“Não deixem os vossos sonhos morrer abafados por vozes alheias”, Marta Moreira

Natural de Meinedo, Lousada, Marta Sofia Magalhães Moreira, de 26 anos, decidiu que queria ser jornalista quando chegou ao ensino secundário.

Licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo, reside atualmente em Brasília, capital do Brasil, onde é correspondente da Agência Lusa.

Conheça melhor esta jovem determinada e a sua experiência como jornalista.

Em que altura começaste a sentir que o teu futuro profissional iria passar pelo jornalismo?

Foi algo que fixei como uma meta desde que entrei no secundário. Sabia que o meu futuro profissional iria passar pelas letras, e a ideia do jornalismo foi crescendo.
Acho que os jovens não são devidamente acompanhados na escolha de uma área profissional. Somos basicamente “empurrados” a escolher entre ciências, humanidades, artes ou economia, e, no final desses três anos de ensino secundário, somos obrigados, literalmente, a escolher uma profissão para o resto das vidas, sem que nunca tenhamos ouvido falar de muitas das opções.
Felizmente tive a sorte de ter fixado uma ideia na minha mente, de me ter informado acerca dela, e de ter trabalhado desde cedo para a sua construção.

O que te atrai na profissão?

Sem dúvida que é o facto de poder informar alguém, de poder dar a conhecer diferentes realidades, pontos de vista e partilhá-los. Vivemos numa época em que a comunidade, em geral, despreza o jornalismo, sem realmente se aperceber da importância que ele tem no seu dia a dia.
Hoje o jornalismo atravessa desafios como nunca. As “fake news” vieram confundir as pessoas, colocando o jornalismo e os jornalistas num papel desconfortável. Tentamos passar a verdade dos factos e, ao mesmo tempo, descodificar as mentiras disfarçadas de jornalismo.
A verdade é que as pessoas nunca tiveram tanta informação disponível como nos dias de hoje, e nunca foi tão difícil distinguir aquilo que é verdade ou não. E todos estas barreiras tornam a profissão desafiante, e são uma ótima escola para quem, como eu, está a começar.
No entanto, gosto de saber que o meu trabalho chega a milhares de pessoas e que serve para dar a conhecer, neste caso, realidades que estão a um oceano de distância.

Descreve o teu percurso profissional.

Em 2012, entrei na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, para iniciar a minha licenciatura em Ciências da Comunicação e, desde aí, tentei sempre estagiar ao longo do meu percurso académico, com o intuito de perceber como, na prática, o jornalismo realmente funciona. Aproveitei sempre as minhas férias universitárias para estagiar, tendo começado pelo jornalismo regional, ao estagiar no Jornal de Lousada e na Lousada TV onde aprendi, sobretudo, a saber lidar com situações inesperadas.
Em 2015 concluí a licenciatura e, no mesmo ano, ingressei no mestrado em Jornalismo, em Lisboa, na Escola Superior de Comunicação Social. Aí começou a minha aventura pela capital, e foi onde tive acesso a um jornalismo de maiores dimensões.
No último ano de mestrado, 2017, consegui um estágio curricular de seis meses na estação televisiva SIC, que foi, sem dúvida, uma grande experiência e onde aprendi muito. O meu estágio foi passado no Primeiro Jornal, o que me deu valências de escrita jornalística para televisão e de edição de vídeo.
Mas o jornalismo não se baseia apenas em competências técnicas, mas também humanas. Ao longo dos dois anos que vivi em Lisboa, trabalhei muito na área de eventos e marketing, o que me ajudou a saber lidar com pessoas e a saber comunicar, algo de que o jornalismo vive muito.
Em agosto do ano passado, comecei a trabalhar para a Agência Lusa, como correspondente no Brasil, o meu maior desafio a todos os níveis.

Como surgiu essa oportunidade de trabalhar como correspondente da Lusa no Brasil?

Pouco meses após concluir o Mestrado, recebi uma proposta da Agência Lusa para integrar a equipa de informação da editoria do Internacional e Lusofonia. Na realidade tinha duas propostas em cima da mesa: ou ficar em Lisboa na referida equipa, ou ser a nova correspondente da Lusa em Brasília, capital do Brasil.
As eleições no país sul-americano estavam a aproximar-se e a Lusa tinha intenções de fixar uma jornalista no terreno. A decisão não foi difícil de tomar. Após pensar dois dias sobre as duas possibilidades, escolhi a mais desafiadora, a de ir para o Brasil.
Tinha a noção da responsabilidade e de que ainda tinha muito para aprender, mas sabia que nada me faria crescer mais a nível profissional do que esta experiência.
Contei com o apoio imediato das pessoas mais importantes da minha vida, e essas foram as únicas opiniões que tive realmente em consideração.
Gostaria também de explicar o que é a Agência Lusa e o trabalho que fazemos. A Lusa é a agência de notícias de Portugal, e é também a maior agência de notícias do mundo de língua portuguesa, devido ao facto de enviarmos informação noticiosa para os países lusófonos.
A Lusa tem jornalistas espalhados por todo o mundo, assim como em todo o território nacional, e fornece um serviço noticioso a inúmeros jornais, rádios e canais de televisão portugueses e estrangeiros.

Como está a ser a experiência?

