A uva, o cacho, a vide, a videira, a ramada, o bardo, o esteio, a vindima, o vinho, o bagaço, a água-ardente, o copo, a garrafa, o garrafão, o pipo, a adega, a bebedeira, a ressaca, as histórias, as memórias, os prejuízos e os lucros são parte do mesmo todo, o mesmo propósito – a uva.

A Vitis vinifera, a videira que produz as uvas que conhecemos, é uma planta trepadeira que produz as uvas que conhecemos, tem origem na região do Cáucaso e da Ásia Ocidental (atual Geórgia, Arménia, Azerbaijão, entre outros), onde existem registos do seu cultivo há cerca de 6.000 a 8.000 anos. Desde então, acompanhou povos, culturas e civilizações: do Egito à Grécia, de Roma às Américas. Atravessou séculos e chegou até nós carregada de histórias. Foi alimento, foi vinho, foi tradição e continua a ser uma das plantas mais ligadas à cultura das nossas comunidades.
As uvas são ricas em água, vitaminas, minerais e compostos bioativos, com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. São um fruto saboroso, nutritivo e tem 50 calorias por cada 100 gramas. Para mim, falar de uvas é falar de muito mais do que saúde ou alimentação, história ou tradição.
Mas, nesta crónica, prefiro falar do património deste fruto.
O meu pai tem um café e, por isso, a uva, através do vinho, sempre foi tema de conversa e discussão. Na nossa terra sempre se falou sobre quem tem as melhores uvas e onde se produz o melhor vinho. Por Lousada, muitas vezes se discute qual a melhor zona de uvas, vinhas e vinho. Uns insistem que é Sousela, outros apostam em Figueiras e outros ainda na Aveleda. Talvez pela exposição solar, pela composição dos solos e até pela proximidade com rio Mesio e com o rio Sousa, todas, posso confirmar, produzem castas com muita qualidade. Mas, são conversas de café, e são também parte da nossa cultura, porque a uva e o vinho nunca foram apenas um alimento ou uma bebida: é motivo de conversa, de encontro e convivência e partilha de conhecimento.
Na casa do meu avô Porfírio e da minha avó Carolina tínhamos umas ramadas que cobriam da entrada da rua até à porta da casa. Aquelas vides davam sombra na primavera e no verão e, no outono, davam uvas, muitas uvas. O meu avô tinha ainda uma técnica muito interessante para defender as videiras, com um pesticida completamente biológico. Colhia muitas urtigas, colocava-as num cesto gigante, juntava água e ali ficavam quatro ou cinco dias, até o cheiro fermentado ser tão forte que se tornava assunto de família: “De onde vem este cheiro?” Depois coava as urtigas com um pano de linho ou uma toalha de mesa e colocava aquela água numa máquina de sulfatar antiga, de botija de latão e cana. De seguida bombeava com uma manivela para dar pressão e lá ia sulfatar as vides. Caso sobrasse, aproveitava e sulfatava também a horta e o pequeno jardim de flores “para as campas dos familiares no cemitério”. Aquilo cheirava mal! Mas uma coisa é certa: não havia mosquito ou larva que se aventurasse a comer aquelas folhas. Aquilo resultava! As plantas e as folhas cresciam verdes e grandes, e davam frutos e legumes saborosos. Era conhecimento empírico, que foi passado de geração em geração e que, hoje em dia, pelo menos que eu conheça, já poucas pessoas utilizam esse método.
Uvas de sobremesa sempre houve na casa da minha mãe e continuam a existir na minha casa também. Gostamos de as lavar em água fresca e colocá-las no frigorífico antes de as comermos. Há quem goste delas acompanhadas com broa – a minha mãe adora-as assim. O meu filho gosta de as comer frias, e de fazer ressoar aquele som estaladiço de quando as trinca.
Eu, continuo a preferir aquelas que são colhidas diretamente da ramada, amassa-las na boca, chupar o sumo e cuspir as sementes por onde passo. Gosto das brancas e das tintas. Mas o que eu gosto mesmo é de “roubar” uvas, de preferência americanas — mas só um cacho de cada vez!
