Há dias “cruzamo-nos” com Alain Touraine, sociólogo francês conhecido pela sua obra dedicada à sociologia do trabalho, dos movimentos sociais e da democracia. Revisitar Touraine quando iniciamos um novo ano económico, social e político, conduziu-nos ao presente editorial.
A construção de um Portugal mais justo, próspero e resiliente, transcende partidos e ideologias, mas é sobre eles que mais incide a responsabilidade dessa missão. Acreditamos na nobreza do serviço político, na intenção de promover o bem comum e melhorar a vida dos cidadãos, mas contestamos o nepotismo, a corrupção, a mentira e a incompetência.
Perante o desafio de recuperar o crescimento económico e o poder de compra dos cidadãos, da exigência das alterações climáticas e das crescentes desigualdades sociais, a resposta social e política a estes desafios exige responsabilidade e cooperação. O interesse do país deve estar acima dos interesses partidários. A concertação de prioridades e a definição conjunta de reformas políticas é alcançável através do diálogo aberto e construtivo, mas também da transparência e da prestação de contas. Só assim será possível sedimentar a confiança dos cidadãos nos políticos e nas instituições políticas. Um contrato social inclusivo e um compromisso contínuo com a ética, a integridade e a responsabilidade no exercício do poder. Só assim é possível fortalecer a democracia.
Ouvir as vozes da sociedade civil, compreender as suas necessidades e anseios, é fundamental para a formulação de políticas eficazes e inclusivas. A participação ativa dos cidadãos no processo democrático deve ser estimulada e valorizada.
Tal como A. Touraine enfatizou, a sociedade também deve lutar para democratizar o acesso aos mecanismos de decisão e participação pelos cidadãos. A exigência colocar-se-á, então, de parte-a-parte, pois a consolidação e o aperfeiçoamento da democracia e da cidadania ativa dependem, e muito, da capacidade e autonomia de todas as partes, em especial dos cidadãos e das instituições da sociedade civil, de exercer influência sobre as decisões políticas, económicas e culturais, deixando para o Estado um papel necessário de regulação e avaliação da situação.
O apelo à responsabilidade e cooperação traduz-se em “exigência”, desde logo na primeira pessoa: exigir de mim a responsabilidade de participar e não me quedar alienado da formulação e discussão das políticas; exigir de mim a responsabilidade de escolher e decidir, através do voto, aquelas que serão as ‘melhores’ políticas e os ‘melhores’ protagonistas para as implementar. Ficar alienado corrói a democracia. Ficar alienado é ficar dependente e sujeito ao jogo dominante. Ficar alienado é estar seduzido e manipulado pela escolha alheia.
Por outro lado, também se coloca a exigência nas instituições políticas de se abrirem à sociedade, ouvirem a sociedade, promoverem a participação da sociedade. E, acima de tudo, serem eficazes, competentes e transparentes.
Este editorial é, pois, um apelo para que, todos, trabalhemos no fortalecimento e consolidação da democracia e na criação de um Portugal mais robusto, equitativo e preparado para os desafios do futuro. Que o ano que se inicia seja marcado por políticas comprometidas com o povo, com a verdade e com a construção de um país que todos nós podemos orgulhosamente chamar de lar.
Feliz Ano Novo!













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