Agostinho Vieira: Aos 80 anos continua ativo profissional e socialmente

Agostinho Freitas Vieira da Silva, mais conhecido pelo primeiro sobrenome, é um homem afável, que ganhou a simpatia dos lousadenses nas várias funções que exerceu e continua a exercer. Foi funcionário das finanças, quase até ao virar do século, autarca, político, catequista e dirigente associativo. Sempre muito ligado à vida associativa, continua a exercer o cargo de presidente da Assembleia da Cooperativa Agrícola de Lousada, cargo que ocupa há 37 anos.

Agostinho Vieira nasceu no ano em que se iniciou a II Guerra Mundial, a 29 de abril. Aos 80 anos, continua a ser um homem muito ocupado e, enquanto tiver saúde, recusa-se a parar. Recebeu-nos em sua casa, onde acumula muitas recordações dos tempos idos, principalmente textos diversos, entre os quais poesia. Adora escrever e considera-se zeloso em relação ao uso da língua portuguesa: “Gosto muito do português, não gosto de ter dúvidas”. Esta é, aliás, uma área em que sempre teve facilidade, continuando a publicar os seus artigos num jornal regional.

As conversas com o senhor Vieira são como as cerejas. Com tantas histórias para contar, é difícil seguir uma trajetória sem desvios. Depois de algumas incursões pelo passado dos progenitores, detivemo-nos na sua infância. Foi batizado com apenas 15 dias de vida, a 13 de maio, uma data simbólica, que evoca as aparições de Fátima e que viria a dizer muito a Agostinho Vieira: “Sou muito devoto de Nossa Senhora”, afirma, acrescentando que todas as suas ações assentam na moral cristã, o que o faz um homem “muito feliz”.

Com apenas dois anos, fixou-se com a família em Meinedo, onde haveria de ficar até ao presente, pois até então residia em Paço de Sousa, Penafiel, terra natal da mãe. Em Meinedo frequentou a escola primária. Chegou a fazer o exame de admissão, mas não prosseguiu estudos. Havia de o fazer mais tarde. Começou, então, a trabalhar nas quintas do pai, António Vieira da Silva, que era natural de Meinedo: “O meu pai era filho único e tinha duas quintas grandes em Meinedo. Uma era mesmo das maiores”, conta.
Mas o nosso entrevistado não conseguiu continuar sem fazer um parêntesis muito importante, para evocar a mãe, Balbina Ferreira de Freitas, que ficou órfã aos 4 anos, de quem fala com muita afetividade: “Era muito bonita. Morreu aos 86 anos”, recorda.

Trabalhou nas quintas até ir para a tropa, contando com a colaboração de cinco criados e dos dois irmãos, a quem protegia e ajudava muitas vezes “sem o pai saber”. Este gosto por ajudar os outros surgiu-lhe, pois, muito cedo. Lembra-se de um vizinho carpinteiro a quem matou a fome muitas vezes: “Quando fui para Moçambique, chorei como uma criança ao despedir-me dele. Disse-me que nunca mais me iria ver”, recorda. Quando regressou, o vizinho já tinha falecido. Uma história triste, mas carregada de sentimentos.

Serviço militar em Moçambique conjugado com os estudos

Antes de ser mobilizado para o Ultramar, Agostinho Vieira passou pela Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, mas por pouco tempo. A mãe pagou para conseguir uma permuta, que permitiu ao filho cumprir o serviço militar no Pilar. Este esforço financeiro também não valeu de muito, pois o jovem Agostinho teve de rumar a Moçambique. Desta vez, não lhe valeu o choro da mãe.

Dos tempos em Moçambique, faz uma análise filtrada pelos princípios cristãos, censurando a forma como a população negra era tratada: “Os pretos eram lacaios dos brancos e eu não gostava, porque toda a gente tem direito a uma vida condigna. Trabalhavam uma dúzia de horas por uma garrafa de vinho… Os brancos abusavam”, refere.

