Ernesto Gonçalves: um homem multifacetado, que se apaixonou pelo ambiente

Ernesto Gonçalves tem 35 anos e é um homem de muitas paixões. Estudou música, formou-se em gestão do património, foi professor e, atualmente, está ligado ao ambiente, trabalhando na autarquia lousadense, sendo um dos rostos do projeto Bio Escola. Quando abraça um projeto, dá o seu melhor, não poupando esforços. Conheça melhor este souselense. 

Como consegue abraçar todos os seus projetos? 

Antes de mais, é a vontade de querer fazer, participar, voluntariarmo-nos, termos gosto pelas coisas que fazemos e ganhamos amor à medida que nos envolvemos nelas. E daí essa dinâmica toda. Também venho de uma família que gosta de fazer diferentes coisas. 

Mas há uma maturidade da sua parte muito interessante, que pelos vistos teve início na história de um café com o nome Ernesto. 

Sou filho de um comerciante de um café. Fui educado lá, não havia tanto enfoque no estudo, no horário para dormir, para estudar, por isso era difícil ter aquelas horas para estudar. Por outro lado, num café, aparecem-nos pessoas de estratos sociais muito distintos e, se nós absorvermos um pouco de cada uma delas, também nos dá muitos conhecimentos ligados às ciências sociais, o que também nos educa muito. Fui educado pelos meus pais, mas muito pelas pessoas que frequentavam o café. 

Como surgiu o gosto pela música? 

O meu pai é muito liberal, curioso, de famílias humildes, e no café dele gostava de ter pessoas diferentes, sobretudo ligadas à música. Ele passou pelo 25 de Abril, e as pessoas ligadas às artes gostavam muito do café do meu pai. Ele próprio incentivava a que aparecessem. Ainda hoje é frequente encontrar naquele espaço uma pessoa que toque cavaquinho, harmónica, ou outro instrumento, pois sente que naquele espaço é ouvido. Mesmo amador, ali tem espaço. E foi por aí que veio o meu gosto pela música. Desde pequenino que dormia ao som de concertos de amigos do meu pai, que experimentavam lá as suas novas músicas, o seu reportório, como por exemplo os Boca Mansa, que é uma banda de referência de Lousada, e muitas outras bandas e outros músicos, que ainda hoje vão até lá e tocam. Foi assim que surgiu a paixão pela música. 

Como surgiu a ideia de criar uma banda musical? 

Aos 8 anos, o meu pai inscreveu-me na escola de música do professor António Pacheco, que é hoje um professor de guitarra no conservatório do Vale do Sousa em Lousada. O professor, com alguns amigos, cantava muitas vezes no café. Tocar música clássica não era o que me fascinava. O meu pai ouvia os vinis dos Doors, Dire Straits, Pink Floyd, e acabei por desistir da música clássica. Sou uma pessoa ansiosa, que não gosta de estar parada e roo as minhas unhas. Como deve imaginar, ao tocar guitarra veem-se as mãos e eu tinha vergonha naquela altura.  

Nos anos 90, tínhamos na nossa rua um grupo de amigos. Encontrávamo-nos e reuníamo-nos numa garagem. Recordo-me, que pedi ao meu pai para ir para a música com 14 anos e ele aí não me deixava. Agora tinha de ser eu a mostrar o meu interesse pela música, e assim foi: quer chovesse ou estivesse sol, lá ia eu a Figueiró para a escola de música do António Pacheco. Se calhar foi por causa disso mesmo que já levei mais a sério.

A partir desse momento, eu trouxe algumas peças para tocar junto com os meus amigos e, nesse convívio, convenci os meus colegas a inscreverem-se na música para criarmos uma banda. A partir desse momento, criamos os Needle Fish, nome que ainda hoje está pintado na porta dessa garagem. Era um motivo para nós nos encontrarmos e para fazermos alguma coisa. Eu, como incentivador, ia procurar as músicas. Era tudo por cassete. Quando surgiu o primeiro leitor do CD’s,  foi uma grande festa.

Também tínhamos algumas músicas originais. Tivemos momentos bons, fomos cantar as Janeiras… Nas segundas Janeiras já conseguimos algum dinheiro para comprar a nossa primeira aparelhagem. Depois fomos atuando e o gosto pela música vai-se solidificando. 

