Ter uma casa tornou-se um dos maiores desafios de uma geração. Jovens que trabalham, que poupam, que querem constituir família, mas que não conseguem comprar ou arrendar uma habitação. Casais que adiam projetos de vida. Famílias que procuram casa cada vez mais longe, não porque queiram partir, mas porque não conseguem ficar.
E este já não é apenas um problema de Lisboa ou do Porto. Também se sente em Lousada, nas nossas freguesias, nas conversas com amigos, familiares e vizinhos.
Uma terra não se faz apenas de estradas, jardins ou equipamentos públicos. Faz-se de pessoas. E quando essas pessoas deixam de conseguir viver na terra onde cresceram, temos um problema que vai muito além da falta de casas. Temos um problema de futuro.
É por isso preocupante assistir à forma como o debate sobre a habitação se tem degradado.
Milhares de pessoas saem à rua para protestar contra as dificuldades de acesso à habitação e, pouco depois, já se discute tudo menos o motivo que as levou a manifestar-se. Discutem-se os confrontos, as detenções, a atuação policial e as intenções políticas de quem participa. Entretanto, o problema das casas continua por resolver.
Também a resposta musculada das autoridades merece reflexão. O Governo tem o dever de garantir a ordem pública, mas também de proteger o direito à manifestação. A força, quando necessária, deve ser proporcional. E governar exige mais do que impor autoridade. Exige saber ouvir.
Deixo, por isso, uma palavra de solidariedade a quem se manifesta por uma causa tão importante. Solidariedade não significa apoio a todas as reivindicações, nem concordância com todos os métodos. Significa reconhecer que existe um problema real e que as pessoas têm o direito de exigir respostas. Podemos discordar das soluções que se gritam na rua sem deixar de ouvir os problemas que levaram as pessoas até lá.
Mas a resposta à crise da habitação não pode ficar pelas manifestações, pelos confrontos ou pelas discussões políticas. Tem de chegar à vida das pessoas. E isso exige soluções.
A primeira é simples: precisamos de mais casas disponíveis.
Portugal passou demasiado tempo a discutir como controlar os preços e pouco tempo a discutir como aumentar a oferta. E quando há poucas casas para muitas famílias, os preços sobem. Não há decreto que consiga contrariar esta realidade durante muito tempo.
Precisamos de facilitar a construção, sem abdicar da qualidade, da segurança ou do respeito pelo território. Precisamos de processos mais simples, regras claras e prazos previsíveis. Quem pretende construir ou recuperar uma casa deve saber com o que pode contar.
Mas construir mais não chega. É igualmente importante recuperar aquilo que já existe.
Nas nossas freguesias encontramos casas fechadas, edifícios degradados e imóveis que poderiam voltar a receber famílias. Muitos pertencem a particulares que não têm condições financeiras para os recuperar ou que enfrentam processos demasiado complexos.
Porque não criar incentivos municipais à reabilitação de imóveis destinados à habitação própria e ao arrendamento de longa duração? Reduções de taxas, acompanhamento técnico, procedimentos simplificados e benefícios fiscais temporários, dentro das competências legais do município, podem ajudar a transformar casas vazias em casas habitadas. Não se trata de subsidiar indiscriminadamente a propriedade privada. Trata-se de criar condições para que imóveis sem utilização voltem a cumprir a sua função, com benefícios para toda a comunidade.
Também o património público deve fazer parte desta estratégia. Conhecer os imóveis municipais, avaliar o seu estado e perceber quais podem ser recuperados para habitação ou outros fins úteis seria um excelente ponto de partida.
Outra prioridade deve ser dar confiança ao mercado de arrendamento. Há proprietários que receiam colocar os seus imóveis no mercado por medo de incumprimentos e processos demorados. E há famílias que, apesar de terem rendimentos, não conseguem reunir as garantias exigidas para arrendar.
Precisamos de aproximar estas duas realidades. Seguros de renda, mecanismos de garantia equilibrados e programas de arrendamento acessível, construídos em parceria com proprietários privados, podem ajudar a colocar mais habitações no mercado. Proteger os inquilinos e respeitar os proprietários não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são duas condições necessárias para um mercado de arrendamento que funcione.
Há ainda uma quarta dimensão que não tem sido discutida: a habitação não se resolve apenas com casas. Uma família precisa de emprego, transportes, escolas, comércio e serviços. Uma habitação aparentemente mais barata pode tornar-se demasiado cara quando obriga a ter dois automóveis ou a perder horas todos os dias em deslocações.
É aqui que os municípios e as freguesias podem fazer a diferença. Lousada tem um território diversificado, com freguesias que oferecem qualidade de vida, proximidade e potencial para acolher novas famílias. Melhorar as ligações entre elas, reforçar os transportes públicos, valorizar os centros das freguesias e criar condições para atrair empresas e emprego qualificado também é fazer política de habitação.
Não precisamos de concentrar todas as soluções no centro da vila. Podemos criar oportunidades em todo o concelho, respeitando as características de cada localidade e aproveitando melhor as infraestruturas existentes.
E para isso precisamos de ouvir quem conhece o território. As juntas de freguesia, os moradores, os proprietários, os construtores, as instituições sociais e as empresas têm conhecimento e experiência que não devem ser desperdiçados. Uma estratégia local de habitação deve nascer deste diálogo e traduzir-se em medidas concretas, com objetivos que possam ser avaliados.
