Leonardo Ferreira Neto

Sousela

Hoje apresentamos o Lousadense com Alma da freguesia de Sousela. Esta escolha poderia parecer difícil numa freguesia com individualidades históricas de grande gabarito local, regional e até nacional, como foi o presidente da Câmara Municipal de Lousada no século XIX, Custódio Sottomayor e Noronha, da Casa de Cimo de Vila, ou o visconde de Sousela, Caledónio Coelho de Vasconcelos, da Casa do Ribeiro. A auscultação que realizei nos últimos anos junto das forças vivas e figuras destacadas da freguesia para encontrar uma individualidade que que tivesse sido souselense de corpo e alma depressa revelou Leonardo Ferreira Neto como o eleito para este propósito. O resumo biográfico que se segue foi elaborado com a prestimosa colaboração de um dos seus filhos.

Leonardo Ferreira Neto nasceu a 5 de Junho de 1910 numa família de lavradores rendeiros na freguesia de Sousela. Era filho de Adrião Ferreira Neto e Margarida de Sousa e teve cinco irmãos: Miguel, Rosa, Maria, Luís e José. Todos eles trabalhadores na agricultura; os três primeiros em Sousela e os últimos como emigrantes no Brasil tendo regressado para morrer na sua terra. Leonardo Ferreira Neto faleceu a 17 de Julho de 1986 com 76 anos de idade.

Como quase todas as crianças do seu tempo nunca frequentou a escola, tendo aprendido a ler com alguma desenvoltura com “as vinte e sete lições dadas por um vizinho”, como referia com orgulho. Completou a quarta classe por imposição governamental para desempenhar as suas funções como empresário já com meia-idade, entre os 40/50 anos.

Desde cedo, sem recursos, tomou iniciativas empreendedoras começando por fazer vassouras enquanto explorava um pequeno espaço de mercearia, depois de uma tentativa falhada de fazer subir um foguete de pirotecnia. As vassouras eram vendidas de bicicleta num raio de 50 Km, tais como Povoa de Varzim, Braga, Amarante, entre outras localidades. Levantava-se todos os dias às cinco da manhã, apesar dos serões que fazia, para vender a um só trabalhador um simples cálice de aguardente. Cumpriu o serviço militar em Viana do Castelo, ano em que morreu a sua mãe, e aí terá aprendido o básico da enfermagem que lhe daria no futuro a aptidão para exercê-la, administrando gratuitamente injeções e pequenos curativos na população local que deles necessitasse. Após a tropa voltou para o seu negócio de mercearia e “tasca” até se casar com Maria da Glória, filha de um comerciante que tinha algumas posses adquiridas durante longa estadia no Brasil.

Leonardo Ferreira Neto fechou a mercearia que explorava para apenas trabalhar nas vassouras e temporariamente como madeireiro, com o sogro, mas por pouco tempo. No terceiro ano de casamento já era pai de quatro filhos (os dois últimos eram gémeos). Nessa altura abriu novo negócio de mercearia no lugar do Carvalho, onde iria entretanto instalar os primeiros teares. Para isso precisava de eletricidade e tomou a iniciativa de convencer um número considerável de pessoas influentes de quatro freguesias (Sousela, Ordem, Covas e Figueiras) para constituírem uma sociedade eletrificadora de baixa tensão. Assim nasceu a Sociedade Eletrificadora do Vale do Mezio a 26 de Fevereiro de 1948 com um único posto de transformação, junto ao cruzamento de Ribas, para servir as quatro freguesias, sendo o Sr. Leonardo um dos sócios de quotas mais elevadas. No arranque desta sociedade eletrificadora, que deu luz `as quatro freguesia do concelho de Lousada que aina não a tinham e durante muitos anos (até ter o seu próprio posto de transformação), Leonardo Ferreira Neto foi o instalador, o eletricista de piquete permanente, enfim, o pau para toda a colher naquela sociedade. A fábrica foi crescendo dentro de portas até aos dez teares conforme o alvará familiar autorizava. Como o regime fascista só concedia alvarás aos seus apoiantes ou grandes monopólios, ele foi colocando unidades de dois teares por toda a freguesia e até fora dela como Lustosa e Freamunde criando mais de cinquenta postos de trabalho. Uns anos antes do 25 de Abril de 74 comprou um alvará que custou uma pequena fortuna (duzentos e cinquenta contos) e legalizou todos os trabalhadores perante a segurança social como foi desde sempre a sua aspiração e desejo. Com a ajuda dos seus filhos faz uma fábrica nova pelos anos 70, reunindo num só espaço todos os teares. Abandonou a atividade quando alguns dos filhos assumiram a empresa.

