por | 24 Ago, 2019 | Canto do saber, Sociedade

Eventos, do delírio à estratégia

Ao contrário do que muitas vezes se propala, existe muita actividade na sociedade, promovida pelos cidadãos que se associam por este ou aquele motivo. Esta actividade consubstancia-se , normalmente, em eventos pontuais que são levados a cabo , na maior parte das vezes, numa lógica de voluntarismo de um ou de alguns, que se dizem estar disponíveis para o trabalho para a comunidade, mas que , de facto, acabam por ser exercícios de afirmação pessoal, que servem invariavelmente para alimentar egos e definir objectivos aos que mais tarde estarão em posição similar.

Ciente desta realidade, a política , sobretudo a autárquica , “ recruta” ( uns dirão , captura ) quer os voluntariosos quer os eventos, que incorpora na sua actividade, dando relevo a essas actividades.

Temos assistido nos últimos anos, a um recrudescimento , por parte das autarquias, do número de eventos que apoia ou leva a cabo, uns que incorporam as situações descritas acima, outros que aparecem formatados por uma indústria emergente, que faz rodar o mesmo tipo de evento com nomes similares pelos diferentes concelhos com pequenas nuances.
O que caracteriza estes eventos é que são pontuais e raramente incluem o tecido empresarial/comercial local, isto é , o negócio fica , quase sempre, destinado a actores de comércio itinerante ou aqueles que só são empresários nesse evento.

Toda esta actividade, que vai sendo, muitas vezes, sufocante, possui os seus méritos. Para o cidadão porque permite que este tenha à sua porta realizações que muitas vezes só existiam noutros locais e constitui-se , de alguma forma, como mais uma justificação para a sua fixação em determinado local, aumenta a sua sensação de qualidade de vida, etç. Para as autarquias, estes eventos, que são muito mais baratos do que eventual investimento estruturante, aumenta o sentimento do bom trabalho por parte do executivo autárquico e ajuda a que o trabalho deste possa decorrer de forma mais fluida.Para os políticos, sobretudo os com responsabilidades autárquicas, é a forma de se ligarem à população,que não dispensa a sua presença nos eventos e vice-versa, numa torrente de visibilidade, mais ou menos tática que só tem um objectivo, a manutenção do poder de todos os personagens em presença.

Não é contudo a actividade autárquica que está em causa, pois ela é essencial no serviço às populações, cheia de dificuldades, sobretudo em concelhos mais pequenos, onde os desejos de cada um chegam de forma mais fácil a quem tem a responsabilidade de gerir o presente e projectar o futuro. No entanto a actividade autárquica, seja ela por cada município em si próprio, seja por associação dos mesmos, deve incorporar uma componente estratégica que possa de facto criar valor acrescentado à região onde estão inseridos.

É absolutamente essencial começar pela avaliação do impacto real sobre a economia e os processos sociais da região, de projectos existentes e de toda a série de eventos pontuais. Especulações existem muitas, conforme se está no poder ou na oposição, mas estudos não existem.

Depois, é a objetivação de qual o melhor caminho para a criação de valor acrescentado para as populações. No caso do vale do Sousa e em concreto o caso de Lousada, as oportunidades giram sempre em torno de trabalho indiferenciado, no geral mal pago ou , com a “doutorização” crescente da comunidade, qualificado de pouco digno.

Desta forma, se por um lado, o aumento da população, em termos de captação, não deva constituir um desígnio, por outro lado a fixação dos jovens é importante. Os pais hoje, tudo fazem para que os filhos tenham um curso, que casem e vivam junto a eles , muitas vezes um objectivo que é mais deles do que dos filhos, mas que depois se vêm confrontados com a realidade de que o curso e outras vivências, acabam por afastar os filhos para outras paragens. A alternativa passa, muitas vezes, por ter que os sustentar, arranjar um “empreguinho” na autarquia, criar a imagem de que eles são uns génios e que se podem dedicar de imediato, sem preparação, à actividade de profissional liberal, etç, numa lógica de vida pretensamente preenchida pelo lado familiar…

Esta objetivação, passa por dar um sentido a toda a actividade de divulgação que não é compatível com o carácter pontual dos eventos a que assistimos. Há que os classificar, requalificar e encadeá-los numa estratégia que permita valorizar o território e criar aptidão para a criação de oportunidades a partir do exterior. Oportunidades que possam, inclusive, direcionar a juventude no seu objectivo de vida, no que toca à sua formação, ao invés de a mergulhar na aleatoriedade dos números clausus.

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