Uma vida dedicada à defesa da atividade agrícola no concelho

Francisco José Ribas de Meireles, natural de Caíde de Rei, de 63 anos, está, desde novo, ligado à atividade agrícola, que “herdou” do pai. Seguindo as pisadas do avô, fundador da Adega, cedo se ligou à Cooperativa, assumindo atualmente as funções de presidente.

A chegada à posição de liderança deu-se por um triste acaso, o falecimento do anterior presidente, Luís Pinto da Silva, professor, agricultor e vereador da Câmara Municipal de Lousada. Uma vez que era suplente, Francisco Meireles assumiu o cargo. Foi em novembro de 2010.

Francisco Meireles esclarece que sempre fez parte dos órgãos sociais da Cooperativa. Por isso, recorda-se bem que, “antigamente, era o Grémio da Lavoura, que era naquela casa ao lado do Pelourinho (o antigo Paddock). Tinha um balcão de madeira. Dali passamos para a frente do Pelourinho, no edifício do Pelourinho, e depois passamos para aqui, nestas instalações da Rua Palmira Meireles”, conta.

Estas instalações foram sujeitas a uma remodelação forçada em virtude dos danos causados por um tornado em maio. Esta intervenção aumentou a área de armazenamento, melhorou as condições térmicas do edifício e o auditório, que também foi alvo de obras de melhoramento, sendo a inauguração das instalações nas Jornadas Agrícolas.

Voltando à história, o supermercado começou por acaso quando um diretor se lembrou de vender bacalhau no Natal. A venda de bacalhau foi um sucesso tal que se começou a vender também mercearia, o que se verifica ainda no presente. Corriam os anos 70.

IV Jornadas Agrícolas do Vale do Sousa são já este sábado

Francisco Meireles olha para a cooperativa como a sua segunda casa. Como é natural, o apego ao lar faz-se sentir e, por isso, admite que irá continuar em funções: “É aqui que passo a maior parte do meu tempo nestas duas casas”. E não é tempo perdido: “Acho que vale a pena, e estou a ter resultados positivos”, afirma, acrescentando que a Cooperativa é conhecida a nível nacional: “Sinto orgulho por ser presidente e sou visto com respeito, a nível nacional. A prova são estas jornadas”. As jornadas de que fala são as IV Jornadas Agrícolas do Vale do Sousa, que se realizam em Lousada, na sua perspetiva, importantes para darem a conhecer o trabalho desenvolvido e a própria cooperativa. “Este evento é importante pois é uma forma de valorizarmos a agricultura e motivarmos as pessoas”, diz, esperando que a iniciativa corresponda às expectativas.

Francisco José

Homem de ação, Francisco Meireles não para e queixa-se da falta de tempo para fazer tudo, especialmente quando coexistem várias prioridades: neste caso, organizar o evento das Jornadas e finalizar as obras em curso tem sido atividades difíceis de conciliar.

Embora a COPAGRI tenha uma longa tradição, não está alheada da modernidade. O presidente diz mesmo que é a cooperativa mais moderna: “Os lousadenses sentem orgulho desta casa, pois somos a cooperativa mais moderna”, afiança. Atualmente a Cooperativa tem cerca de 2000 sócios, que usufruem das vantagens de cooperantes: “Nós temos preços, pois a situação económica da cooperativa permite comprar os produtos a bom preço e sem recorrer à banca. Desta forma, conseguimos competir com as outros comerciantes”. Também não se queixa da relação da instituição que representa com os lousadenses e com outras instituições do concelho, com quem tem tido “uma relação sempre muito boa” e salienta o apoio da Câmara Municipal. Garante que na Cooperativa “não entra política”: “Temos cerca de dois mil sócios e temos pessoas de todos os quadrantes”, salienta.

Sem obter dividendos financeiros de relevo pelo trabalho que faz, reconhece que está na cooperativa “por carolice”: “Temos uma senha de presença, fora isso não temos nada”. Mas, quando se anda por gosto, não se cansa, é esse é o segredo do sucesso. Aliás, Francisco Meireles vai até mais longe e afirma que “tem de haver esse espírito de carolice, se for de outra forma, tem mau resultado, está tudo estragado”. Reconhece, no entanto, que se dedica muito à Cooperativa para “puxar pela nossa agricultura”: “Defendemos o nosso agricultor e muitas vezes não defendemos mais porque não podemos”, garante, acrescentando que quem fica a perder é a família, à qual gostaria de dedicar mais tempo.