Em Moçambique esteve 33 meses, forçado pela Guerra Colonial, viveu, no entanto, tempos de paz, começando a situação a tornar-se mais atribulada na altura em que regressou. “Só nos últimos meses começou a haver rebuliço”, afirma. Assim, aproveitou a oportunidade para continuar a estudar, já que o comandante da companhia decidiu pôr os oficiais professores a lecionar. Já na metrópole, concluiu os estudos no Colégio Eça de Queirós. Pelo caminho ficou o sonho em ser advogado. “As condições financeiras não eram muitas e desisti”, lamenta.

Carreira nas finanças centrada no utente

Regressado a Meinedo, iniciou funções nos escritórios da CP, onde esteve dois anos. Entretanto, concorreu para várias áreas profissionais: alfândega, judiciária e finanças, mas a escolha que teve de fazer foi entre as duas últimas. Optou pelas finanças.

Na tentativa de conseguir ocupar uma vaga nas finanças mais próxima de Lousada, o jovem candidato tentou a sua sorte e saiu-lhe Santa Maria da Feira, onde começou como aspirante. Aí permaneceu 3 meses, no final dos quais conseguiu transferência para Gondomar. Ao longo da carreira, passou também pela Maia e Felgueiras. Nas finanças de Lousada, esteve cerca de três décadas, até se reformar.

Durante os anos como funcionário das finanças não parou de estudar. As mudanças legislativas e novos procedimentos exigiam uma atualização constante, por exemplo que que dizia respeito ao direito fiscal. “Foram trinta anos sempre a estudar”, refere.

Agostinho Vieira exerceu com gosto a profissão e diz ter feito sempre o seu melhor para resolver os problemas do cidadão.

As pessoas sentem o carinho com que são tratadas e reconhecem o trabalho de quem o faz com gosto. É essa a convicção de Agostinho Silva, que, durante muitos anos, usou a sua casa como escritório para ajudar as pessoas a tratarem de certos documentos, como por exemplo o Imposto Complementar. “Sempre sem cobrar um tostão”, salienta.

É importante referir que o ex-funcionário das finanças nunca foi um homem acomodado. Talvez por isso tenha sido delegado sindical durante 12 anos, em defesa dos direitos dos trabalhadores.

A nível pessoal, encontrou o amor da sua vida, Margarida, antes mesmo de ir para a tropa. Casou em 1968. Desta relação, nasceram quatro filhos.

Presidente da Junta de Freguesia de Meinedo durante 13 anos

A vida corria sem sobressaltos, até que, um dia, estava no seu trabalho nas finanças, quando surgiu um convite inesperado por parte do Dr. Adérito Guerra: ser candidato a presidente da Junta de Freguesia de Meinedo, o primeiro eleito democraticamente. Apesar do avô materno ter sido Presidente da Junta de Freguesia de Paço de Sousa, em Penafiel, e do avô paterno ter sido também Presidente da Junta da Freguesia de Meinedo, ambos durante muitos anos e logo após a implantação da República, os antecedentes familiares não terão sido suficientes para o convencer. Foi preciso o padre Arnaldo Meireles intervir, falando-se dos ensinamentos da Casa de S. Paulo, que Agostinho Vieira frequentava incentivado pelo Pároco, e da importância de servir a comunidade. Mas Meinedo não era um território político fácil, pois “havia muitos comunistas, mais de 400”: “Já tinha sido convidado pelo ex-presidente da Junta antes do 25 de Abril, mas disse que nunca seria presidente sem uma sede de junta”, conta. Esta foi, portanto, a primeira condição imposta para ser candidato. Uma imposição que se veio a concretizar no início do mandato com a construção da sede no local atual, mas apenas com o rés do chão, uma obra que custou 320 contos. Meinedo foi, assim, a primeira freguesia com uma sede de Junta.

