Há datas que ficam na memória de uma casa. Na Casa do Rio, em Torno, Lousada, a de 22 de agosto de 2026 já entrou para a história. Foi nesse dia que começaram a ser colhidas as primeiras uvas das ramadas tradicionais da propriedade. Nunca a vindima tinha começado tão cedo.
José Guimarães olha para o calendário e para as vinhas com a consciência de que não se trata apenas de uma antecipação de algumas semanas. «Isto é claramente uma mudança de paradigma», diz ao O Louzadense, depois de um ano climático particularmente exigente, marcado por cerca de quatro meses sem chuva e várias ondas de calor.
Na Casa do Rio, porém, a vindima deste ano é apenas mais um capítulo de uma história que começou muito antes de as alterações climáticas entrarem no vocabulário quotidiano. A produção de vinho remonta a 1800, altura em que a propriedade passou a pertencer à família. Nessa época, produziam-se cerca de 180 a 200 pipas, provenientes das tradicionais ramadas e bordaduras que ainda hoje fazem parte da paisagem.
«Temos cerca de 1,5 hectares de ramadas tradicionais, com videiras centenárias, que protegemos e recuperamos», explica José Guimarães.
É precisamente aí que parece estar uma das chaves deste projeto: olhar para o futuro sem apagar aquilo que veio de trás.
A Casa do Rio foi, juntamente com a Casa de Vilar e Vila Verde, uma das primeiras casas da região a apostar, em 1990, na plantação de vinhas contínuas. Décadas depois, essas vinhas estão a ser reconvertidas. Desde 2021, a propriedade encontra-se nesse processo, com duas áreas distintas, ou «terroirs»: uma na zona do Torno, entre os 180 e os 220 metros de altitude, e outra em Covas Figueiras, entre os 250 e os 350 metros.
A lógica é juntar conhecimento antigo e viticultura contemporânea.

O objetivo principal continua a ser a produção de uvas, entregues há cerca de três décadas ao mesmo parceiro: os Vinhos Borges. «Temos uma excelente relação de compromisso», sublinha José Guimarães.
Mas a Casa do Rio está agora a dar um passo além da produção de uva. Desde 2025, a família começou a desenvolver, de forma gradual, um projeto de vinhos de autor, com uma marca já em processo de legalização.
A ideia passa por recuperar também a identidade das castas tradicionais. Nos tintos das ramadas entram Vinhão, Azal Tinto, Borraçal e Espadeiro. Nos brancos, Azal Branco e Espadeiro Branco, entre outras castas. Já os vinhos de terroir assentam nas vinhas em bardo, com Loureiro, Arinto, Alvarinho e Fernão Pires.
«São vinhos feitos com um conceito de “perfumaria”, baixa intervenção e muita técnica», descreve o proprietário.
Na Casa do Rio, a palavra «família» não é apenas uma descrição do projeto. É quase um método de trabalho. José Guimarães conta que os filhos, Diogo e Nuno, ambos engenheiros, estão envolvidos «a 200%» no projeto. E fazem-no enquanto mantêm as suas próprias carreiras profissionais em multinacionais.
«Tudo isto só é possível com muito esforço pessoal, resistência, resiliência e foco de todos», afirma.
A família procura, assim, manter uma ligação que atravessa várias gerações. A antiga propriedade do bisavô de José Guimarães chegou a abranger cerca de 160 hectares, distribuídos por Torno, Aião, São João, Sernande e Telhado.
Essa relação estende-se também à comunidade local. A Casa do Rio procura preservar tradições e continuar a recrutar pessoas da região, mantendo relações que, em muitos casos, têm uma dimensão quase familiar e atravessam gerações.
«Tentamos preservar as tradições e recrutar as pessoas dentro das relações quase familiares que existem desde o passado», conta.
O projeto tem ainda uma preocupação clara com a forma de cultivar. A Casa do Rio assume uma abordagem de viticultura regenerativa, procurando reduzir o recurso a pesticidas de síntese e outros químicos e trabalhando o solo e a vinha de forma a responder tanto quanto possível aos ciclos naturais.
Não é necessariamente o caminho mais fácil — nem o mais rentável. «É um sonho de todos e um objetivo tentar valorizar e preservar o legado que nos foi deixado pelos meus pais, avós, bisavós, trisavós e tetravós», afirma. E acrescenta uma ideia que talvez explique melhor do que qualquer outra a persistência da família: «Acredito que isto que fazemos não é só para nós».
Para reforçar a componente vínica, juntou-se recentemente à equipa o jovem enólogo Luís Oliveira, formado pela UTAD, que será coautor dos vinhos de Ramada e dos vinhos provenientes dos dois terroirs — Rio e as quintas de Bairral e Almedinha.
Os primeiros vinhos já estão em estágio. A seu tempo, chegarão ao mercado.
A vindima deste ano tenha sido mais do que uma data invulgar no calendário agrícola. Foi um sinal dos tempos.
Enquanto as temperaturas sobem e as vindimas avançam para o verão, na Casa do Rio há quem tente responder à mudança sem romper com a memória. Recuperam-se ramadas centenárias, plantam-se e reconvertem-se vinhas, experimentam-se novos vinhos e envolvem-se os filhos num projeto que começou muito antes deles nascerem.
No fundo, trata-se de uma corrida contra o tempo feita sem pressa.














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