Apesar de gostar de música, estudou Gestão de Património Cultural e Histórico. Como surgiu esse curso na sua vida? 

Após o secundário, fiz os exames nacionais, e estava preparado para a faculdade, porque queria tirar o curso de música. Os meus pais explicaram-me que tinha mais irmãos  (a minha irmã tem trissomia 21)  e que me ajudavam, mas não lhes seria possível pagar a faculdade. E eu realmente, durante duas semanas, andei revoltado. Depois comecei a trabalhar, mas o dinheiro não chegava. Fiz novamente os exames nacionais com a intenção de ingressar no ensino superior. 

Os meus contratos terminavam sempre em agosto, pois dizia que ia para a faculdade. No terceiro ano, trabalhei no Lidl Restauração, como sapateiro e fiz um montão de coisas. Aprendi muitas coisas, num trabalho digno para quem o faz, mas o meu objetivo era entrar na faculdade. 

No terceiro ano, fiz os exames nacionais, tinha nota para entrar e algum dinheirinho de lado. O que acontece é que cheguei à Escola de Educação do Porto para me inscrever em Educação Musical e soube que tinha de fazer os pré-requisitos em maio. Tinha de esperar mais um ano.

Decidi, então, escolher outro curso. Foi aí que encontrei Gestão do Património Histórico e Cultural, que era uma área que me interessava e gostava de história. Nesse mesmo ano, tive notas boas, mas comecei a ter dificuldades financeiras, ficando sem dinheiro em dezembro. 

Vim para casa, dizendo que não iria para a faculdade, e aí os meus pais ajudaram-me no que podiam. Então, criei a minha escolinha de música. Nesse ano, o curso passou para 3 anos, e eu estava a gostar tanto deste curso, tanto pela aprendizagem como pelos professores, que decidi terminar.  

No terceiro ano, fiz Erasmus, o que foi muito importante, a nível cultural, principalmente. Depois fiz uma nova inscrição num curso de música e fui para Bragança estudar. Ficava caro, a escolinha não chegava, e então eu enviei currículos para as câmaras municipais, para as AEC’s. Foi então que fui chamado pela Câmara Municipal de Paços de Ferreira para substituir uma professora. A partir desse momento, congelei a matrícula em Bragança. Nesse mesmo ano que fui pai.  

Dedicou-se aos mais novos… 

No trabalho de educação especial em Paços de Ferreira, coloquei logo grande dinâmica. Estava cheio de ideias, pois tinha terminado o curso. Também tinha jeito para a música com a formação que fiz… Aqui, as professoras titulares, no final do ano de trabalho, com gravações de peças distintas, fizeram algo “fora da caixa” e isso fez com que eu ficasse mais dois anos. 

E a escola de música? Como correu? 

Comecei no meu pai como uma fonte de rendimento para me ajudar na faculdade em 2006. Depois, deram-se as eleições na associação CRACS e eu fui convidado para dar lá as aulas. E porquê? Já quando dava aulas em casa do meu pai, com os alunos, fazia as festas de Natal, da Páscoa, da passagem de ano. Era uma forma de mostrar aos pais que valia a pena estarem comigo. Nestas festas, mostrava-se o crescimento. E o presidente da CRACS que foi eleito convidou-me para dar lá as aulas em troca das festas para a comunidade. E assim surgiu a escola de música CRACS. Em muito pouco tempo teve logo um grande número de alunos, pois uns convidavam outros. 

Fez um estágio profissional na Orquestra Clássica na Madeira e na orquestra Studio da Capital Europeia da Cultura… 

Depois de dois anos nas AEC’S em Paços de Ferreira, eu voltei a inscrever-me em música, agora em Felgueiras, e um professor que tinha sido meu no curso anterior alertou-me de que Guimarães iria ser Capital Europeia da Cultura e disse-me para eu enviar o currículo. Eu acabei por ficar lá com as funções de arquivista da orquestra Studio da Capital Europeia da Cultura, com o maestro Rui Massena. Para isso, estive em formação na Orquestra Clássica na Madeira.

A colega que era responsável por toda a organização da orquestra ficou grávida e pediu licença de maternidade. Gostando do meu trabalho, o maestro pediu para que eu acumulasse as duas funções. Juntei à de arquivista a de secretário da orquestra. Durante meio ano eu, com os meus 27 anos, fiquei com a grande responsabilidade da logística e do arquivo da Orquestra da Capital Europeia da Cultura. 