Formação em agricultura para os jovens precisa-se

O presidente lamenta que não haja mais gente em Lousada para renovar a agricultura, sobretudo mais jovens. Salienta também o papel relevante da formação destinada ao agricultor: “É indispensável. Até estamos a pensar dar um curso agrícola de equivalência ao 9.º ou 11.º ano, para que saíssem daqui tecnicamente formados para tomarem conta das explorações dos pais. Nós temos formação, mas apenas a obrigatória, precisamos de formação quase de berço, tinha de começar desde pequenos”, defende. E dá o exemplo da escola agrícola do Marco de Canaveses, que oferece cursos profissionais: “Já tentamos, mas é um projeto que vamos conseguir implantar, temos espaços para isso. Lousada é um concelho com potencialidade agrícola, é importante apostar no setor primário. Os filhos dos agricultores serão o nosso futuro”, acredita.

Meireles reconhece que montar uma exploração agrícola fica muito caro e que o resultado do investimento não é imediato. Por isso, custa-lhe ver um proprietário de uma exploração agrícola não ter continuador. Portanto, crê que é importante incentivar os jovens: “Tudo está evoluído, já envolve a informática, novas técnicas e falta o mais importante, que é gente nova para a agricultura. Só acredito se houver formação”, reitera.

Adega salva pela cooperativa há oito anos

A família de Francisco Meireles está, desde o início, ligada à cooperativa: “O meu avô foi um dos sócios fundadores da Adega, e eu praticamente nasci com a Adega. Afeiçoei-me sempre muito àquela casa”. Tendo a sua vida ligada desde sempre à Adega, foi com tristeza que viu “aquela casa a decair constantemente de ano para ano e os associados cada vez a fugirem mais”. Foi aí que tomou uma resolução: “com esta casa financeiramente bem, lembrei-me de tentar unificar as duas cooperativas e foi esse o meu propósito quando me candidatei à Adega”. Como unificar se revelou difícil, com o aparecimento das novas regras do código cooperativo, a cooperativa comprou trinta por cento da Adega. “Agora vou avançar com a unificação, pois é já possível e importante, pois têm muita força as duas juntas. Acabou por ser para a adega uma solução económica e que a fortalece muito”, explica.

Vinhos de excelência

A Adega neste momento está bem, depois do período crítico: “Temos mais confiança dos sócios, temos mais e melhores vinhos, com qualidade superior. Antigamente, só vendíamos vinho a granel ou ao garrafão… Temos um espumante e um frisante de excelência e os vinhos também são de excelência, e isto deve-se a estarmos aqui numa zona de arintos”, refere.

Foi assim ultrapassado um desfio difícil, mas como diz Meireles, “tudo o que é fácil não tem piada, temos é de vencer o que é difícil”. A cooperativa assumiu as compras da Adega e faz a distribuição dos vinhos, uma solução que lhe agrada.

Grande projeto para a Cooperativa

O presidente garante que, atualmente, a cooperativa é sustentável. Estão, portanto, reunidas as condições para outros projetos “grandes” para a instituição: “Um deles é um investimento grande, que vai ser a requalificação do edifício do Pelourinho, onde estava antes a AMI. Esse projeto vai tornar o espaço mais confortável e com maior capacidade, permitindo alcançar outros objetivos”, conta.

Adepto da marca Lousada, defende a terra e o que é seu. “A marca lousadense é muito positiva, eu sou um lousadense, dedico-me muito aos lousadenses, tudo o que fazemos é lousadense”.

Apesar de se empenhar pelo desenvolvimento de Lousada, nunca enveredou pela política. Porquê? “Não tenho jeito nenhum, gosto de me meter no que sei minimamente. Não tenho pachorra”, afirma, falando da ideia de corrupção muito associada aos políticos: “Deviam de pensar mais no cidadão comum e não neles próprios. Verifico sempre que há ali um bocadinho de interesses”, refere, contrastando com a atitude de quem está na cooperativa: “Temos de fazer o nosso melhor e defender a nossa casa, pois verificamos várias cooperativas em dificuldades”, explica. Felizmente sente-se tranquilo por ter “a noção de que estou numa cooperativa forte viável, não dependemos de banca para trabalhar”, garante.

▐ Manuel Pinho
diretor@olouzadense.pt

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