por | 19 Mar, 2026 | Ambiente, Património Cultural


O som da água a mover um moinho constitui, desde há séculos, sinal de vida nas aldeias. Têm vindo a desaparecer, mas no passado, onde havia um moinho, havia pão, trabalho e comunidade. Muito mais do que simples edifícios de pedra, os moinhos são testemunhos do engenho humano, da organização comunitária e da profunda relação com a natureza. Durante gerações foram essenciais à vida rural, transformando sementes de cereais em farinha – base da alimentação das populações e dos animais domésticos.
Os moinhos da minha terra utilizavam, e utilizam, a força da corrente da água para funcionar – aquilo que atualmente chamamos de energia hídrica. A água era conduzida por levadas até ao cubo do moinho, fazendo girar as penas do rodízio, no inferno, engrenando o movimento até às mós que ralavam a semente, localizadas no piso superior. Uma solução simples e extremamente eficiente.
Segundo a Memória Paroquial de 1758, existiam na minha aldeia, em Sousela, concelho de Lousada, 24 moinhos de água e um ‘pizam’, todos distribuídos ao longo do rio Mezio. Representavam um verdadeiro complexo molinológico industrial, demonstrando a grande importância socioeconómica desta atividade na época.
Aliás, em muitas regiões dos vales do Sousa e do Tâmega era comum encontrar vários moinhos muito próximos uns dos outros ao longo do mesmo curso de água. Isto acontecia porque o caudal podia ser aproveitado sucessivamente: depois de mover um moinho, a água seguia pela levada até ao moinho seguinte, permitindo que várias famílias utilizassem a mesma força motriz. Vemos isso ainda no Parque das Uveiras, junto à ponte nova em Paços de Ferreira.
Este sistema exigia organização coletiva. Os consortes reuniam-se todos os anos para limpar as levadas, reparar os muros e garantir o funcionamento de todo o sistema. Era um verdadeiro exemplo de gestão comunitária da água e de cooperação entre vizinhos.
Mas os moinhos eram também lugares de crença e proteção. As pessoas sulcavam cruzes e outros sinais diversos, como figuras antropomórficas e fitomórficas, representadas nas ombreiras, padieiras e soleiras das portas, quer no exterior, quer no interior das paredes de pedra, verdadeiras marcas de um tempo vincado por crenças, em que a sua criação invocava uma proteção divina. Acreditava-se que estes sinais afastavam o diabo, protegiam o moinho e evitavam problemas como o ataque do gorgulho ao cereal armazenado. Em alguns casos, estas marcas serviam também como identificação do proprietário.
Hoje, muitos destes moinhos desapareceram, outros encontram-se abandonados ou em ruína. Ainda assim, permanecem alguns, para nos contarem as suas estórias. Quando passamos por um moinho antigo, não vemos apenas um edifício inserido na paisagem, é inevitável imaginar o esforço braçal das pessoas que ali trabalharam e os desafios de enfrentar os invernos rigorosos. No verão, o milho era moído mais lentamente, prolongando as esperas, assim como longas se tornavam as conversas, que rememoravam o passado e conjeturavam sobre as incertezas do futuro.
Curiosamente, estes espaços continuam cheios de vida e são locais ótimos para explorar comunicação de ciência, educação ambiental e património natural.
Nas paredes de pedra húmida dos moinhos é comum encontrar umbigo-de-Vénus, uma planta comestível muito saborosa que cresce em muros antigos e rochas sombrias. Ao seu lado surgem fetos, heras, cogumelos, musgos e líquenes que transformam estas construções em pequenos refúgios naturais. Entre os musgos e as fendas da pedra vive uma panóplia de pequenos seres: aranhas, formigas, gafanhotos, bichos-de-conta, colêmbolos, etc. Estes pequenos invertebrados servem também de alimento a outros animais que ali encontram abrigo, como salamandras, ratos e aves.
Por isso, visitar um moinho antigo é muito mais do que observar um edifício abandonado.
É uma aula ao ar livre. É viver as histórias das pessoas e de partilha de memórias. É compreender engenharia hidráulica e arquitetura. É é ser biólogo por um dia. É gerir a herança patrimonial de forma intensa e próxima. É respeitar o que é nosso. É dar às gerações vindouras a oportunidade para se conhecerem e compreenderem o seu legado.
Quantos de nós, ao passar por um moinho antigo, sentimos vontade de tirar a melhor fotografia para mais tarde recordar?

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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