Rolando Pinto: Quase três décadas como autarca e meio século como músico

Conhecido essencialmente pela atividade como músico e autarca, Rolando Pinto, aos 78 anos, recusa-se a parar.

Manuel Rolando da Silva Pinto nasceu a 2 de janeiro de 1941. Ao longo de quase oito décadas de existência, foi sempre (e continua a ser) um homem de grande vitalidade, dedicado à profissão, à família, à música e à vida autárquica.

Natural de Santa Margarida, onde residiu até aos 26 anos, aí completou a quarta classe. Sem as “facilidades que os alunos têm agora”, como faz questão de frisar, completou a quarta classe, depois de passar o rigor dos exames da terceira e quarta classes. “A professora era exigente”, conta, acrescentando que não poupava ninguém nos castigos físicos. Outros tempos… Rolando Pinto também não escapou. Lembra-se bem que chegou a ficar na escola depois das quatro horas. Era o castigo aplicado aos alunos mais travessos, como se dizia na altura. Na sua escola, que era, na verdade, o rés-do-chão de uma habitação em Cristelos, havia apenas uma professora para todas as classes. Com sacrifício, os pais, ambos analfabetos, conseguiram que os três filhos concluíssem a quarta classe.

Dos tempos de juventude, recorda as dificuldades e as vias de comunicação escassas. “Sou do tempo da estrada de Lousada a Felgueiras em terra”, afirma. Eram “tempos difíceis”, principalmente para os pobres, grande parte agricultores: “Quem tivesse uma quintazita era fidalgo. Os caseiros trabalhavam o ano inteiro para o dono. No caso do vinho, por exemplo, ficavam apenas com algum, com o qual faziam água-pé”, explica. Esta situação contrasta com a realidade atual, em que é difícil conseguir trabalhadores para o campo. “Hoje tudo mudou”, diz.

A entrada no mundo do trabalho aos 11 anos

Com onze anos, Manuel conheceu o mundo do trabalho. Seguindo as pisadas do irmão mais velho, foi trabalhar para Vila das Aves, numa padaria. Contrariando a vontade da mãe, ao fim de dois anos, regressou a Lousada. Passou por uma fábrica de olaria, que produzia loiça de barro, onde hoje é a Gatel. A sua tarefa, cujo desenvolvimento tecnológico se encarregou de extinguir, era cortar ramos de pinheiro para alimentar os fornos de cozedura do barro.

Do barro passou para os metais. Começou na metalúrgica do pai de Jaime Moura, mas não parou lá muito tempo. Ao fim de quatro meses, saiu. Desses tempos, não guarda boas recordações. Lembra-se bem que o pai Jaime Moura era rude com os funcionários.

Em termos profissionais, havia de conhecer apenas mais uma casa: a Imo, na Longra, de onde saiu já depois de se reformar. Nesta fábrica, sentiu-se sempre bem, tendo aí realizado reuniões sindicais depois do horário laboral, inclusivamente com delegados sindicais, sempre com o consentimento dos patrões. De referir que foi membro do sindicato dos metalúrgicos durante décadas, desde 1976.

A vida de artista

A música ocupou mais de metade da vida deste homem: quase meio século! Começou aos 16 anos. Tocava trompete e fliscorne, conforme as necessidades da Banda de Música de Lousada. Foram os tempos dos maestros Pestana, Neves e Salvador Fernandes. Um atrito com um elemento da direção ditou a sua saída para a banda de Paredes. Foram três anos na banda do concelho vizinho, regressando a Lousada. Entretanto, a banda de Paredes renovou os instrumentos e continuava a desafiar Manuel, que, aproveitando um desentendimento com o Taipa, que entrara na direção, resolver regressar à banda de Paredes, que haveria de terminar quatro anos depois.

No seu percurso artístico, encontramos ainda a Orquestra Ligeira do Vale do Sousa e a Banda de Vila Boa de Quires, em Marco de Canaveses, para onde foi tocar com o “Paulo, filho do Salvador”, lembra. Seguiu-se a Banda de Mancelos, em Amarante, onde esteve sete anos. Abandonou a atividade musical em 2002, seguindo o conselho dos filhos e para dedicar mais tempo à esposa, que ficava sozinha aos fins de semana. “Tive pena”, lamenta.
Dos tempos de músico, recorda que os jovens faziam muitas travessuras. Habituados a dormir em escolas e noutros locais improvisados, pregavam partidas uns aos outros. Os destinos eram sobretudo o Minho e Trás-os-Montes. Mas o interior do país não era muito do seu agrado, pois as festas terminavam muito tarde: “Eram muito cansativas, até às 4 da manhã…. Às vezes até às seis…”, sobretudo enquanto músico na Banda de Mancelos, “ali encostada a Trás-os-Montes”. Manuel recorda que era muito cansativo: “Nas noitadas, jantava-se o farnel e ficávamos a tocar até tarde para as pessoas dançarem”.