As minhas experiências de vindima não são muitas, mas ficaram-me algumas memórias para sempre. Recordo-me do meu avô a consertar as escadas de pau, por vezes com arames, para conseguir sustentar o peso de quem subia. Depois lá íamos nós, quase família inteira, por aquelas escadas acima, que abanavam e rangiam, com um balde, com um gancho de ferro pesado preso à alça do balde, e que se fixava à ramada. Se tivéssemos a sorte de não levarmos com o gancho na cara enquanto subíamos, começávamos a colher as uvas.
As tesouras de poda eram poucas, por isso improvisava-se com uma tesoura de costura, ou um canivete, ou uma faca já velha que era afiada no esteio de granito mais próximo da escada. Colhia-se para o balde e para a boca. As mãos ficavam pegajosas, os dedos ficavam pintados, a roupa, velha, ficava cheia de nódoas, porque depois ia para o lixo! Muitas vezes, a diarreia era certa nos dias seguintes devido à fartura de comer uvas!
Era duro? Era. Mas era muito mais divertido do que duro. Era convívio, aventura, um concerto coral, à capela, era entreajuda. Por vezes um ralhete, uma gargalhada, uma piada ou anedota improvisada, e quase sempre uma coscuvilhice sobre a vizinhança, ou mesmo um prognóstico de um resultado de futebol em que jogasse o F. C. do Porto nesse fim de semana! Era puro entretenimento, experiência e saber. Hoje, há quem lhe chame de desenvolvimento de competências e enriquecimento cultural, socioterapia ou até TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental). Imagine-se!
Gosto mais do nome que os antigos lhe chamavam: “Escola da Vida”.
Também ficaram outras histórias sob o propósito do tratamento das uvas. Na casa do Sr. Costa e do Sr. Ribeiro, perto da minha antiga casa, eu assisti à produção de bagaço e aguardente. À casa do Sr. Oliveira íamos “roubar” uvas diretamente da ramada, porque eram as mais saborosas. Na Dona “SePalmira”, no largo da Rua do Carvalho, fazíamos competições de corrida por cima das ramadas para ver quem corria mais depressa e chegava mais rápido à outra ponta – que, normalmente obrigava a brincadeira a terminar quando alguém caia e se magoava. E, nos passeios com os meus pais, fui aprendendo a distinguir uvas moscatel, de favaios, quilhão-de-galo e tantas outras uvas de mesa, cada uma com a sua história.
A uva também nos deixou uma enorme sabedoria popular através dos provérbios, expressões e ditados, tais como: “Até ao lavar dos cestos é vindima”, que significa quando ainda não podemos dar o trabalho por terminado, ou “muita parra, pouca uva”, de quando alguém ou algo parece ser mais do que aquilo que realmente é.
E depois há o vinho, o chamado “néctar dos deuses”, numa referência a Baco ou Dionísio, associado à celebração e à alegria.
Em Sousela temos várias vinhas de referência: A vinha da Quinta do Padre, outras particulares que não quero aqui dizer o nome e, a Quinta de Lourosa. A proprietária, produtora e enóloga, Eng. Joana costuma dizer, entre muitas outras coisas, uma frase que gosto de repetir aos meus amigos: “Comam uvas, tratem das vinhas e bebam vinho, porque o vinho é um néctar que se bebe à mesa e , por isso, só se bebe bom vinho com gente boa e com boas conversas. Sejam felizes com um copo de vinho, mas bebam sempre com moderação”.
Talvez seja por isso que a uva seja muito mais do que um fruto. É natureza, alimento, trabalho, paisagem, cultura, tradição e memória. É aquilo que os nossos antepassados aprenderam a cultivar e transformar, e que nós continuamos a colher, a comer, a conversar e a recordar.
Quando vemos uma ramada carregada de cachos, talvez estejamos também a olhar para uma parte da nossa própria história. Natureza. Cultura. Trabalho. Memória. Património.
E, se houver um copo de vinho à mesa, que seja com gente boa, boas conversas e, naturalmente, se beba sempre com moderação. Caso haja um cacho de uvas, que seja partilhado e que haja uma boa cavaqueira também.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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