O ex-autarca confessa que lhe deu muito gozo ganhar as eleições. Na mesma altura, foi eleito presidente da Câmara Amílcar Neto. Agostinho Vieira esteve quatro mandatos na liderança do executivo da Junta de Freguesia de Meinedo. Este percurso como autarca sofreu uma interrupção no ano em que ocorreu um desentendimento com o representante do CDS na Freguesia, contribuindo para a vitória do PS. Depois de 4 anos de gestão socialista na Junta de Freguesia, Meinedo voltou a escolher o Social-democrata Agostinho Vieira, oferecendo-lhe uma esmagadora maioria.
Uma vez eleito presidente da Junta, Vieira deitou mãos à obra, mas os recursos financeiros eram escassos: “Comecei a trabalhar sem dinheiro. A câmara deu-me sempre pouco dinheiro”, diz. Apenas no mandato de Jorge Magalhães como presidente da Câmara recebeu uma fatia maior, que lhe permitiu fazer mais obras.

Recorda que, no início do seu mandato, Meinedo era muito pobre, apesar de demograficamente grande. As ruas eram uma pobreza: “A 321, para Caíde, era de macadame”, recorda, acrescentando que não havia paralelo nem alcatrão. “Fiz quilómetros e quilómetros de estrada aqui. Mais de 12 Km”, sustenta. Recorda ainda uma obra de grande envergadura: a estrada que liga a freguesia a Aveleda, na qual “as pessoas se enterravam”. A obra exigiu uma negociação difícil de terrenos. Agostinho Vieira também cedeu terrenos que eram sua propriedade para o efeito.

Primeiro bairro social em Lousada

Para além da rede viária, não esqueceu a obra social, ficando a dever-se à sua gestão a construção do primeiro bairro social em Lousada, para o qual muito contribuiu a população meinedense e a doação do terreno por parte do Senhor Manuel Nunes da Costa Camizão. “Havia pessoas a dormir nas barracas de palha nos campos e nas barracas dos melões, sem abrigo. Foram 3 habitações para pobres casais, que foram para o bairro sem pagar. Depois, com o PS, começaram a pagar”, explica.

Assume-se como um homem a quem a cor política nada diz, mas sim o caráter das pessoas. Faz, no entanto, um balanço positivo da sua gestão, sobretudo se comparada com a dos executivos socialistas”, remata.
Mas, para o ex-autarca, a sua gestão ficou também marcada pela sua forma de estar: “As pessoas não tinham de ir ao beija-mão. Julgo que fui dos presidentes mais democratas desta freguesia”, sustenta, explicando que todos os documentos, como atestados, eram tratados na secretaria, sem necessidade de idas ao gabinete do presidente.

Meinedo, atualmente, está, segundo o ex-autarca, relativamente bem servida de estradas. Refere, no entanto, que é preciso continuar a pensar nos pobres e doentes, pois “há muitos abandonados”. Conhece bem a realidade, pois a sua ligação às atividades da Igreja continua a proporcionar-lhe o contacto com os mais carenciados. É ministro da comunhão há quase quatro décadas e, todos os domingos, leva a hóstia a idosos e doentes acamados ou com dificuldades de mobilidade. É com alegria que o faz, reconhecendo que leva também alegria a quem o recebe e que espera ansiosamente por aquele momento, recheado de palavras apaziguadoras da alma.

Para além de autarca, foi um militante bastante ativo no PSD. Exerceu o cargo de vice-presidente da Comissão Política do PSD de Lousada durante vários mandatos, foi líder da bancada social-democrata na Assembleia Municipal durante um mandato e secretário da Mesa da Assembleia Municipal durante vários mandatos a partir do 25 de Abril, substituindo várias vezes o Presidente, o saudoso e grande Lousadense José Dias.

