AMBIENTE & PATRIMÓNIO, por Ernesto Gonçalves O MORCEGO — O velho amigo Óscar e os injustiçados monstros da noite

Passou o Halloween e, com ele, desapareceram as abóboras iluminadas, as bruxas, os fantasmas e os vampiros. Mas houve uma criatura que ainda continua a voar pelas nossas noites mais quentes, indiferente a toda esta confusão: o morcego! Afinal, para ele, o Halloween é apenas mais uma noite de trabalho.
Na minha aldeia, quando se fala em morcegos, há sempre alguém que responde: «Eishh! O rato-voador!». Talvez pela sua aparência, pelos hábitos noturnos ou pelas histórias assustadoras que ouvimos desde pequenos. Mas basta alguém começar a conversa desta maneira para eu perceber que tenho mais um mito para desmistificar!
Lembro-me de, em criança, viver numa humilde casa na Rua do Carvalho, em Sousela. Mesmo junto ao muro e à porta de entrada havia um poste de iluminação pública. Da primavera até ao final do outono, era frequente vermos um morcego a voar à volta daquela lâmpada. Eu, a minha mãe e o meu irmão até lhe demos um nome: Óscar! Todas as noites lá aparecia ele, às voltas, provavelmente à caça dos insetos atraídos pela luz.
Engraçámos tanto com aquele pequeno animal que nunca mais tive medo de morcegos. Pelo contrário, ganhei por eles um carinho ainda mais especial!
Hoje vivo uns metros mais acima, numa casa onde também existe um poste de iluminação. E, curiosamente, também por aqui aparecem morcegos! Já contei esta história ao meu filho e à minha esposa, e sabem como se chamam todos os morcegos que vemos a voar? Óscar, claro! Cá em casa, temos um carinho especial por todos os morcegos e sentimos que todos pertencem à mesma família do Óscar, e que vai passando de geração em geração!
Ainda no passado fim de semana, eu e o meu colega Luís Cunha realizámos uma atividade da «Hora do Observatório», dedicada às famílias, com o tema «As Criaturas nas Sombras de Halloween». Entre aranhas, escorpiões, anfíbios, aves e mamíferos, procurámos desmistificar alguns dos animais mais injustiçados pelas histórias populares. Eu até me vesti de vampiro! O terrível «Vampiro TóTó», que, em vez de assustar as crianças, procurava mostrar-lhes como estas criaturas são importantes para a natureza.
E o morcego não podia faltar!
Ao contrário do que muita gente pensa, os morcegos não são ratos com asas, nem são cegos, nem andam à procura dos nossos cabelos para se enredarem neles. São mamíferos e os únicos capazes de voar verdadeiramente. Além da visão, muitas espécies utilizam a ecolocalização, emitindo sons e interpretando os ecos para se orientarem e encontrarem alimento.
Em Portugal, os morcegos alimentam-se de insetos e outros pequenos artrópodes. Algumas espécies conseguem consumir enormes quantidades de pequenos insetos, numa só noite. Há quem afirme que algumas espécies comem cerca de 2 mil insetos por noite. Imaginem o que seria das nossas noites de verão sem estes trabalhadores incansáveis! Talvez passássemos mais tempo a fugir dos mosquitos do que a aproveitar o descanso da noite!
Nas atividades de educação ambiental, costumo perguntar porque é que tantos morcegos descansam pendurados de cabeça para baixo. As crianças inventam respostas extraordinárias e muito divertidas, para quem ouve, enquanto os adultos, muitas vezes, ficam em silêncio, com medo de arriscar! A verdade é que esta posição permite que muitas espécies iniciem o voo deixando-se cair, aproveitando a gravidade. Caso contrário, algumas espécies têm de trepar ou subir por troncos ou rochas para conseguirem voar! Por isso é que já ouvi pessoas a dizerem que já se depararam com morcegos dentro de casa agarrados às cortinas!
Também já me telefonaram algumas vezes a pedir ajuda para resgatar morcegos que entraram pela janela de suas casas. Curioso o espanto quando essas pessoas são informadas que o que devem fazer é “deixarem de assustar o pobre desgraçado, apagar as luzes do quarto ou da sala e deixar a janela aberta sem entraves para que o morcego possa sair em segurança”. E pronto, esta técnica costuma funcionar, pelo menos até ao dia de hoje.
E os morcegos-vampiros? Esses existem mesmo! Mas vivem no continente americano e alimentam-se de sangue, fazendo pequenas incisões na pele de outros animais, como vacas e bois, e lambendo-o, em vez de o sugarem como nos filmes. Por cá, não temos morcegos desses. O meu disfarce de Vampiro TóTó era, portanto, muito mais perigoso para a reputação dos vampiros do que para qualquer morcego português!
No entanto, há uma preocupação que não tem graça nenhuma. Estamos a perder árvores antigas, minas, ruínas e outros locais que servem de abrigo a estes animais. Em Portugal, os morcegos são espécies protegidas por lei e não devem ser perseguidos, manipulados ou expulsos indiscriminadamente dos seus abrigos. Proteger os morcegos é também preservar o património natural que tantas vezes vive escondido no nosso património construído.
Conheço alguns desses abrigos em Sousela e gosto de pensar que continuarão a acolher morcegos durante muitos anos. Talvez um dia os possamos, juntos, conhecer com os devidos cuidados, sem perturbar os seus habitantes.
Entretanto, quando anoitece e vejo um morcego a voar junto ao poste de iluminação da minha rua, continuo a chamar-lhe Óscar. A minha esposa e o meu filho já fazem o mesmo. Não sei se algum deles será descendente daquele primeiro Óscar da Rua do Carvalho, de há 30 anos, mas gosto de imaginar que sim!
E espero continuar a ver familiares do Óscar a voar nas minhas noites mais quentes. Porque, enquanto houver morcegos, haverá também pequenos aliados a trabalhar silenciosamente pelo equilíbrio da natureza, por todos nós.
Afinal, nem todas as criaturas das trevas são de meter medo. Algumas até merecem que lhes demos um nome!

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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