões condenatórias definitivas e interditou 324 adeptos de aceder a recintos desportivos. Muitas dessas sanções resultam de uso de pirotecnia ou de comportamentos violentos.
O problema, por isso, não é distante ou exagerado: tem nome, tem locais concretos — Lousada, Vale do Sousa, Porto — e gera consequências reais para clubes, jogadores e famílias. E exige uma atitude firme: consciencialização dos pais, responsabilidade dos clubes e uma vigilância real para que o futebol juvenil continue a ser, de facto, um espaço de crescimento, respeito e fair-play.

UM RELATO EMOCIONADO
Esta abordagem do jornal O Louzadense a esta temática começou por causa de uma conversa com um pai, anónimo, que nos disse: “O meu filho joga nos Sub-15 de um clube do Vale do Sousa, e todos os fins de semana a ansiedade toma conta de mim antes de cada jogo. Pensava que apoiar seria só alegria, mas não é. É um turbilhão de emoções que me escapa do controlo”.
Lembra-se de um jogo recente em que o filho “perdeu uma bola fácil, e eu senti um impulso enorme de gritar, de reclamar, de mostrar a minha frustração. E gritei com ele, com os adversários, até com o árbitro, como se pudesse alterar o resultado ou proteger o meu orgulho. Depois, o silêncio no carro de regresso a casa pesava-me no peito. Ele olhava-me, silencioso, e eu sentia culpa, vergonha. “Será que o estou a assustar? Será que está a aprender que a raiva é normal e aceitável?” – perguntas que não têm respostas fáceis.
Não é apenas um jogo. Para mim, tornou-se um teste diário de paciência, de controlo e de humildade. Tento conter-me, respirar fundo, lembrar-me que ele está ali para se divertir, para aprender, não para carregar o peso das minhas frustrações. Mas, por vezes, é impossível. Algo mais forte do que eu toma conta de mim, e só depois percebo o mal que posso ter feito.
Nos dias seguintes, falo com ele. Peço desculpa. Tento explicar que o meu comportamento não é um modelo. Tento ensinar que a derrota faz parte do jogo, que os erros são oportunidades de aprender, não motivos para vergonha ou raiva. Mas sei que palavras não bastam; são os exemplos que ficam.
Quero aprender a ser diferente, a apoiar sem pressionar, a sentir orgulho sem impor expectativas. Quero que ele jogue com prazer, com liberdade, com confiança. Talvez ao admitir a minha falha, a primeira de muitas mudanças comece aqui: no reconhecimento de que, por mais que ame o futebol e o meu filho, o verdadeiro desafio é controlar-me, para ser o pai que ele merece.
GANHAR É BOM, MAS APRENDER É MELHOR
O gestor desportivo lousadense, Luís Leal, foi dos poucos agentes locais que se prestaram a falar sobre o fenómeno.
ste especialista em futebol referiu que “o desporto e em particular o futebol continuam a ser escapes para as frustrações pessoais ou sistema de valorização de terceiros para com o «eu». É uma problemática de há vários anos, que no futebol de formação tem ainda uma maior importância e impacto negativo no crescimento de crianças e jovens”.
Existe uma cultura “enraizada que encara o desporto como uma extensão do orgulho familiar. O encarar o jogo como um teste ao «valor» do filho, traz frustrações, e desilusões, que muitas das vezes são descarregadas nos outros agentes desportivos elevando os maus comportamentos”, declara Luís Leal.
A pouca cultura educacional desportiva parece ser uma causa do problema: “o pouco conhecimento do jogo, transforma os pais em adeptos irracionais, uma vez que, não conhecem nem compreendem o fenómeno e em particular a formação desportiva, os impactos que os maus comportamentos podem ter na formação intelectual de uma criança ou jovem assim como na sua prática desportiva enquanto atleta”.
As consequências destes maus comportamentos são profundas e este gestor desportivo diz que “as crianças expostas regularmente a ambientes hostis sentem maior ansiedade, perdem gosto pelo jogo e, não raras vezes, desistem”.
A falta de aceitação do erro é outro ponto chave: “todos sentem que sabem sempre mais que os outros, quando alguém erra é para o seu prejuízo e não como um ato humano, nunca o erro é aceite como algo que faz parte do jogo, mas sim encarado como algo ofensivo e pessoal”.
Não existem formulas mágicas para controlar o fenómeno dos maus comportamentos, “mas devem ser aplicadas ferramentas educacionais para que a médio e longo prazo os diferentes agentes, melhor percebam o jogo e enraízem uma cultural desportiva educacional saudável.
Talvez seja tempo de recordar a velha máxima: ganhar é bom, mas aprender é muito melhor. E, no desporto jovem, aprender deveria ser sempre o primeiro objetivo”, sublinha Luís Leal.













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