Delfina Campos: Uma vida dedicada aos mais pequenos e aos carenciados

Delfina Morais da Silva Campos, natural de Nevogilde, de 68 anos, dedicou grande parte da sua vida ao ensino. Nasceu no lugar do Monte, próximo da igreja, designação elucidativa das características do local, como explica: “Há uma diferença abismal. Houve uma grande evolução, pois era quase tudo monte e campos. Lembro que havia a estrada principal e carreiros, que ligavam os lugares. Agora, felizmente, está tudo diferente. Os meus avós se cá voltassem não saberiam localizar o lugar onde viveram”.

O gosto pelo ensino surgiu cedo por influência do pai, Joaquim da Silva Campos, que “queria mesmo muito que eu fosse professora”, conta. Mas, naquele tempo, o percurso não foi fácil: “Tinha de acordar muito cedo, para ir para a Escola Industrial em Penafiel. Ia cedo para Lagoas para apanhar o autocarro”. Foi, portanto, em Penafiel que fez o 10º ano. O passo seguinte foi o Magistério Primário no Porto, o que a obrigava a acordar ainda mais cedo.

Mais de três décadas como professora

No início da década de 70 começou a lecionar. “Na altura, começávamos a trabalhar no dia 7 de outubro. Era o dia seis e ainda não sabia o que iria acontecer. A primeira vez que lecionei foi na Aparecida, em 1971. Tive quatro classes e, na altura, havia a separação entre a parte masculina e a parte feminina. Foi a primeira experiência”, recorda. Delfina esteve na Escola Primária do Rio três anos, mudando-se de seguida para o outro extremo do concelho, Lustosa, onde lecionou a quinta classe durante um ano. Seguiu-se a freguesia de Idães, em Felgueiras. Numa época em que ser professor era garantia de alguma estabilidade, Delfina fixou-se na Escola Primária de Nevogilde, onde lecionou até ao fim da carreira, de 32 anos. “Uma vida de dedicação, trabalho e empenho”, sintetiza.

Uma vida dedicada aos meninos de Nevogilde, mas também ao seu, pois Delfina casou em 1977 e tem um filho. Tentou, como explica, tratar todos os alunos sem discriminações: “Muitas gerações de nevogildenses passaram por mim. Procurava sempre ajudar os que tinham mais dificuldades”. Ao longo dos anos, defrontou-se com situações de alunos que tinham certas carências, o que, às vezes, levava à indisciplina. Mas também recorda os alunos excecionais, com muitas expectativas. “Sempre quis o melhor para os meus alunos”, refere.

▲Foto de uma turma da professora Delfina em Nevogilde em 1982

Terminou a carreira aos 52 anos de idade, com um almoço de despedida, “uma coisa simples”. Convencida de que, enquanto professora, procurou fazer sempre a sua obrigação, reconhece, que “nem sempre foi um mar de rosas, mas sinto que as pessoas me estimam aqui na freguesia”. A ex-professora mostra-nos algumas cartas e mensagens de ex-alunos reveladoras do afeto que nutrem por ela. “Professora mais querida do mundo”, “professora mais bonita do mundo”, “pessoa muito especial”, “melhor e mais carinhosa de todos os professores” são apenas algumas das palavras que adoçam o coração de Delfina.

Do passado, ficaram as saudades: “Sinto saudades desses tempos, dos meus alunos, dos meus colegas e auxiliares”.

Olhando para o ensino no presente, considera-o muito diferente: “Quando comecei a trabalhar, tinha 46 alunos com os quatro anos na mesma turma. Isso agora era impossível, era difícil”. Lembra também o rigor dos exames: “Havia exames no quarto ano de escolaridade.”

Conferência Vicentina ajuda os mais carenciados

A dedicação aos mais novos não se ficou pela escola. Delfina foi também catequista. Assume que tem uma relação com a religião católica muito forte. Por isso, foi uma das pessoas responsáveis pela revitalização da Conferência Vicentina: “Numa altura, o padre anterior, Manuel António Mendes, teve a ideia de reativar a conferência. Falaram-me e eu entrei. Isto foi em 2001”.

Como explica Delfina, “a conferência em si não tem como objetivo principal ajudar materialmente as pessoas. Também o faz, mas é mais dar apoio moral e psicológico, fazendo visitas, falando com as pessoas”. Apesar disso, a Conferência Vicentina tem “a vertente económica, pois temos o apoio do Banco Alimentar. Vamos lá, uma vez por mês, buscar os géneros, que depois são distribuídos pelas famílias mais carenciadas”.

A ajuda não se fica por aqui. Também tentam ajudar os mais carenciados com a disponibilização de camas articuladas e material ortopédico: “Fizemos uma rifas para o primeiro material ortopédico”, conta. Com empenho e muito trabalho, em articulação com todos os elementos e a participação dos Amigos da Conferência, o acesso a esse material tornou-se mais fácil.