Voltando atrás, ao percurso profissional de Manuel, é preciso salientar que foi a banda que acelerou a sua saída da primeira fábrica de metalurgia: “Tinha uma Festa na Seroa, com a Banda de Lousada. Pedi ao Sr. Costa, que também era músico, mas fidalgo, encarregado geral do Moura, dispensa para o dia seguinte, para atuar. Mas ele não tinha vontade de me dispensar. Esperei pelo senhor Moura até às 9 horas, mas não consegui falar-lhe. Ao outro dia fui para a festa… Na segunda feira, perguntou porque não tinha vindo trabalhar. Expliquei-lhe que esperei por ele até às nove… A resposta do patrão foi pronta: “Precisavas de levar duas sapatadas. Vai trabalhar”, mandou. Mas o funcionário aproveitou a oportunidade para sair, informando apenas que mãe iria receber o pagamento em falta.

Serviço militar na Guiné

A vida amorosa também correu bem a Rolando Pinto. A esposa, Maria Lopes Matos, é de Idães, Barrosas, e vivia encostada a S. Margarida. Conheceu-a numa desfolhada e começaram a namorar. Mas o namoro de sete anos haveria de ser interrompido pelo serviço militar, concretizando-se o casamento apenas em 1966, um ano após a tropa. O pedido de casamento foi feito à antiga, como mandava o protocolo, por um amigo, homem respeitado, que Manuel acompanhou ao pai da namorada. Como esperado, este cedeu a mão da filha.

O serviço militar, numa altura de guerra colonial, passou, como era habitual, pelo Ultramar. Antes, porém, Manuel passou por vários quartéis. Tirou a carta de condução durante o serviço militar, tendo feito a formação para condução de veículos militares pesados. Arca de Água, Leiria, Lisboa, Tancos foram apenas algumas das cidades onde esteve durante a vida militar. Depois do susto da informação de mobilização para Angola, seguida de desmobilização, não fugiu à ida para a Guiné, depois de 19 meses de serviço militar na metrópole. Partiu em 1963. Na Guiné Bissau, esteve em vários locais e recorda sobretudo a pobreza. Ao fim de 22 meses e meio, conheceu a dor da morte de quatro companheiros, apanhados por uma mina. Sem ânimo para continuar, a sua companhia foi substituída, tendo regressado a Bissau. Completados 25 meses na ex-colónia, regressou à metrópole.

Rolando Pinto recorda algumas histórias do tempo da guerra colonial, principalmente a capacidade de improvisar num país onde não havia praticamente nada, nem sequer luz elétrica. Com as garrafas de cerveja de meio litro faziam uma espécie de alarme: “Uníamos duas garrafas e amarravamo-las no arame farpado que estava à volta da tenda, o que fazia barulho se alguém mexesse”, explica. Um aparte importante que faz questão de realçar é a qualidade da cerveja!

As melhores recordações desses tempos são as histórias de amizade que ficaram para além da guerra: “Lá criaram-se bons amigos, fiéis. Mas muitos já partiram. Fazemos um convívio todos os anos. Já foi em Lousada e Aparecida. Sempre no primeiro sábado de junho”.

Regressado da tropa em 1965, casou a 3 de julho de 1966. Tem a satisfação de poder dizer que a relação com a esposa foi sempre muito boa. Ela era costureira de profissão e dedicava-se, sobretudo, a executar trabalhos em casa das fidalgas, que tinham a sua própria máquina de costura. “Tinha casas certas onde trabalhava muitos dias”, afirma.

Casaram em Barrosas e a sogra convenceu-o a fixar residência nas proximidades de sua casa, num local onde a rua que dava de S. Miguel para Barrosas não tinha luz elétrica. Um lugar com poucas casas, ao qual se afeiçoou. Mais tarde, juntou dinheiro e construiu casa em S. Miguel, onde reside até ao presente.

Quase três décadas como presidente da Junta de S. Miguel

A política entrou na vida de Rolando Pinto por acaso. Nunca ambicionou ser presidente de junta, mas acabou por liderar o executivo da Junta da Freguesia de S. Miguel quase três décadas. Tudo começou com uma brincadeira de café. “Fomos, num domingo à tarde, a uma tasca na Longra. Falava-se em eleições. O senhor Abílio Faria disse que ia formar uma lista e que contava comigo”, conta. Apesar de argumentar que não percebia nada de política, foi “na onda” e aceitou. Estávamos em 1982 quando venceu as eleições pelo PS. Era presidente da Câmara Amílcar Neto, “um homem 100%, educado”, realça. Enquanto autarca, foi avaliando o meio político e concluiu que Amílcar Neto se “deixou ultrapassar por dois vereadores, o Lopes e o Castro”. “Eram eles que tratavam de tudo e eram muito partidários. Corriam para as juntas PSD e das suas freguesias”, afirma.
Durante os primeiros anos de mandato, fez o que pôde, mas queixa-se que muitas vezes os seus projetos esbarravam com os proprietários dos terrenos, que não os cediam. Numa altura em que havia poucas estradas, deu prioridade às vias de comunicação. Mas reconhece que “as juntas do PSD safavam-se melhor”.

