A POESIA POPULAR (III)

A vida das pessoas de antigamente tinha nas relações pessoais e na sua identidade uma forma muito peculiar de ser tratada, pois toda a gente se conhecia, principalmente no mundo rural.
Os homens na tasca (taberna) e as mulheres no lavadoiro público ou no rio enquanto lavavam a roupa, falavam da “vida alheia” e a intriga criava problemas do “arco da velha”, principalmente nas relações entre casais e entre namorados e, quando surgiam escaramuças entre vizinhos e invejas entre eles, principalmente por causa dos bens de uns e de outros, nomeadamente no “desvio” das águas que regavam os campos de cada um, terminava a discussão quase sempre em “sacholadas” na cabeça do parceiro, ou então “jogava-se” a vara de tanger os bois, no corpo daquele que se queria atingir.
Dessas vicissitudes, aparecia sempre alguém que nos encontros sociais, nos trabalhos do campo ou nas feiras e festas, fazia troça ou ria, “cantando” versos que criava:
I
Subi ao céu por uma linha
E desci por um novelo
Aqui neste lugar mora
Quem tem dor de cotovelo!…
II
Óh que pinheiro tão alto
Com tanta pinha no meio
Óh que meninas bonitas
Filhas de um homem tão feio!…
III
Falaste de mim, falais doutra
Não olhais para vossa casa
Quando a minha fumega
A vossa já arde em brasa.
IV
Quem tem janelas de vidro
Não pode atirar pedradas.
Atiraste às do vizinho,
Ficaram as tuas quebradas.
V
Por eu ser muito alegre
Levantaram-me uma “fama”
Mas eu sou como o pinheiro
De seco conserva a rama.
VI
Julgavas por me deixares
Que eu de paixão morreria
Vai um amor e vem outro
Vivo na mesma alegria
VII
Pensavas que eu te queria
Meu calça rota no cú.
Ainda penso em arranjar
Coisa melhor do que tu!
VIII
Menina não te enamores
De um homem casado que é perigo.
Enamora-te de um solteiro
Que possa casar contigo.
IX
Solteirinha não te cases
Goza-te da boa vida
Eu já vi uma casada
A chorar de arrependida.
Quase toda a gente da aldeia era conhecida por alcunhos, pois os nomes próprios das pessoas resumiam-se a dois ou três nomes, mais comuns, nomeadamente nos homens: António, Manuel José e Joaquim e nas mulheres: “simplesmente” Maria, Ana e Conceição. Não havia mulher nenhuma que não tivesse no seu nome Maria. Grande parte das mulheres chamavam-se somente Maria de Jesus, ou Maria da Conceição (haveremos de explicar porquê).
O alcunho, geralmente tinha um valor depreciativo e utilizava-se em substituição do nome próprio de uma pessoa ou acrescentava-se a este. Normalmente revelava uma característica particular física ou moral ou descendia dos familiares “direitos” ou estava relacionado com o local da sua habitação.
No entanto, quando se queria provocar uma pessoa através da poesia, usava-se ironicamente o seu alcunho para que não fosse muito explícito, principalmente nos cantares ao desafio:
X
A viola do meu primo
E mais a do “Quim Anão”
Quebraram as cordas todas
Ontem à noite ao serão.
XI
Cala-te lá boca aberta
Cara de “Sardinha” crua
O macaco da ribeira
Tem melhor cara que a tua!…
XII
Eu vim de Sousela aqui
Na minha égua bem boa
Somente para ouvir cantar
A filha da “Galiloa”.
XIII
A criada lá de casa
Chamada Rosa da “Engrácia”
Que para pouco tem jeito
Pois é mesmo uma pascácia.
XIV
Minha nódoa de azeite
Com água quente se lava
A tua é de ladrão
Só por morte é que ela acaba.
XV
Desafio, desafio,
Desafio à navalha.
Eu nunca desafiei
Com semelhante canalha.
XVI
Cala-te lá boca aberta
Cara de sapo “larento”
Eu nunca desafiei
Com semelhante jumento!…

Lavadoiro público

Nota: Quadras extraídas do livro VILA DE LOUSADA (subsídios para a sua Monografia) da Coordenação Concelhia de Lousada da Direção Geral da Extensão Educativa – 1989; do livro MEMÓRIAS DA MINHA GENTE de Ana Perdigão – 2013 e algumas recolhidas aquando da formação do Grupo Folclórico e Cultual As Lavradeiras do Vale do Sousa. A Foto ilustrativa, também pertence ao “arquivo etnográfico” do mesmo Grupo Folclórico.

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