Está a ser ótima. No entanto, estou num país que vive com um pesado fardo, o da violência, e isso realmente foi algo que regeu os meus cuidados no país, nas primeiras semanas.
Mas como estou em Brasília, uma cidade um pouco atípica e diferente do restante território brasileiro, foi possível aprender a sentir-me segura. Os cuidados básicos estão sempre lá, mas não deixo de fazer a minha vida por causa disso.
A nível profissional está a ser ótimo. Tenho uma excelente equipa de editores a ajudarem-me a partir de Portugal, que me dão as melhores dicas, e que me ensinam algo novo a cada dia. Está a ser a melhor escola de todas.
Tenho também a “sorte” de viajar em trabalho, o que já me levou a conhecer outros estados brasileiros, e acho que a beleza natural deste país, de dimensão continental, é o que mais me impressiona.
Tenho de referir a parte menos boa do trabalho, que é aquilo que qualquer pessoa que está afastada do seu país e da sua família mais sente: saudades.
No entanto, apesar de completar um ano de Brasil este mês, já estive em Portugal três vezes, e não há um único dia que não fale com a minha família e com o meu namorado.

Quais as maiores diferenças relativamente a Portugal?

Eu estou a conhecer o Brasil num momento bastante difícil e sei que as circunstâncias mudam a forma como eu vejo as coisas, e como os próprios brasileiros encaram o dia a dia.
Além disso, os brasilienses, habitantes de Brasília, vivem um pouco fora da realidade do próprio país, e acredito que quem visitar apenas Brasília não ficará a conhecer realmente o país.
Posto isto, uma das maiores diferenças que encontro, em relação a Portugal, é o complexo de inferioridade. Os brasileiros com quem me cruzo veem Portugal, e a Europa, como o topo das ambições. Não há um brasileiro com quem me cruze que não diga que tem vontade de ir viver para Portugal, porque “lá é que é bom”.
Outra das diferenças é, sem dúvida, o clima. Neste momento aqui é inverno e estão 30 graus. Não existem as quatro estações, tal como em Portugal. Brasília é uma cidade muito seca e que regista algumas tempestades tropicais durante o Verão.
Também a alimentação é bastante diferente. Aqui, em Brasília, raramente comem peixe (algo de que eu sinto realmente falta), sendo que a alimentação deles se baseia no arroz, feijão e carne.
Porém, tenho de referir a parte má do Brasil, que é a violência, a facilidade com que se mata uma pessoa, assim como intenção de enganar o próximo. É algo realmente assustador. Os números são absurdos.

De que sentes mais saudades?

Da família, namorado e amigos, sem qualquer dúvida.
Relativamente ao jornalismo no Brasil, é diferente exercer aí profissão?
O jornalismo brasileiro está a ultrapassar um momento de forte crítica por parte do atual Governo. Quando um Presidente e demais membros executivos boicotam e lançam ataques diários à imprensa, torna-se difícil exercer a profissão sem sentir pressões.

Qual a experiência jornalística aí vivida que gostarias de relevar?

Por ser estrangeira, nomeadamente portuguesa, sinto que há uma maior abertura e sempre que tento obter algum contacto, sinto que respeitam a minha origem.
Mas já passei por situações atípicas. Na ocasião da campanha eleitoral para as presidenciais, entrevistei uma senhora que se agarrou a mim a chorar, com receio que Bolsonaro vencesse as eleições.
Já fui parar a uma favela por engano no Rio de Janeiro, quando estava a caminho de uma entrevista. A minha entrevistada, quando se apercebeu de onde eu estava, ligou-me aos gritos a pedir para eu não sair do local onde me encontrava, que ela iria mandar um táxi para me ir buscar, porque era demasiado perigoso eu ali estar.
São alguns exemplos que acabam por ilustrar a situação que o país vive.

(Brasília – DF, 19/07/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante café da manhã com Jornalistas. Foto: Marcos Corrêa/PR

Entrevistaste já Bolsonaro, uma personalidade, no mínimo, controversa. Como o descreves?

Falei com Jair Bolsonaro a convite da equipa do próprio. O Presidente iria receber a imprensa estrangeira para um pequeno-almoço, algo que o próprio fazia com alguma frequência com os jornalistas locais. Ao longo da refeição cada jornalista poderia colocar uma ou duas questões.
Bolsonaro mostrou-se bastante duro ao longo de todo o encontro, principalmente com quem o questionava acerca das suas políticas ambientais, mostrando que não está na liderança do país para ouvir opiniões contrárias às suas, mas para levar adiante os seus ideais.
Nessa ocasião proferiu declarações bastante polémicas, que só serviram para adensar a sua imagem “controversa”

É uma ambição voltar a Portugal, ou sentes que é aí o teu lugar?

Sem dúvida que pretendo voltar a Portugal. Quando o momento certo chegar, talvez quando a situação do Brasil “acalmar”, estarei de volta. O tempo o dirá.

Que conselhos darias aos jovens que estão a pensar seguir jornalismo?

Que nunca tenham medo daquilo que as vozes mais cautelosas e conservadoras vos possam dizer. Sempre cresci a ouvir frases como “Vais para jornalismo? Isso não tem saída nenhuma”. Quando fui para Lisboa as frases passaram a ser outras “Vais para a capital? É um mercado tão lotado, cheio de competição”. E quando decidi ir para o Brasil, a história repetiu-se: “Vais para o Brasil? Estás maluca? Com aquela violência? vais deixar as pessoas que te são importantes cá?”.
Todas essas frases que ouvi estão corretas, tudo isso é verdade, mas a vontade de cada um tem de ser superior a qualquer outra. E tive a sorte daqueles que me são mais próximos sempre me terem incentivado.
Por isso, o meu conselho é para que não deixem os vossos sonhos morrer abafados por vozes alheias.

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