Porque não estabelecer uma meta municipal de recuperação de imóveis devolutos? Porque não criar um balcão de apoio à reabilitação, onde os cidadãos possam conhecer os incentivos disponíveis e obter ajuda nos procedimentos? Porque não identificar terrenos e edifícios com potencial habitacional e promover parcerias que permitam dar-lhes utilização?
São propostas que merecem ser estudadas, discutidas e, quando viáveis, concretizadas.
Naturalmente, nem tudo depende dos municípios. O Estado central tem de garantir estabilidade fiscal, segurança jurídica, financiamento adequado e políticas que não mudem a cada legislatura. A habitação exige confiança e investimento a longo prazo, não soluções improvisadas ao sabor dos ciclos eleitorais.
Mas também não podemos ficar à espera de Lisboa para fazer aquilo que está ao nosso alcance. A melhor política de habitação não é necessariamente aquela em que o Estado constrói mais casas. É aquela que consegue criar condições para que mais famílias tenham acesso a uma habitação adequada, seja através da construção privada, da reabilitação, do arrendamento ou do apoio público a quem realmente precisa.
Não há uma solução única. E muito menos uma solução milagrosa. Há, isso sim, um conjunto de pequenas e grandes decisões que, tomadas em conjunto, podem fazer a diferença.
Porque não criar incentivos municipais à reabilitação de imóveis destinados à habitação
própria e ao arrendamento de longa duração? Reduções de taxas, acompanhamento
técnico, procedimentos simplificados e benefícios fiscais temporários, dentro das
competências legais do município, podem ajudar a transformar casas vazias em casas
habitadas. Não se trata de subsidiar indiscriminadamente a propriedade privada. Trata-se de
criar condições para que imóveis sem utilização voltem a cumprir a sua função, com
benefícios para toda a comunidade.
Também o património público deve fazer parte desta estratégia. Conhecer os imóveis
municipais, avaliar o seu estado e perceber quais podem ser recuperados para habitação ou
outros fins úteis seria um excelente ponto de partida.
Outra prioridade deve ser dar confiança ao mercado de arrendamento. Há proprietários que
receiam colocar os seus imóveis no mercado por medo de incumprimentos e processos
demorados. E há famílias que, apesar de terem rendimentos, não conseguem reunir as
garantias exigidas para arrendar.
Precisamos de aproximar estas duas realidades. Seguros de renda, mecanismos de garantia
equilibrados e programas de arrendamento acessível, construídos em parceria com
proprietários privados, podem ajudar a colocar mais habitações no mercado. Proteger os
inquilinos e respeitar os proprietários não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são
duas condições necessárias para um mercado de arrendamento que funcione.
Há ainda uma quarta dimensão que não tem sido discutida: a habitação não se resolve
apenas com casas. Uma família precisa de emprego, transportes, escolas, comércio e
serviços. Uma habitação aparentemente mais barata pode tornar-se demasiado cara quando
obriga a ter dois automóveis ou a perder horas todos os dias em deslocações.
É aqui que os municípios e as freguesias podem fazer a diferença. Lousada tem um território
diversificado, com freguesias que oferecem qualidade de vida, proximidade e potencial para
acolher novas famílias. Melhorar as ligações entre elas, reforçar os transportes públicos,
valorizar os centros das freguesias e criar condições para atrair empresas e emprego
qualificado também é fazer política de habitação.
Não precisamos de concentrar todas as soluções no centro da vila. Podemos criar
oportunidades em todo o concelho, respeitando as características de cada localidade e
aproveitando melhor as infraestruturas existentes.
E para isso precisamos de ouvir quem conhece o território. As juntas de freguesia, os
moradores, os proprietários, os construtores, as instituições sociais e as empresas têm
conhecimento e experiência que não devem ser desperdiçados. Uma estratégia local de
habitação deve nascer deste diálogo e traduzir-se em medidas concretas, com objetivos que
possam ser avaliados.
Porque não estabelecer uma meta municipal de recuperação de imóveis devolutos? Porque
não criar um balcão de apoio à reabilitação, onde os cidadãos possam conhecer os incentivos
disponíveis e obter ajuda nos procedimentos? Porque não identificar terrenos e edifícios com
potencial habitacional e promover parcerias que permitam dar-lhes utilização?
São propostas que merecem ser estudadas, discutidas e, quando viáveis, concretizadas.
Naturalmente, nem tudo depende dos municípios. O Estado central tem de garantir
estabilidade fiscal, segurança jurídica, financiamento adequado e políticas que não mudem a
cada legislatura. A habitação exige confiança e investimento a longo prazo, não soluções
improvisadas ao sabor dos ciclos eleitorais.
Mas também não podemos ficar à espera de Lisboa para fazer aquilo que está ao nosso
alcance. A melhor política de habitação não é necessariamente aquela em que o Estado
constrói mais casas. É aquela que consegue criar condições para que mais famílias tenham
acesso a uma habitação adequada, seja através da construção privada, da reabilitação, do
arrendamento ou do apoio público a quem realmente precisa.
Não há uma solução única. E muito menos uma solução milagrosa. Há, isso sim, um conjunto
de pequenas e grandes decisões que, tomadas em conjunto, podem fazer a diferença.













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