A poesia popular (VIII)

Em todos os encontros sociais que os nossos antepassados realizavam, desde aqueles que se faziam para cultivarem os campos, a caminho das festas e romarias e nas feiras, até àqueles que se levavam a efeito no seio da comunidade da terra, nos Batizados, nas Comunhões (Primeira Comunhão e Comunhão Solene) e nos casamentos, a poesia criada, era direcionada para comemorar as diferentes situações e eventos e andava sempre de “mãos dadas” e à volta do Namoro e consequentemente do Amor e do Casamento:
I
Coração por coração
Amor não troques o meu
Olha que o meu amor
Foi sempre leal ao teu

II

Gosto de ti porque gosto
Gosto de ti porque sim
Gosto de ti porque aposto
Que também gostas de mim.
III
À noite quando me deito
Peço à Virgem Maria
P’ra sonhar toda a noite
Ai!… com quem sonho de dia.
IV
O meu amor é moleiro
Coitadinho dorme só
Passa as noites em claro
Encostadinho à sua mó!..
V
O meu amor é padeiro
Traz a cara enfarinhada
Os seus beijos sabem a pão
Não quero comer mais nada.
VI
Quem chegou aqui agora
Por nome não digo quem
Chegaram aqui dois olhos
A quem os meus querem bem.
Os tocadores que acompanhavam com as suas violas, concertinas e cavaquinhos, os versos que tanto eram improvisados no momento, ou, então, já vinham da memória do cantador ou da cantadeira, iam de um lugar para o outro com o intuito de animar a malta, mas principalmente para galantear e namorar as moçoilas. O namoro pressupunha, por inerência, um casamento, e, para que o namorado soubesse das intenções do outro, cantava-se:
VII
Hei de cantar, hei de rir
Enquanto solteira for
Depois de estar casada
Cuidarei do meu Amor.
VIII
Ó meu amor vem-me ver
Ao “Portelinho da horta”
O meu pai não está em casa
Minha mãe pouco se importa.
IX
Minha Mãe casai-me cedo
Enquanto sou rapariga
O milho sachado tarde
Não dá palha nem dá espiga!…
Por vezes também acontecia que um rapaz não fosse claro nas suas intenções. Daí namorar mais que uma moça e por isso, quando os cuidados da rapariga com o namoro eram poucos, não se desconfiava das palavras meigas e sedutoras do rapaz, mas quando se descobria a “marosca”, vinha a dor. A poesia popular também tinha resposta para estas situações:
X
Se tu vires o mar vermelho
Não o temas que é sagrado
São lágrimas de sangue
Que por ti tenho chorado.
XI
Fui ao jardim passear
Distrair a minha dor
Encontrei o teu retrato
Na mais brilhante flor.
XII
Quando eu aqui cheguei
Deitei meus olhos e vi
Meu amor nos braços de outra
Não sei como não morri.
Por sua vez a rapariga também era “tema de conversa”, mas nem sempre era verdade o que se dizia dela. O ciúme, a inveja e as desavenças levavam, por vezes, a difamar alguém inocente. Então era possível ouvir-se:
XIII
Por eu ser muito alegre
Levantaram-me uma “fama”
Mas eu sou como o pinheiro
De seco conserva a rama.
XIV
Deixa-me ir dormir contigo
Uma noite não é nada
Eu entro pelo escuro
E saio de madrugada
XV
Nem entras pelo escuro
Nem sais de madrugada
Eu sou rapariga nova
Não quero ser difamada.
XVI
Se eu hoje te desse um beijo
Tu amanhã outro querias
Ficarias a pedir
Um beijo todos os dias.

▲Mó

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