Depois de tantas experiências enriquecedoras, como entrou o mundo do ambiente? 

Gestão de Património Histórico e Natural releva algum património natural. No final da Capital Europeia da Cultura, fiquei desempregado e fui convidado pelo presidente da Junta de Freguesia de Sousela, na altura Adrião Mendes, para investigação do património material e imaterial de Sousela. O objetivo era, no final, criar um site onde as pessoas pudessem conhecer Sousela.

A freguesia tem uma história muito interessante, lendas, tradições, mitos, romarias, crenças, casas senhoriais, etc. Tem muitas oportunidades que podem ser geridas e colocadas num patamar muito elevado. Fui convidado para fazer esse estágio profissional, o que implicou fazer o tratamento da informação e colocá-la à disposição das pessoas.

Surgiram resultados que se denominavam “dinamização do património local, onde eu consegui reunir todos os produtores, artesãos, prestadores de serviços cá da nossa terra e, no dia 5 de fevereiro, consegui que a RTP1 viesse fazer uma reportagem sobre Santa Águeda. Estavam lá 84 expositores.

Mais tarde, consegui convencer essas pessoas a terem todos os domingos uma feirinha em frente à igreja. No final, as pessoas ficaram com pena, pois dever-se-ia ter dado continuidade. Recordo-me de bombardear o professor Luís Ângelo e o Manuel Nunes, pessoas com o conhecimento científico sobre Lousada, e ia-lhes perguntando, mas havia pouca informação sobre o património natural, em relação à flora e à fauna local. 

A partir daí comecei a questionar mais essas pessoas. Terminando esse estágio profissional e após as autárquicas, tentei convencer o agora vereador Manuel Nunes de que era importante levar isto às escolas, o património cultural e natural. Ele convidou-me para fazer então parte de um projeto-piloto, para se desenvolver em Sousela.  

O vereador Manuel Nunes foi seu professor… 

O vereador Manuel Nunes foi meu professor no sétimo ano e, como professor de história, foi um dos meus “influencers” para eu gostar mais de história. Depois surgiu esse projeto em Sousela. Lancei o repto e fizemos um projeto-piloto, LANA, tendo previamente apresentado ao Dr. Manuel Nunes todos os objetivos, todas as dinâmicas e todas as atividades que era importante implementar e qual era o caminho. Nessa primeira abordagem de educação ambiental, os resultados no final do ano letivo foram muitos positivos. Porque todos os alunos queriam continuidade.  

No segundo ano, já estou eu e o Luís Cunha, ele em S. Miguel e eu em Sousela. Ele era biólogo e eu era gestor do património e, combinando estas duas coisas, os resultados foram um sucesso. Alimentando a dinâmica da pedagogia e do sucesso escolar, aliando também ao estudo do meio o património local.  

No terceiro ano, já com a parceria da Universidade de Aveiro, com a Dr.ª Milene e o Dr. Pedro Sá, que é o nosso atual coordenador do projeto Bio Escola, criamos o Bio Escola. É um plano de educação ambiental para todas as escolas do concelho de Lousada, para todas as faixas etárias e para todos os ciclos escolares. 

Gestor do património, músico e ambientalista… Precisou de formação na área do ambiente? 

Há muita gente informada que é pouco formada e outra formada, mas muito pouco informada. A minha formação na área do ambiente vem também muito das formações internacionais que eu tenho tido. Vou lendo e vou estudando muito. 

Quando gostamos de fazer as coisas, o truque é agarrar e estudar. Estudo no campo da biologia mais que os meus colegas. Mas depois tenho a sensibilidade da gestão do património, que é importante. O biólogo investiga e o gestor comunica. 

Tenho a sorte de pertencer a uma equipa de profissionais de excelência, o Pedro Sá e Luís Cunha. Aprendo muito com eles, mas há aqui um foco e o foco é servir a educação ambiental junto dos jovens. Temos feito coisas e vamos inovando.  

Queremos sentir que os outros compreendem a nossa mensagem e que ela é importante para eles, na escola como pessoas e até como profissionais.  Agora com a pandemia fazemos tudo online, fazemos alguns vídeos quando não podemos ir à escola, que os professores podem utilizar. Continuamos a ir às escolas, com mais cuidado. 

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