Defensor da memória local na construção

ANTÓNIO HERMANO NETO MENDES CARVALHO

Uma das figuras mais reconhecidas da sociedade lousadense da era moderna é António Hermano Neto Mendes Carvalho. Este arquiteto completou 67 anos no passado domingo, precisamente quinze dias depois da sua aposentação como funcionário do município de Lousada. Desempenhou durante 33 anos a atividade de Arquiteto na Câmara Municipal, na qual fez sobressair as suas qualidades técnicas e humanas. Confessa-se uma pessoa com espírito bastante crítico e revela que tem um personalidade de sagitariano. De tudo isto e da sua carreira expõe aqui pela primeira vez, numa entrevista que estava prometida para esta ocasião há já alguns anos.

O pai, Abílio Hermano Mendes Carvalho era arquiteto e isso serviu de influência para António seguir a mesma área académica. “Eu sempre tive muito jeito para as matemáticas, mas curiosamente nunca tive muito jeito para desenho, embora goste de o fazer desde pequeno, altura em que desenhava carros”, revela o arquiteto, que defende que é “muito importante para a arquitetura esboçar, riscar, traçar, desenhar, para conceber o objeto de trabalho”.

Arq.º Neto

Cursou em Belas Artes, perto do Jardim de São Lázaro, no Porto, depois de ter frequentado os liceus Alexandre Herculano e o António Nobre, também na cidade portuense.

Foi sobretudo no percurso académico que desenvolveu uma das suas características mais marcantes na sua pessoa: a crítica. “Gosto de analisar, apreciar e criticar a arte, a criatividade artística, ver mais além o objeto”, admite. Daí ter participado como júri e como organizador de concursos de artesanato, de artes plásticas e outros.

Teve como professores alguns dos maiores vultos da arquitetura portuguesa, como Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura. “Foi uma formação que me influenciou muito, no gosto pelo estilo arquitetónico europeu, sobretudo nórdico”, adianta.

ESPÍRITO CRÍTICO

Analisar, descobrir, ver mais longe, é uma das características do seu signo do Zodíaco. “Tenho uma personalidade de Sagitário”, afirma o arquiteto, que se enquadra nas pessoas que estão sempre em busca de conhecimento e de experiências enriquecedoras.

Arq.º Neto

Mas, de forma algo surpreendente, ressalva que “a arquitetura não é uma arte, pelo menos não na forma em que a concebo”. Justifica esta sua perspetiva dizendo que “a arquitetura é na sua essência a concretização de uma função e um objeto” e acrescenta que “os engenheiros também criam, os designers igualmente, mas não considero que também eles sejam artistas”. E complementa que em Belas Artes, “eu e os meus colegas convivemos de perto com os cursos de escultura e de pintura e dali concebemos que arquitetura não é uma arte, mas uma ciência da área funcional”.

O espírito crítico “nunca foi um entrave na profissão, pois eu tinha uma entidade patronal, que embora sempre me tenha ouvido, era quem decidia e eu tinha que acatar a decisão”. Questionado se existe alguma obra que fez e com a qual não concordou, o arquiteto aponta “pelo menos uma”. E revela que “tratou-se do bar no largo da feira da Senhora Aparecida, cujo solução de alargamento adotada não me fazia sentido, por não respeitar os antecedentes, mas a entidade decisora aprovou”.
Neste contexto, também não concordou “com a alteração ao projeto inicial do pavilhão de ténis indoor, no Complexo Desportivo” e justifica que “ali não devia haver pilares no meio, pois em vez de uma grande nave desportiva ficou-se com quatro espaços, por uma questão financeira, eliminando-se assim a existência dum grande pavilhão.

Tendo trabalhado sob a direção de dois presidentes de Câmara, questionamos sobre as diferenças que observou em ambos os casos. “O Dr. Jorge (Magalhães) era mais contido e mais interno, não gostava de entregar trabalhos de arquitetura fora da Câmara”, afirma António Neto. Um exemplo disto são “os projetos que desenvolvidos pelos técnicos da câmara poderiam trazer vantagens não só do ponto de vista arquitetónico mas também do ponto de vista financeiro”.

Contudo, “não sou de atirar a toalha ao chão e desistir ou barafustar, pois entendi sempre claramente os papéis do técnico e do decisor político, e o decisor tem sempre que ponderar fatores que escapam ao primeiro”, acrescenta.

