por | 20 Jan, 2026 | Opinião, Pedro Amaral

“Depois de as coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida se se tivesse feito diferente.” – Equador, de Miguel de Sousa Tavares.

Creio, caro leitor, que este deve ser o pensamento de muitos dos actores políticos com responsabilidades no nosso país, que, por estes dias, tentam regressar gradualmente – e de mansinho – à normalidade possível dos seus dias.
A data 18 de Janeiro de 2026 ficará sempre marcada, simultaneamente, como uma data que fará parte da história, mas também como uma lembrança que muito rapidamente se esvanecerá da memória dos portugueses.
As eleições presidenciais de 2026 ofereceram-nos essa rara experiência de proporcionar o maior leque de candidatos inconsequentes de sempre. Um comentador alheado do mundo, um militar com medo da reforma, um extremista que vai a todas, um socialista à procura de justiça divina, um prepotente mascarado de liberal, três marxistas a tentar dar provas de vida e mais uns tantos (admitidos e não admitidos) para quem, eventualmente, ainda não estivesse satisfeito com as outras opções.
No meio de tão “ilustre” elenco, quase só faltaram os monárquicos juntarem as suas pretensões à mistura, num quase plebiscito popular a um sistema que se aprimorou em oferecer muita quantidade, mas muito pouca qualidade.
Aqui chegados, partimos para uma segunda volta cujo paralelo médico oscila entre um chazinho de erva-cidreira ou uma amputação indiscriminada e generalizada de membros.
Nenhuma das opções tranquiliza, nenhuma emociona, nenhuma parece trazer as qualidades necessárias para o papel de Chefe de Estado – esse papel místico e quase espiritual de personificar num indivíduo a imaterialidade da Nação, do Povo e da identidade colectiva portuguesa.
Mas desengane-se o leitor que achar que só as escolhas da segunda volta são más, porque, na verdade, estas são más apenas porque as primeiras também o eram.
Talvez com Passos, Portas ou Assis tivesse sido diferente, mas não foi.
Nos últimos tempos dou por mim (um convicto democrata-cristão) a reflectir sobre as palavras de um célebre comunista português: “Se for preciso, tapem a cara com uma mão e votem com a outra.” – Álvaro Cunhal.

Pedro Amaral

– Presidente do CDS-PP Lousada

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