Há muitos anos que entro na Escola Secundária de Lousada com a sensação de que cada setembro nos oferece uma oportunidade de recomeçar. Regressamos aos mesmos espaços, mas encontramos novos rostos, novas perguntas e novos desafios. É, talvez, essa uma das razões pelas quais continuo a olhar para a escola com a esperança renovada de que continuemos a construir uma escola atenta ao seu tempo, mas sem perder de vista aquilo que verdadeiramente importa.
Neste novo ano letivo, há algo que me merece uma atenção muito particular: a ausência dos telemóveis nas salas de aula dos alunos do ensino secundário.
Vejo esta decisão muito para além de uma medida disciplinar. Vejo-a como uma oportunidade educativa e, de certa forma, como um gesto de confiança nos nossos jovens. Durante demasiado tempo, permitimos que um pequeno ecrã disputasse, quase permanentemente, a sua atenção com aquilo que acontece dentro da sala de aula. Mesmo quando não está a ser utilizado, o telemóvel mantém aberta a possibilidade de uma fuga: para outra conversa, outra imagem, outra notícia, outro mundo…
E aprender exige presença.
Não, não defendo, naturalmente, uma escola desligada da tecnologia. Precisamos, naturalmente, de ensinar os jovens a utilizar a tecnologia com inteligência, responsabilidade e espírito crítico. Ela faz parte do seu quotidiano e será, inevitavelmente, uma ferramenta importante no seu percurso académico e profissional. O desafio da escola não pode, por isso, ser o de os afastar da tecnologia, mas o de os ensinar a estabelecer com ela uma relação equilibrada e consciente. Porque utilizar uma ferramenta é muito diferente de “depender” dela. Quando precisamos de consultar permanentemente um ecrã, talvez já não sejamos nós a decidir quando usar a tecnologia. Já será ela que começa a decidir por nós!
E talvez uma das aprendizagens mais importantes deste tempo que vivemos seja precisamente esta: aprender a escolher. Saber quando devemos ligar e quando precisamos de desligar. Quando a tecnologia nos acrescenta e quando nos distrai, ou ainda, quando nos aproxima e quando nos afasta daquilo que está verdadeiramente diante de nós. Desligar o telemóvel, nesse sentido, não significa desligarmo-nos do mundo. Pode significar, justamente, voltar a estar inteiramente disponíveis para ele.
Espero, assim, que este ano nos ajude a devolver aos nossos alunos algo que vale mais do que qualquer notificação: a capacidade de estar verdadeiramente presentes. Presentes numa aula, numa conversa, diante de um livro, de uma pergunta ou de alguém que nos fala. Escutar sem estar, ao mesmo tempo, à espera de outra coisa. Acompanhar um raciocínio, deixar uma ideia amadurecer, aceitar o silêncio e resistir à necessidade de responder a todos os estímulos.
Numa época que nos convida permanentemente a estar em vários lugares ao mesmo tempo, talvez uma das aprendizagens mais importantes seja redescobrir o valor de estar inteiro num só lugar.
Lousada, 11 de setembro de 2026
Graça Maria Pinto Coelho













Comentários