Inconformado e persistente

O inconformismo e persistência de Agostinho Vieira são características transversais às suas ações em sociedade. Apreciador da arte, em particular do património histórico, conta-nos uma curta história reveladora do seu caráter. Depois de um período, na Primeira República, em que tudo o que era da Igreja foi nacionalizado, já com Salazar no poder, os bens clericais voltaram à antiga proprietária. Com a capela de Santana, no entanto, tal não aconteceu. Consultada a matriz, Agostinho Vieira verificou que efetivamente o imóvel era da fábrica da Igreja e não da família Meneses, como todos pensavam. A ideia ficou-lhe a martelar na cabeça e falou do assunto ao padre Meireles, que o desvalorizou. Depois de tentar convencer sem sucesso o pároco que se seguiu, apresentando os factos, encontrou finalmente um aliado neste “batalha” o padre Mário Henrique. “Mostrei-lhe o documento e avançou-se com o processo de registo na Conservatória da Capela de Santana a favor da Comissão da Fábrica da Igreja”, refere. A partir daí, não houve mais dúvidas, nem equívocos. “Quando fui presidente da festa da Senhora das Neves, no dia das festas, fui pedir a chave para abrir a capela e deram-ma. Foi a primeira vez que a santa saiu na procissão”, lembra.

A satisfação dos prémios em Estugarda

A Associação de Cultura e Musical de Lousada é uma casa que diz muito a Agostinho Vieira e à qual se dedicou bastante, tendo sido presidente da direção. Chegou lá pela mão de José Gonçalves Solha em 1985 e deparou-se logo com dificuldades. Estando em funcionamento um curso para maestros frequentado por 15 instruendos, chegou a hora de pagar as despesas com a lecionação. Mas não havia dinheiro. Não teve outro remédio que não pagar ele próprio. Mais tarde, foi ressarcido pela autarquia, sendo presidente da Câmara Amílcar Neto.

Outras situações houve em que foi necessário meter novamente a mão ao bolso. Com a oportunidade de a banda participar num concurso em Estugarda, na Alemanha, não poupou esforços: foram 320 contos para o autocarro, 24 contos para as portagens e 200 contos cambiados em marcos para despesas. E valeu a pena! Entre 260 bandas, “nós trouxemos dois primeiros prémios: da melhor marcha e da melhor música.

Também passou pelo futebol. Foram 3 mandato na vice-presidência da Associação Desportiva de Lousada, no tempo do “José Cunha, que segurou o Lousada muitos anos”, recorda. Na altura, a equipa Lousada jogava da 3.ª divisão nacional.

Sempre ligado à cultura, é padrinho do grupo As Lavradeiras do Vale do Sousa, tendo sido também obreiro dos seus estatutos.
Durante anos, foi “cicerone” em eventos no Concelho, como a Expo Lousada. Muitos se lembram de Agostinho Vieira nos palcos, fazendo as “honras da casa”.

Homem de cultura

A História e o património têm sido paixões às quais dedica parte do seu tempo. Escreveu já sobre a igreja de Meinedo e sobre as centenárias Festas Grandes do Concelho, mas continua a recolher matéria com a qual poderia escrever vários livros. São muitas as histórias que foi guardando ao longo dos anos: “Um primeiro-ministro nasceu em Meinedo. Cheguei a falar com ele muitas vezes. Recolhi dados sobre o Professor Duarte Leite Pereira da Silva”, diz. Este interesse pelo passado é elucidativo do apego que sente à sua Terra.

Também encontramos entre os seus escritos textos de poesia, alguns dos quais nos fazem um retrato das relações amorosas de antigamente.
Como sempre fez ao longo da vida, Agostinho Silva continua a “exercer funções em duplicado”. Profissionalmente, continua muito ativo, sendo perito de avaliações de imóveis. Paralelamente, continua na Cooperativa Agrícola de Lousada, onde alimenta novos projetos.

A agricultura continua também a fazer parte da sua vida, produzindo essencialmente vinho no seu terreno.

Católico, não dispensa as atividades religiosas. Deixou de ser catequista há pouco tempo, mas continua a desempenhar outras funções na paróquia: “É bom praticar o bem sem saber a quem e sem ser ressarcido”, defende.
Diz-se um homem feliz, comandado por um valor maior: o perdão. “Não podemos dizer ‘não perdoo”, afirma, acrescentando que não gosta de se deitar sem se reconciliar com aqueles com quem teve algum atrito.
Parar? Só quando a saúde o mandar: “Quando me sentir débil, encosto”. Para já, sente-se muito capaz.

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