O certo é que, após três anos de gestão autárquica, venceu novamente as eleições. E esta vitória soube-lhe ainda melhor, pois estava em causa a avaliação do povo: “Custava-me perder depois de lá estar. Ficaria a pensar no que fiz de mal para o povo me tirar”, justifica.

Enquanto autarca, gostou particularmente dos amigos que ganhou. Mas a ação política também lhe rendeu alguns inimigos, apesar de reconhecer que, não sendo “fanático na política”, sempre conseguiu granjear a simpatia de gente de outros partidos: “Consegui buscar gente que já tinha feito parte da lista do PSD”, diz. Também os votos refletiam o apreço das pessoas pelo seu trabalho: “A minha votação aumentou muito e eu sabia que não havia tantos socialistas como os que apareciam nos votos”, refere. Mas já na altura Rolando Pinto conseguia antecipar os resultados, sem recorrer a sistemas de sondagens complexos. “Tinha um jornaleiro que trabalhava à hora, homem sério e honesto, que, pelo que ouvia na freguesia, me garantia que eu ganhava”, conta.

Na Junta de 1982 a 2013, viveu por dentro todo o ciclo do ex-presidente da autarquia Jorge Magalhães. Lembra-se bem que, em 1989, ano de eleições, não o conhecia. Foi-lhe apresentado no escritório do Dr. Vieira, onde trabalhava, quando se falava de eleições e candidaturas. Na altura, Rolando Pinto hesitou na sua recandidatura, por entender que não tinha tido os meios necessários à sua disposição para fazer obra na freguesia. Mas o Dr. Vieira garantiu-lhe que ganharia e ele aceitou.

O ex-presidente da junta conta um episódio desta altura que guarda até hoje na memória. Na companhia de um proprietário, dirigiu-se à Câmara para tratar do licenciamento de obras. No escritório do vereador Castro, este questionou-o sobre a sua candidatura pelo PS. “Sou responsável pelos meus atos” foi a resposta que Rolando Pinto lhe deu. O vereador não gostou e mandou-o sair. Uma atitude que, segundo afirma, tem por detrás a convicção de que Rolando Pinto se candidataria pelo PSD. Razões para estar insatisfeito achava que tinha o presidente da junta, que se queixa do vereador por lhe ter faltado com a verba prometida para um caminho: “Nem os 150 contos me deu para um caminho”, recorda.

Sobre a atuação de Jorge Magalhães, destaca a capacidade de, com uma conversa de rua, resolver certos problemas sem que o presidente de junta tivesse de ir à Câmara. Rolando Pinto é da opinião que o ex-presidente da Câmara não discriminou as freguesias: “Aí comecei a a fazer estradas”, realça, aludindo às várias vias de acesso a outras freguesias vizinhas. Mas, para além das vias de comunicação, salienta outras obras importantes na freguesia: “Compramos terreno para a junta e campo de futebol (que depois vendemos pelo mesmo valor ao clube), ampliamos a escola primária, aumentamos o cemitério para o dobro, construímos a casa mortuária, casas de banho públicas junto à igreja, o jardim de infância com cozinha, compramos uma carrinha para levar as crianças para a escola”, destaca. A cultura também mereceu a sua atenção: “Arranjamos o relógio do sol, recorrendo a uma candidatura, que foi aceite”, explica. No final, ficaram ainda cerca de três mil euros na conta da Junta. O balanço que faz da sua gestão é, por isso, positivo. Para tal contribuiu também a boa-vontade do patrão, que o deixava sair do trabalho sempre que necessitava.

Quando questionado sobre a união de freguesias, tece algumas críticas ao atual presidente: “ O Engenheiro Taveira está a esquecer um bocado S. Miguel e Sta. Margarida”.

Aos 65 anos, idade legal da reforma, Rolando Pinto pediu a pensão correspondente, mas não deixou de trabalhar. Esteve ainda mais dois anos na IMO a pedido dos patrões.

Universidade Sénior e grupo coral ocupam-lhe o tempo livre

Atualmente, Manuel ocupa o seu tempo na Universidade Sénior, onde diz aprender bastante. Começou por levar a esposa e esperar à porta, mas bastou um convite para o fazer entrar e ficar. “Frequento as aulas que quiser. Há bom ambiente, com muito respeito”, afirma. Ginástica, ioga, cavaquinhos… Há atividades para todos os gostos. É uma excelente forma de passar o tempo, já que os primeiros tempos da reforma foram custosos, devido à ausência de rotinas.

Para além da universidade, continua a dirigir o grupo coral de S. Miguel, atividade que iniciou há 44 anos, depois de ter sido convidado para cantar na Missa do Galo. Integra também a turma dos pais do Conservatório do Vale do Sousa.

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