O que dizer da evolução urbanística de Lousada? Diz que não concorda “com a opinião de certos arquitetos que defendem que o desenvolvimento de Lousada deveria passar pelo aumento da cércea, ou seja, prédios com mais pisos”. Para este especialista, a “cércea baixa deve ser mantida, com rés do chão mais 4 pisos”, pois considera que “a partir daí é um absurdo”. Defende isso na mesma razão “do Dr Jorge Magalhães, que pretendia um espaço urbano humano” e menos edificado.

EM DEFESA DA MEMÓRIA LOCAL

Na ótica deste arquiteto “existem incongruências no urbanismo e no PDM que não compreendo, como é o caso de uma unidade hoteleira poder ter mais pisos que os outros prédios, assim como não concebo que nas freguesias com aglomerado consolidado na tipologia de r/c mais dois pisos e só porque o PDM permite, passe a ter prédios de r/c mais três pisos. Isso perturba.”

No seguimento desta abordagem António Neto declara que “o poder económico tem muito peso e vê-se muita aberração arquitetónica”. Ainda acerca do PDM, “é um instrumento de planeamento, que tem de prever o desenvolvimento, mas é preciso ter em conta que a lei é uma coisa e o bom senso é outra”.

Muito querida para si é a “recuperação e a continuidade do tipo de construção” e nesse sentido lamenta que “em certos sítios a memória seja apagada, destruída, e o papel do arquiteto deve ser o de reconstruir ou construir algo que tenha referências históricas”, mas salienta que “deve-se preservar sem afetar a funcionalidade”.

Arq.º Neto

Das obras que criou para Lousada, muitas poderiam aqui ser destacadas. Desde logo a reconstrução dos Paços do Concelho e o edifício dos serviços técnicos da Câmara, assim como o Espaço AJE, na rua dos Bombeiros, a rotunda das bolas, chamam atenção. “Voltava a fazer tudo na mesma”, diz com convicção.

Entre as suas criações, há duas que são uma espécie de “meninas dos olhos”, mas que não cumprem o propósito para que foram concebidas. “Lamento que o projeto praça do Senhor os Aflitos não tenha surtido o efeito desejado, que era a criação de um espaço de convívio cívico e lúdico, que despojado do mobiliário (pérgolas e bancos) acabou por eliminar o objetivo inicial do projeto”, refere o projetista. Outra obra que “ficou aquém do desejado, foi o palco do parque urbano, que em termos de projeto deu muito que fazer, ficou uma obra aliciante, mas inacabada e pouco explorada”.

Do futuro diz que se vai dedicar ao que mais gosta na arquitetura: recuperar memória. Tem trabalhos já a decorrer e “dão imenso que fazer, pois reconstruir é muito complexo, é preciso ir a fundo, respirar o local para intervir sobre ele”.

Também aqui ficam patentes obras de referência deste arquiteto, quando nos deparamos com as reconstruções das igrejas de Nevogilde, Senhor do Padrão em Santo Estêvão, Boim e São Miguel, por exemplo. Desta e de mais variadíssimas formas, António Hermano Neto deixa marca indelével na arquitetura lousadense.

António Neto, esposa e filho

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Montalegre voltou a ser palco de mais uma jornada intensa do Campeonato Nacional de Rallycross...

Os maiores inimigos da liberdade, ironicamente, são, precisamente, aqueles que dizem ser os seus...

Editorial 163 | Pseudo Abrilistas

São 52 anos de Abril, 50 anos da Constituição da República e, muito em breve, 50 anos do Poder...

Quando a igualdade falha, a democracia enfraquece

Fala-se frequentemente de democracia e liberdade como valores adquiridos, quase garantidos, em...

Lousada não tem donos

Há um tipo de poder que não se impõe pela força. Instala-se devagar, em silêncio, aproveitando a...

Bombeiros de Lousada apelam às pessoas para consignarem o seu IRS

Sem custos para os contribuintes, ao preencher a respetiva declaração anual, eles podem atribuir...

Ferragens Vale do Sousa renovou o Salão de Exposições

DATA ESCOLHIDA PARA RECORDAR O CO-FUNDADORAs Ferragens Vale do Sousa são uma empresa de referência...

Educar com afeto é, antes de tudo, reconhecer que cada criança é um universo inteiro por...

Antes de existirem tanques públicos, a roupa lavava-se nos rios, nas ribeiras ou em pequenas...

Siga-nos nas redes sociais