A poesia popular (VI)

Durante cerca de 3 meses, a planta do linho cresce até à altura de 60 a 70 centímetros. Nas terras de Lousada o linho era semeado nos finais do mês de Abril. Em fins de junho, princípios de julho (“quem em julho ara e fia, ouro cria!…”) o linho começa a tomar uma cor amarelada e a perder a flor.

Aparecem em cada haste umas “bolinhas”, parecidas com contas de um Rosário, denominadas “baganha” ou ”bagarela” (linhaça). Em finais de julho, é chegada a altura de se proceder ao arranque (ARRANCA – terras há em que se dá o nome de LINHADA) do linho.

Os lavradores marcavam o dia da arranca do linho, depois de conversarem com a esposa, pois que nenhuma mulher da casa, andasse menstruada nesse dia!…

Convidados homens e mulheres, estes lá vinham vestidos com traje de campo, normalmente feito de linho ou estopa, produzidos em anos anteriores. Elas vinham descalças e eles de socos (tamancos) e nas cabeças chapéus de palha, pois o sol já era abrasador.

O linho era arrancado às mãos cheias, e carregado em carros de bois, em “manadas” (molhos) ou “gavelas” (mancheias/punhados). Os carros puxados por dois bois, lá iam carregados de linho, seguro por grandes fueiros à cheda e na cabeçalha do carro, a caminho da eira com um ramo de oliveira em cima do carro dando-lhe um ar festivo e “abençoando” o linho que parecia ser de boa qualidade. Por vezes, carros havia que eram adornados de flores e arbustos.

Durante o caminho entre o campo e a eira, normalmente já à tardinha, os homens e mulheres que andaram nesta azáfama, com os patrões logo a seguir ao carro de bois e os restantes atrás, formavam improvisados “ranchos” de pessoas, cantando e dançando ao som das violas, dos cavaquinhos, dos ferrinhos e do bombo, versos, alguns de improviso, e, outros que tinham passado de geração em geração.

Atualmente, os Grupos Folclóricos que tão bem representam esses tempos, em cima de um tablado, aquando das apresentações públicas das tradições da terra, usos e costumes de antigamente, nomeadamente na exemplificação de espadeladas, de ripagens do linho, do fiar, do dobar e do tecer, também cantam e dançam como nos tempos de outrora.

▲Pipas

O Grupo Folclórico e Cultural As Lavradeiras do Vale do Sousa, de Meinedo, possui no seu vasto reportório, muitas modas que se executavam, durante ou nos finais dos trabalhos do “ciclo do linho”, algumas delas dedicadas a este bem tão precioso. Escolhemos do acervo do Grupo, mais uma quadra e os versos que acompanham uma dança bem característica de Meinedo, para deixarmos aqui, bem como uma foto real da arranca do linho, para que todos os leitores “saboreiem” um pedacinho da veia poética que o nosso povo era pródigo:
I
Viva a terra viva o linho
Viva quem o semeou
Viva a patroa da casa
Que foi quem nos convidou.

A DOBADOIRA
Versos dedicados aos trabalhos do linho cantados no fim das espadeladas, durante o fiar, dobar e tecer o linho, ao serão. Após um dia cansativo de trabalho ainda havia folego e energia para cantar e dançar esta moda:
I
Ó meu António
Meu Antoninho
Anda comigo
Estender o linho.
II
Estender o linho
Naquele monte
Saiu agora
Mesmo da fonte.
Coro:
a)
Doba, doba dobadoira
Não me enrices a meada
Quero dobar e não posso
Tenho a minha mão cansada.
b)
O novelo era grande
Não me cabia na mão
Doba, doba dobadoira
Dentro do meu coração.
III
Junto à lareira
Estava a fiar
Quando ouvi
Meu galo cantar.
IV
De manhã cedo
Já era dia
Na minha aldeia
Tudo dormia.

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