Entrei neste livro de José Luís Peixoto há precisamente treze anos atrás. Na altura, senti que teria aberto uma porta dupla que me permitia espreitar a poderosa vibração dos mundos sonhados, sem perder o pé da realidade – um confronto duro, mas poderoso, capaz de inspirar reflexões reveladoras do papel dos livros na nossa vida, bem como dos silêncios de que são feitos.
Embora o Livro tenha como pano de fundo a emigração portuguesa para França, mais precisamente, para Paris e, como tal, se construa neste balancear entre uma pequena vila portuguesa do interior e a cidade cosmopolita de Paris, o que ele aciona no leitor vai muito para além deste contexto factual, é, de forma muito singular, uma espécie de mergulho no mundo interior de múltiplas personagens cujo recorte vívido nos obriga a olhá-las como figuras de grande plasticidade humana. A viagem entre dois mundos tão diferentes, neste romance, faz-se tanto pelas aventuras e desventuras relatadas quanto pelos silêncios. O ritmo do texto, por ser simples, mas muito melódico, arrasta-nos pelos caminhos percorridos pelas personagens, pelos seus diálogos e pela voz que salta das linhas do romance, forçando-nos a entrar nele por uma outra porta – a do próprio conceito de livro. É este assombroso dobrar-se para dentro da narrativa que nos leva ao interstício da história e permite que ouçamos as palpitações dos sonhos das suas personagens, os seus anseios e a claridade dos seus gestos: «Nas tuas mãos, a minha mãe, o Ilídio e o Cosme estão no andar de cima, ouve-se os passos, as cadeiras a serem arrastadas. Nas tuas mãos, a vila descansa e Paris é tão longe. Às vezes, penso em ti sem te dizer. Mesmo esses pensamentos invisíveis estão agora nas tuas mãos. Seguras o meu nome» (Livro, p. 262-263).
José Luís Peixoto oferece-nos, neste livro, uma história cujo fôlego nasce porventura da capacidade de recuperar um tempo específico, o da emigração de portugueses para França, mas a partir de dentro do mundo interior de personagens inesquecíveis. O Livro, espaço de contenda, torna-se, em certa medida, o único lugar possível de reencontro com a expressão máxima deste vaivém entre lugares, repositório dos sonhos, guardião das esperanças e dos silêncios que definem partidas e regressos.
Conceição Brandão,
Professora













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