Estava em quase todas as iniciativas próprias e alheias para ajudar a população, sobretudo em Moreira/Sousela (parte de cima da freguesia) tais como melhoria de caminhos, resolução de problemas escolares, penúria da habitação, etc., promovendo eventos para angariação de fundos.
Era ainda uma pessoa solidária e altruísta matando a fome a muitas famílias carenciadas, através da sua mercearia, foi um bombeiro sempre disponível para transportar os doentes para o médico ou hospital (chegou a acontecer no seu veículo um parto a caminho do hospital), taxista gratuito para os médicos da vila que ia buscar para assistir doentes acamados. Conforme atesta o seu filho, o seu pai destacou-se muito na área da saúde “através da ajuda aos outros, como enfermeiro que dava injeções e pequenos cuidados de enfermagem, o conselheiro para muita gente, evitando desgraças maiores e ajudando até a resolver problemas de sanidade mental”.

Era um homem atento aos movimentos sociais e políticos e embora não fizesse alarde disso, era contra o regime que lhe asfixiava a vida empresarial e modo de pensar. Gostava de ser uma pessoa bem informada, era assinante do jornal (Comercio do Porto) que lia diariamente. Também não passava sem acompanhar os noticiários radiofónicos e mais tarde os telejornais. Ouvia frequente e secretamente, com alguns amigos, notícias das rádios ditas “piratas”, da oposição, para se inteirarem da verdade política.

Foi com a sua inteira concordância e apoio que aconteceu a deserção de dois filhos seus ao exército e à guerra colonial. Após o 25 de Abril apoiou os filhos na fundação da Coletividade Recreativa e de Ação Cultural (CRACS) arrendando-lhes o espaço onde se instalou a sede.
Leonardo Ferreira Neto não se sentia superior para com os mais humildes, mas igual, pelo que todos os trabalhadores temporários, jornaleiros ou eventualmente os seus operários partilhavam com ele e sua família as refeições na mesma mesa da sua cozinha. Era honesto e de boas contas ao ponto dos seus conterrâneos lhe confiarem as suas economias a juros muito justos.

Entre os princípios e valores que mais o caracterizaram, a honra, a honestidade e a verdade eram apanágio da sua conduta. Era extremamente rigoroso na educação dos filhos, no respeito ao trabalho e para com a falta de respeito a qualquer pessoa; a honestidade e a honra eram assunto sem discussão.

Leonardo Ferreira Neto teve uma vida notável, plena de altruísmo e de empreendedorismo social, cuja memória e homenagem póstuma é um dos propósitos deste trabalho. O autor de Louzadenses com Alma quer deixar aqui um agradecimento especial à colaboração de seu filho José, assim como à recentemente falecida Emília Gonçalves, esposa de José Gonçalves, pelo seu testemunho, assim como a antigos autarcas locais e a várias pessoas anónimas da freguesia de Sousela.

2 Comments

  1. Joaquim Hernâni Dias

    Como texto panegírico, é tolerável o tom laudatório.
    Como biografia é péssimo! Falta ouvir as “outras” partes e deixar exarado o sofrimento e a miséria do trabalho caseiro – verdadeira exploração capitalista. Enquanto em sua casa se comia do bom e do melhor… Nas casa onde havia teares comiam-se os caldos feitos com a couve galega! A carne só em dias de festa!
    Ganhava tanto que só os filhos tiveram cedo direito ao estudo nos Liceus ou Colégios Primários.
    E no trabalho noturno quantas pessoas o ajudaram por “submissão ao seu poder económico e social” no trabalho de embrulhar as ligaduras que por vias indiretas iam para as então províncias ultramarinas do Estado Novo?
    Quem pagava o consumo da eletricidade? O patrão ou o “escravo” que teabalhava 24/24 horas para ganhar uns míseros centavos da gaze que era produzida…
    A sua solidariedade era hipocrisia. No dia da comunhão solene de um dos seus filhos uma das suas escravas abandonou o afilhado que também comungava nesse mesmo ano… Para ir cozinhar – era a Chefe da época – para sua casa…
    E agora a crítica ao livro: em Moreira de Sousela houve gente com tanta ou mais dignidade para ser lembrada pela história…
    A mercearia era uma exploração… E os trabalhadores caseiros NUNCA tiveram qualquer benefício social.
    Pois… Mas o livro é um laudo… E basta!

    Reply
  2. Joaquim Hernâni Dias

    Em complemento do anterior comentário na Roménia no “cemitério feliz – de Sapanta nos Maremures” :
    “As lápides descrevem a vida do morto. E é a verdade, mesmo que não seja muito boa. Por exemplo, se o morto era preguiçoso, vai estar lá. Se gostava de beber, também”.
    Tem a virtude, como o defeito.
    E essa forma é em si a mais valorativa para registar a personalidade e identidade do falecido.

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