A cultura popular “louzadense” (II)

Antigamente não existia em Lousada “cantinho” algum em que não se cultivassem produtos agrícolas que davam sustento a toda a população, tanto no consumo próprio de cada casa, como também para serem vendidos nas feiras, festas e romarias e pela altura das festas de ano. E, ainda, criavam-se suínos, galináceos, ovinos e caprinos para a sua alimentação e o gado bovino para ajudar no amanho das terras, nomeadamente para arar e gradar a terra e puxar os carros de madeira.

Os carros de bois, puxados por uma “junta de bois”, devidamente emparelhada por um jugo com muitos orifícios decorativos, guiada pela moça da casa, vestida com o melhor traje que tivesse na “caixa de madeira”, eram apinhados de milho e feijão, centeio e batatas, legumes ou linho, com quatro ou seis fueiros nas laterais do carro que seguravam a mercadoria, lá seguiam para os locais de venda dos produtos ou transportavam o linho para as diversas fases do seu ciclo.

A “matança do porco” era o pretexto para dois dias de festa e folia e para “tirar a barriga de misérias”!… e, nas Festas Religiosas de Ano, nomeadamente no Natal, na Páscoa e no dia da festa ao Orago da terra, o melhor cabrito ou um anho era assado nos fornos de lenha e consumido por toda a família e alguns amigos mais chegados…

Carro de Bois

Em Lousada como noutras terras do nosso país, cada vez mais se verifica uma aculturação entre os povos, pelo que é importante que o interesse pelo folclore, pelas tradições e pela etnografia de cada região ou localidade, seja uma realidade premente e uma necessária atitude em preservar os valores tradicionais, por forma a não apagar completamente a nossa própria identidade local, regional e até nacional, imbuídos na alegria das músicas e cantigas populares e tradicionais, nas coreografias das danças (modas) e no colorido dos trajes.

Por direito próprio da nossa região a nossa cultura popular está bem vincada, ainda hoje, por um lado, nalgumas situações de superstições, lendas e ensalmos, muito próprios das gentes do campo e por outro lado nas vivências mais ou menos estabelecidas, como os temperilhos e remedilhos, o artesanato, na gastronomia, na música e cantigas, mormente na poesia popular e consequentemente no Folclore.

O lousadense era e ainda é, na generalidade, um povo trabalhador e mesmo doente, enquanto se podia arrastar, trabalhava e labutava, sacrificando por vezes a sua vida ao amanho difícil dos seus campos e ao sustento da sua família, principalmente da sua mulher e filhos. A mulher tinha tarefas específicas na vida do casal e não menos importantes mas menos pesadas. Uma das mais cansativas atividades agrícolas que estavam destinadas às mulheres estava na sacha do milho. Ora, na faina dos sachos, aguentando o calor de junho e julho que lhe queimava a pele e inundava de suor e as cobria de pó asfixiante, sachavam o milho.

Os homens carregavam às costas pesados molhos e cestos de erva ou de enxada em punho, cortavam no monte o mato que lhes havia de dar estrume e forrar as “córtes” do gado e ainda descalços, correndo entre o milho para melhor aproveitar a água que vinha pelos regos, de lá de longe, ou ainda no rigor do inverno aguentando o trabalho da poda, encarrapitados nos bardos e nas ramadas de videiras, o lousadense nem tempo tinha para pensar na sua saúde.

Fazia do trabalho a alegria de viver e esta alegria dava-lhe saúde e força e uma vontade férrea que vencia todos os obstáculos e resolvia muitos problemas. Poucas vezes iam ao médico e os medicamentos usados nas mais variadas doenças eram feitos em casa, usando vários tipos de ervas para fazer chás e defumadoiros. Mas, o remédio principal era Deus, dizia o povo na sua linguagem mais ou menos crente, combinando os preconceitos a práticas ingénuas ligadas à religião e em que a doença era afastada também com rezas e benzeduras… Curandeiros de profissão não havia, mas “bruxas” e “feiticeiros” havia coisa que chegasse!…

O povo “teceu” sempre diversos contos que foram passando de geração em geração e chegaram até aos nossos dias como um legado aos mais novos e a poesia, principalmente em forma de quadra, também chegou aos nossos dias, num registo memorial, virada para o pudor e cautelas no namoro, para o amor, para os santos populares e para os padroeiros das freguesias, mas também para o escárnio e maldizer, para os ciúmes e invejas, e muitas das vezes continha uma sátira à vontade enorme de casar ou de ver a filha casada, mas, principalmente direcionada para os usos e costumes do povo, nomeadamente nos trabalhos do campo, nos cantares ao desafio e para animar e arranjar condições para galantear e namorar as moçoilas…


A religiosidade e a crença também eram aproveitadas para serem versificadas. Incluídas em inúmeras quadras e cantigas dedicadas à devoção Mariana, aos Santos e Oragos das freguesias e aos “advogados” de muitas doenças, bem como às rezas e aos deveres dominicais demonstravam a criatividade e inteligência, daqueles que sem saberem ler nem escrever, construíam, muitas das vezes de improviso, versos moralizadores. Próximo Tema: “A POESIA POPULAR”

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