“Os amigos da conferência” contribuem com uma quota anual, importante na prestação do auxílio à população e que permite disponibilizar o material na área da saúde de que a freguesia precisa. “Mesmo que as pessoas não contribuam financeiramente, vemos as suas condições e procuramos ajudar”, esclarece Delfina.

As Conferências Vicentinas em Lousada estão espalhadas por 13 freguesias. “Nós ajudamos as pessoas todos os meses e, pelo Natal, há uma empresa que nos dá um determinado número de cabazes, que nós distribuímos, pois temos aqui muitas famílias que precisam desta ajuda”, refere. Apesar de tudo, admite que “já houve mais pobreza. Já distribuímos por mês 43 cabazes e agora temos cerca de 30 cabazes. Há muita pobreza envergonhada, mas a nossa conferência é uma porta aberta. Não temos visibilidade e, por isso, as pessoas procuram-nos”, explica. Quem precisa de ajuda pode, portanto, bater à porta da Conferência Vicentina: “As pessoas, quando precisam, vêm, e o processo é feito anualmente, mas felizmente há pessoas que, no meio do ano, deixam de necessitar de ajuda”.

▲Delfina Campos ao lado do seu marido Fernando Pacheco

Delfina explica que o trabalho que realiza em prol dos outros é uma obrigação moral: “Se eu posso fazer isso em prol dos outros, é a minha obrigação moral”. Apesar de, muitas vezes, as pessoas acharem que há pessoas apoiadas que não precisam, Delfina garante que não é assim: “Temos procedimentos que justificam o apoio. Eu faço o processo e procuramos ajudar as pessoas a ultrapassarem uma altura mais difícil da vida”.

Para a ajuda ao próximo, todas as mãos são poucas: “Somos poucos, precisamos de mais pessoas. Aqui são à volta de dez pessoas”, diz. Delfina foi substituída pelo marido, Fernando Pacheco, industrial, na liderança do grupo e explica porquê: “Na conferência não podemos estar sempre como responsáveis.

Ajudar os outros nem sempre é tarefa fácil: “Quem quer vir para aqui para ajudar tem de ter noção de que vai trabalhar para o próximo, que vai dar e não obter qualquer vantagem.

União em torno da construção de um Centro de dia é importante
Apegada à terra que a viu nascer, Delfina Campos considera Nevogilde uma freguesia diferente de todas as outras, possuidora de “um encanto” e, por isso, está fora de questão qualquer mudança mais duradoura: “Murça é uma terra de que gostamos muito, mas nem pensar em mudar. A minha terra é a minha terra, Nevogilde. Amo a minha terra e sua gente, com qualidades e defeitos”.

Gosta da Terra e das festas, considerando a união em torno das festividades importante. Apesar disso, não deixa de referir “algum exagero, pois há outras coisas importantes, para as quais a freguesia deveria olhar com a mesma objetividade. Refiro-me, por exemplo, à falta aqui de um centro de dia, que é uma grande necessidade. Acredito que, se houvesse a união e o esforço que há em torno da festa, conseguiríamos resolver esta necessidade. É importante haver mais união para resolver estes problemas, uma união entre todas as forças vivas da freguesia. Eu, por exemplo, gostava de ficar aqui e terei certamente de ir para um lar em Lousada”.

Ao lado, o marido, também natural de Nevogilde, relembra que, antigamente, a festa era “mais pequena, só com a noitada de sábado, com as bandas de música e a procissão no dia seguinte”. Mas o bairrismo tem “contribuído para a qualidade das festas, pois ninguém quer ficara atrás do outro. As pessoas começaram a ganhar orgulho nas festas”, refere.
Também ele foi festeiro. Recorda que “trouxemos um grupo, que era constituído por Mácio Ivens, um brasileiro, e as Tatianas, que eram as bailarinas”. O cartaz, na altura, não foi do agrado do pároco: “Dizia ‘não têm vergonha, trazem para aqui mulheres nuas’”. O certo é que, “a partir daí, começaram a modificar e a apresentar melhores artistas. Passaram mais alguns anos, aumentaram a festa para sexta-feira e, mais tarde, criaram as marchas. No meu ano, os artistas só vinham no sábado”, recorda.

Devota da Senhora d’Ajuda, “a nossa mãe, a nossa senhora”, Delfina sente que é ela quem a ajuda também a “fazer um pouco pelos outros. Enquanto eu puder, irei continuar”, garante, acrescentando que várias situações a marcaram ao longo dos anos: “Ajudar estas pessoas é o grande objetivo da Conferência Vicentina”.

Delfina Campos passou ainda pela política partidária. Foi presidente da Assembleia de Freguesia entre 1982 e 1986 e integrou a Comissão Política Concelhia do PSD como secretária da Assembleia.

Reformada, Delfina arranja algum tempo para se dedicar a uma paixão: a jardinagem. “Tenho de ter muitas flores, pois tenho de assear a sepultura do meu pai e dos meus avós, mas também porque gosto muito”. Também usa as flores para adornar o altar de Santo Amaro, na Capela da Senhora d’Ajuda, atividade que realiza com zelo.

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